por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A fama, a hipocrisia e o mundo virtual

Observar a nós mesmos é um exercício além de interessante, instrutivo. Porém, não se trata de tarefa simples fazer isso sem distorcer a visão à nosso favor.


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A fama em outros tempos não era muito fácil de ser atingida, nem tão rápida. Havia poucos aparelhos de TV, os jornais e revistas eram todos impressos e a internet não existia. As pessoas só se tornavam conhecidas através do rádio e do cinema, e embora sorte e bons contatos fossem como ainda hoje de grande ajuda, digamos que o talento era mais exigido. Mas isto não significa que já não a desejávamos, somente o meio de obtê-la era mais restrito e demorado.

O desenvolvimento da tecnologia portanto, também facilitou nossa vida nesse quesito. Com o advento de aparelhos de TV cada vez mais modernos, dos satélites de longo alcance e da internet, entramos na “era das celebridades”. Hoje qualquer um de nós pode ter seus “cinco minutos de fama” e o surgimento das redes sociais foi decisivo para isso. Hoje o mundo está nas redes e não importa se essa tal “fama” é apenas ilusão passageira e somente restrita ao grupo de amigos virtuais.

Algo errado nisso? Não. Nós humanos buscamos atenção para satisfazer nosso ego, mostrando nossa figura, nossa vida, nossas opiniões, nosso trabalho, enfim uma necessidade ancestral de reconhecimento que às vezes sai do controle e extrapola, o que não é tão incomum, mas faz parte da psique humana. Em compensação ficamos expostos a todo tipo de julgamento alheio, a todo tipo de interpretação equivocada ou não. O mundo virtual é um terreno relativamente livre e heterogêneo e ao adentrarmos nele, ficamos de alguma forma vulneráveis.

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No mundo virtual nos tornamos mais corajosos, mais desinibidos, para o bem e para o mal, mas há também regras de boa convivência que permitem por exemplo comentários favoráveis ou não e até certa ironia, mas não permitem xingamentos e ameaças. Não podemos achar que vamos falar o que queremos, mostrar o que queremos e todo mundo vai curtir e ninguém vai se manifestar em contrário, embora nosso desejo secreto seja esse. E se aqui estamos, até que ponto queremos ser ignorados?

As críticas às vezes bem humoradas e outras mais contundentes sobre a hipocrisia nas redes sociais, não deixam de ter fundamento, mas a comicidade está na ironia de serem feitas por quem está justamente dentro das redes. Mas isto se justifica se considerarmos que rir de si mesmo é uma forma de sabedoria, afinal a hipocrisia não é um fato novo, ela é característica dos agrupamentos sociais desde que a humanidade existe, e a hipocrisia só está nas redes porque fomos para lá. O mundo virtual pode ter mudado as relações humanas, a forma de se comunicar e interagir, mas não alterou em nada a essência humana, apenas potencializou alguns aspectos.

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Se estamos na rede e ela nos propicia senão a fama propriamente dita, pelo menos um afago no ego e às vezes até um retorno financeiro, não deixa de ser também hipocrisia “cuspir no prato que comemos”. Guardadas as proporções, é como se tornar de repente famoso, gostar do sucesso que se tem, sequer pensar em viver sem ele, mas ficar se lamentando do assédio e da perda de privacidade.

E vamos combinar que entrar nas redes sociais apenas como “voyeur” não tem a menor graça, melhor participar da “festa”. Mas não podemos perder de vista as contrapartidas. Não passamos incólumes pela vida, se o anonimato tem seu preço, a “fama” também tem.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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