por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O desejo de liberdade e o nosso destino inescapável

A liberdade é um conceito utópico. Somos ou não livres? Temos ou não livre arbítrio? Até onde vai nossa liberdade?



mito_de_sisifo_800.jpg http://lucianodudu1974.blogspot.com.br/2010/04/sisifo-o-lendario-fundador-de-corinto.html

Para alguns pensadores como Kant, Hegel e Karl Marx, a liberdade é essencialmente política e está na relação entre o indivíduo e o Estado. E o homem é livre porque o Estado pode lhe garantir essa liberdade através do Direito, e portanto direito e liberdade se misturam.

Sobre a liberdade política, não há o que discutir, deveria ser um direito do indivíduo, mas essa é uma liberdade insuficiente, incompleta. Porém, existiria outra forma de liberdade? O conhecimento nos traria mais liberdade? Certamente, o aprendizado acadêmico e formal não, esse nos serve apenas para ampliar horizontes profissionais. Mas é possível que haja outra forma de liberdade no aprendizado do pensamento, aquele que nos torna curiosos, nos instiga à exploração sem limites. E para que toda essa exploração, essa inquietude, essa insatisfação sem fim? Quem sabe não seja para continuarmos a caminhada, e o ponto de chegada nem seja assim tão importante.

Descartes dizia em seu tempo que a liberdade está inteiramente interligada ao livre arbítrio. O conceito de liberdade para Descartes, é quando se pode afirmar ou negar, fazer algo ou deixar de fazer, sem a intervenção de alguma força maior (seja divina ou não), podendo assim, escolher deliberadamente qualquer proposição. Entretanto, ele sabia que o homem nem sempre pode seguir a sua vontade, como nem sempre tem a opção de escolha, e aqui até caberia uma reflexão sobre até onde vai nossa liberdade de escolha nesses tempos midiáticos, em que somos bombardeados com apelos subliminares de todo tipo e a todo instante, e acabamos condicionados, seguindo padrões de comportamento que nos é imposto de forma sutil. surreal.jpg http://almocrevedaspetas.blogspot.com.br/2003_08_01_archive.html No entender do pensador Jean- Paul Sartre, estamos “condenados à liberdade”, não há limite para nossa liberdade, exceto o de que "não somos livres para deixarmos de sermos livres. "Não há nenhum determinismo, o homem é livre e nada o força a fazer o que faz. Para Sartre "nós estamos sozinhos, sem desculpas." O homem não pode desculpar sua ação dizendo que está forçado por circunstâncias ou movido pela paixão ou determinado de alguma maneira a fazer o que faz. No que diz respeito à ação, Sartre está correto, seria muito cômodo atribuirmos nossos atos às forças ocultas. Mas, e no que concerne ao pensamento, à imaginação, aos sentimentos?

Já para Albert Camus o homem está na verdade condenado a um destino inescapável: a morte. Em o Mito de Sísifo, Camus fala do “absurdo” de nossas tentativas de dar sentido a um mundo sem sentido. O “absurdo” para ele surge de uma comparação do ridículo com o sublime, como um homem atacando uma série de metralhadoras armado apenas com uma espada, ou o destino de Sísifo, condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima, só para que ela role montanha abaixo novamente quando ele alcança o cume. Para ele, não se deve tentar resolver o conflito, como fizeram outros autores e sua filosofia existencialista, na qual o absurdo é uma consequência do encontro entre um ser humano racional e um mundo irracional. Albert Camus e Sartre foram grandes amigos, mas romperam em 1951 e nunca mais voltaram a se falar.

Para Camus, aceitar o absurdo é aceitar a morte, recusá-lo é aceitar uma vida no precipício, na qual não se pode encontrar o conforto, mas apenas “viver num vertiginoso cume – isso é integridade, o resto é subterfúgio.” Mas então, devemos desistir da vida? Pergunta à qual ele responderia, que diante do absurdo, devemos de alguma forma “nos revoltar.” A “revolta” é a consciência de um destino esmagador, mas sem a resignação que deveria acompanhá-lo. surreal1.jpg http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2009/12/10/arruda-a-fase-do-autismo/

Assim, Sísifo, que está condenado à eterna repetição, e é inteiramente consciente dela, descobre que “a lucidez que devia constituir sua tortura ao mesmo tempo coroa sua vitória”. Segundo Camus, devemos imaginar Sísifo feliz, pois “ser consciente da própria vida num grau máximo é viver num grau máximo”.

Essa revolta metafórica talvez seja justamente a inquietude que nos instiga a explorar, numa busca contínua no espaço-tempo, nos estimulando a empurrar a pedra montanha acima, e permitindo a liberdade de nossa consciência.

Fonte: Os 100 Pensadores da Filosofia

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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