por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Nossa memória e o eufemismo da Melhor Idade

Nossa memória é nossa consciência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, somos nada. Luis Buñuel


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O filme Longe Dela de 2006 aborda de forma delicada uma doença comum entre as pessoas idosas, e por enquanto sem cura: o Mal de Alzheimer. Um casal de aposentados, Fiona e Grant, vivem juntos há 44 anos, quando Fiona começa a apresentar os primeiros sinais da doença. Quando o marido decide interná-la numa clínica, a condição é que ela fique por um mês sem a visita dele para um período de adaptação. Ao ir visitá-la pela primeira vez, ela não mais o reconhece e havia se afeiçoado a um paciente interno. Junto ao tema do Alzheimer se desenrola o do desenvolvimento da velhice e de toda a vivência de um relacionamento.

O Alzheimer é progressivo, afeta a memória, a linguagem e o raciocínio, até ao ponto em que a pessoa se torna dependente e não mais interage nem reconhece ninguém, nem a si mesmo no espelho, em casos avançados. Sensação de “estar desaparecendo” é como a personagem no filme Longe Dela se refere a sua doença.

São questões que até podem incomodar, mas uma realidade com a qual mais cedo ou mais tarde, seremos confrontados: a velhice, a daqueles que convivem conosco e a nossa. longe_dela_2006_g (1).jpg Cena do filme Longe Dela

Por sinal no Brasil, a sociedade e o governo estão extremamente despreparados para receber uma população tão grande de idosos. Hoje o país tem em torno de 18,5 milhões de idosos e a previsão é que em 2025 chegue a 64 milhões de pessoas. Em 2050 um em cada três habitantes será idoso. Ainda conforme levantamentos estatísticos, 71% teriam independência financeira, mas se este dado em particular estiver correto, o que acho estranho se levarmos em consideração os rendimentos da maioria dos aposentados no país, não deve aliviar a consciência dos governantes, pois ainda restariam 29% ou 5 milhões de pessoas que não têm essa condição.

A expectativa de vida no Brasil assim como no restante do mundo vem aumentando, e essa demanda está fazendo surgir cada vez mais instituições para abrigar essa população, com pouca ou nenhuma fiscalização por parte do poder público. As instituições públicas continuam precárias e várias das privadas, apesar de um custo mensal elevado e pouco acessível à maioria da população, não oferecem condições para que o idoso tenha qualidade de vida. namorados_idosos.jpg

Costuma-se dizer que o Brasil tem impostos de primeiro mundo e salários de terceiro. E de fato continuamos não vendo retorno dos altos impostos e taxas que pagamos, em melhorias na educação e saúde. O Brasil nunca teve um bom sistema de saúde. Pessoas idosas precisam de um seguro saúde, de cuidadores, de enfermeiros, alguém que cozinhe e faça a faxina, e não me parece que a maioria tenha condições de bancar tudo isso. É nesse ponto que questiono até onde vai essa “independência financeira” apontada pelas estatísticas.

A discussão acerca da terceira idade no Brasil é coisa recente que passou a ser vista apenas entre as décadas de 60 e 70. A tentativa de uma mudança sociocultural acabou por criar o Estatuto do Idoso, bonito na teoria e falho na prática, por todos os motivos já citados. A verdade é que nem o governo e nem a sociedade sabem o que fazer com essa crescente população.

Se na Europa que há tempos tem nos idosos uma grande parcela da população e tradição no bem estar social, os mais velhos estão sofrendo os efeitos da austeridade econômica, é de se imaginar o que acontece num país que nunca teve o desenvolvimento social como prioridade, apenas em discursos de campanha e com medidas pouco efetivas. Pode ser uma bomba relógio a médio e longo prazos. Recentemente cientistas do Canadá desenvolveram medicamento que apagaria as más lembranças, a Metapirona, com a finalidade de ajudar no tratamento de doenças pós-traumáticas. Mas será mesmo saudável apagar nossas recordações ruins? Boas e más lembranças são parte da história de cada um de nós. Seria interessante mutilar essa parte da nossa história?

Fonte: http://www.portalterceiraidade.org.br


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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