por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A Cinderela moderna, os contos de fadas e a Super Mulher

Os contos de fadas têm a nobre função de chegar ao inconsciente infantil para falar da realidade através da fantasia. Para passar valores e conceitos que as crianças ainda não podem compreender no nível consciente. Porém, essa crença no “final feliz”, por vezes se estende até a vida adulta.


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A psicanálise identificou alguns complexos e os batizou com nomes de personagens dos contos de fadas. É o caso do “complexo de Cinderela “ que foi abordado pela primeira vez na década de 80 pela psicóloga americana Collete Dowling, e da “síndrome de Peter Pan”.

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Cinderela é um dos mais populares contos infantis, e a versão mais conhecida foi escrita em 1697 por Charles Perrault, onde uma bela jovem que trabalha fazendo os serviços pesados da casa de sua madrasta, é maltratada por ela e suas filhas feias e invejosas, até o dia em que um belo príncipe a descobre e a salva. Nos contos de fadas, a única salvação da princesa é o príncipe, se ele não aparecer, ela estará para sempre condenada à infelicidade.

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As cinderelas modernas seriam a versão repaginada da personagem dos contos de fadas. Elas trabalham, estudam, mas continuam a esperar por um “príncipe encantado” que seja belo, inteligente, apaixonado, se possível rico, e ao invés do cavalo branco, venham montado em um carrão. Ele virá para salvá-las da luta diária e da vida monótona que levam, para uma vida de rainha.

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Nesse ponto vem à memória o conto do “Príncipe Sapo” dos Irmãos Grimm. Uma princesa vai ao lago e encontra um sapo, e mais tarde ao beijá-lo, ele se transforma em um príncipe. E não pense que o complexo de Cinderela é só coisa de mulher, ele também acomete os homens que projetam a “mulher perfeita.” Porém, na vida real é preciso lembrar que sapos não viram príncipes e, para as expectativas além do normal, é mais fácil o candidato à príncipe virar um “sapo” e a candidata à princesa virar uma “bruxa”.

Entretanto há o oposto da Cinderela. A figura da Super-Mulher, aquela que é auto-suficiente, dona do seu nariz e do seu destino, a heroína capaz de desempenhar várias funções , fora e dentro de casa, e todas muito bem. Quando os papéis sociais eram bem definidos, era mais fácil tanto para a mulher quanto para o homem. Agora a mulher fica num dilema entre dois extremos: a Cinderela frágil, meiga e desprotegida, e a Mulher independente e bem resolvida, o que parece nos dias de hoje, causar uma ansiedade de comportamento em ambos os sexos. Porém, é melhor pagar o preço pelo benefício da dúvida.

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Haveria ainda uma versão, digamos masculina ao Complexo de Cinderela, porque atingiria mais aos homens. A síndrome de Peter Pan, aquele homem que não quer crescer, tem medo de assumir responsabilidades, de se envolver, quer apenas desfrutar do momento presente. Segundo o psicólogo americano Dr.Dan Kiley, que escreveu um livro sobre o assunto com o mesmo título, podem parecer arrogantes, mas são vulneráveis, têm baixa auto-estima e muito narcisistas.

Pode parecer desanimador, decepcionante. Mas quando alguém disse que “o essencial não é visível aos olhos”, talvez tivesse razão. E é bom que não seja, que exija um investimento maior de tempo. O que vemos nos contatos superficiais e rápidos pode ser um engano, e não ser o suficiente para enxergar o que está por trás das máscaras sociais que todos nós usamos. Somos seres humanos reais de carne e osso, e totalmente imperfeitos.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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