por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

"Meu tempo é quando"

A passagem do tempo tem inspirado poetas e pensadores e é certo que o tempo é um tema fundamental da nossa existência, e que o homem por sua condição e consciência da mortalidade é o único que possui o sentido da sua passagem. Por que será que este digamos, privilégio, nos foi atribuído?


relogio-dali.jpg Obra "A Persistência da Memória" de Salvador Dalí

Na infância queremos que o tempo passe depressa, na juventude prevalece um sentimento de imortalidade, e como diz o refrão da música Tempo Perdido de Renato Russo, “temos nosso próprio tempo”. Já na vida adulta quando o passado começa a ficar longo demais e a possibilidade de um futuro cada vez menor, desejamos desacelerar o tempo, frear as horas. Se em momentos agradáveis ele passa depressa, em momentos penosos como em uma semana de trabalho versus uma semana de férias, passa devagar.

101206olho_f_004.jpg

Nossos sentidos vez ou outra nos remetem ao passado e nos causam uma estranha sensação de nostalgia, nem sempre de alguém ou alguma coisa, mas sobretudo do tempo que ficou para trás, do que poderia ter sido vivido e não foi, daquilo que poderia ter sido dito e não foi, da pessoa que fomos e não somos mais. Apesar de podermos nos gabar de experiências adquiridas ao longo dos anos ou de anos bem vividos, nosso tempo é sempre insuficiente. Em algumas circunstâncias seria bom se caso fosse possível, como no filme O Efeito Borboleta (o título é uma referência a expressão utilizada na Teoria do Caos pelos cientistas), voltar ao passado para alterar o futuro. Mas como diria o poeta o tempo é implacável, segue seu curso e seu ritmo como as águas de um rio.

Platão e os gregos antigos acreditavam no mito do eterno retorno, onde o tempo é um movimento cíclico, cosmológico, tudo que acontece no passado se repete novamente em um círculo inexorável sem saída e sem fim, embora o tempo de cada um de nós não seja percebido como tal. Os fenômenos naturais como as marés e as estações do ano são cíclicos, mas alguns fenômenos históricos também o seriam. Esse conceito apesar de anular o peso do passado e da vida, encerraria o homem nas suas ações possíveis, bem como na realização de sua liberdade.

33772702.jpg

Vivemos nas dimensões lineares do tempo: passado, presente e futuro, um começo e um fim. O tempo cronológico contado em segundos e minutos. Aristóteles dizia que o tempo assim concebido não poderia existir. O passado já aconteceu, são apenas lembranças recentes e antigas, o futuro ainda não é, trata-se de uma possibilidade imediatamente após este momento em que escrevo, e o instante presente não tem duração precisa. Para Aristóteles o tempo é um movimento de transformação do mundo, mas nossa percepção está aprisionada no tempo linear cronológico e ficamos assim entre a angústia das lembranças e a expectativa do futuro.

Em trecho do poema "Passagem das Horas" de Fernando Pessoa, o tempo que preenche nossa memória, mas que é pouco para tudo que queremos viver:

Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero...

Na perspectiva de Kant, o tempo é uma estrutura da relação do sujeito com ele próprio e com o mundo. O tempo seria uma intuição no plano da sensibilidade juntamente com o espaço, e prévio a qualquer experiência. Trata-se de uma noção objetiva de observação. Mas ao depender da nossa percepção, a medida do tempo torna-se subjetiva, conclusão que parece em comum entre os pensadores. Estando apenas no plano das sensações, o tempo de cada um só existe porque nós existimos e pode estar aí a explicação quando é dito que nós somos a nossa memória. Alguém sem história , sem referências passadas deixaria de existir.

hilanderas.jpg Obra "As Fiandeiras" de Velásquez

A narrativa de uma imagem poética retratada na obra de Diego Velásquez sobre o trabalho das fiandeiras ao tecer suas peças, pode levar nossa imaginação a experimentar essa singular sensação da passagem do tempo: “as fiandeiras vão tecendo o tempo em sua roda de tear”. Vinícius de Moraes na letra da música Poética fala da fluidez do tempo e da sua natureza transformadora e cíclica:

De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros que contem Passo por passo: Eu morro ontem Nasço amanhã Ando onde há espaço:–Meu tempo é quando.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Eli Boscatto