por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A banalidade da cultura do estupro

Tantos absurdos, tanta violência escancarada nos causa fadiga. Mas apesar de tudo, o momento não é para se calar. Tenho lido nos últimos dias nas redes sociais, xingamentos de todo tipo, apologias ao estupro, tentativas de justificar o injustificável. Está claro que qualquer sociedade que compactua com isto está doente, e é o caso da sociedade brasileira.


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Entre os que acham que tudo isto é um exagero, que é coisa de feministas histéricas, há os que partem não apenas para a chacota, mas para a agressão verbal e a ameaça. E por incrível que pareça há desde adolescentes exibicionistas até professores universitários. Os críticos da pesquisa feita pelo IPEA Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas e que apresentou como resultado a maioria apoiando o estupro nos casos em que a mulher não se “comporte”, numa tentativa de minimizar a comoção causada e a importância da discussão, questionam a maneira como foi realizada a pesquisa. Mas creio que independente da metodologia utilizada, ficou demonstrado o que vem ocorrendo há tempos e que ninguém dá a devida atenção (nem mesmo a imprensa), fingindo que não existe, que é uma coisa de menor importância: a cultura do estupro. O estupro ou a possibilidade de que aconteça tornou-se banal. E a violência é tão mais terrível quanto mais silenciosa e cotidiana for.

j-b-debret.jpg Família patriarcal - obra de Debret

O Brasil por sua origem patriarcal tem historicamente uma cultura machista. Nas sociedades patriarcais a mulher e as crianças eram propriedades do homem da mesma forma que os escravos, o gado e as terras. Mas os conceitos machistas como se vê não são prerrogativas somente dos homens. Mesmo que a pesquisa não fosse bem conduzida, é recorrente a ideia distorcida de que a forma como a mulher está vestida, se está desacompanhada, o lugar em que ela está e o horário, significam que ela está “dando mole” e se for estuprada, a culpa é dela. Como se em países onde a mulher usa burca, não sai de casa desacompanhada, muitas vezes não pode sequer estudar e trabalhar, não houvesse violência sexual.

Este tipo de pensamento normaliza e relativiza o estupro e o torna comum, é o resultado perverso dessa cultura. Não há muito tempo um diretor teatral num evento do lançamento de seu livro, na frente de todos e das câmeras, passou a mão numa dançarina de programa de TV. Todos, com algumas exceções acharam normal, afinal ela se exibia em trajes mínimos na TV em um programa de gosto duvidoso, devia estar acostumada e até gostando, por que não deixar o espetáculo mais grosseiro ainda? Há casos de mulheres que são xingadas em baladas e chegam a sofrer tentativas de agressão física, quando rejeitam alguma investida masculina. As mulheres são abusadas nos meios de transporte público, isto é um problema antigo, mas o mais estarrecedor é saber que nas redes sociais foram criados grupos com a finalidade específica de cometer esses abusos, onde indivíduos se gabam dos atos praticados.

Alguns dados numéricos são bastante esclarecedores e preocupantes. Em 2012 o número de estupros no Brasil superou o de homicídios dolosos (aquele em que há intenção de matar), segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em quatro anos o registro de estupros cresceu mais de 100%. E metade das vítimas de estupro no Brasil são crianças. Os dados são alarmantes e o estuprador nem sempre é um desconhecido, nem sempre está numa rua escura e deserta, às vezes ele está bem próximo, é conhecido e acima de qualquer suspeita.

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Em um trecho muito bem colocado de um artigo falando sobre a cultura do estupro, a autora diz o seguinte: “não espere uma abordagem mais enérgica na grande mídia, porque a quem interessa reconhecer o monstro interior? O ser humano mais pacífico carrega consigo uma carga de informações que recebe da sua vida em sociedade e é aí que se flerta com o monstro, sem se dar conta. Ninguém quer entender que o monstro não é o outro, ele vive dentro de si”. Alguns conceitos e preceitos que nos são ditos e repetidos ao longo de nossa vida alimentam nosso monstro interior, e o monstro não é só o estuprador, mas também aquele que acredita que o estupro é merecido.

Não se pode afirmar com certeza se há hoje mais estupros que no passado. Em outros tempos a mulher sofria calada, pois caso denunciasse a humilhação poderia ser maior, e lamentavelmente ainda é assim em alguns lugares do mundo. Hoje no Brasil a mulher tem mais coragem para denunciar e os órgãos de segurança são também mais receptivos, mesmo que a lei não funcione como deveria.

A crítica furiosa contra o feminismo voltou a pauta, na maioria das vezes sem conhecimento de causa. A ideia original do feminismo não era tornar a mulher superior ao homem e sim tornar seus direitos iguais aos do sexo masculino. Qualquer ideia de superioridade dos sexos implica no que é chamado de sexismo, seja do homem sobre a mulher, da mulher sobre o homem, dos héteros sobre os homossexuais. Mas o preconceito e a violência contra a mulher têm raízes na sexualidade feminina que incomoda e assusta, à homens e mulheres desde sempre, e nada mudou tanto assim quanto parece.

Por sinal a hipocrisia coletiva tem sido colocada em prática mais do que nunca. Tudo acaba misturado no mesmo pacote do obscurantismo. Obras literárias estão sendo consideradas incitadoras do estupro. Daqui a pouco mulher que lê Sade, O Kamasutra e até os 50 Tons de Cinza, merece mesmo ser estuprada.

Aproveitemos então o momento e queimemos em praça pública os livros e as bruxas.

Fontes: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/11/numero-de-estupros-no-pais-supera-o-de-homicidios-dolosos-diz-estudo.html : http://maiordigressao.blogspot.com.br/2013/09/a-cultura-do-estupro-debaixo-do-tapete.html


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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