por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O que temos em comum com O Retrato de Dorian Gray?

O filme O Retrato de Dorian Gray lançado em 2009 e dirigido por Oliver Parker baseado na clássica obra de Oscar Wilde publicada em 1890, conta a história de um jovem aristocrata inglês, cujo retrato envelhece em seu lugar.


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Dorian, um jovem ingênuo e muito atraente, após herdar a fortuna do pai passa a frequentar a alta sociedade londrina onde conhece e se torna amigo de Lord Henry Wotton, um sujeito cínico que atrai o jovem para sua visão de mundo, onde as únicas coisas que importam são a beleza e os prazeres. Um artista, Basil Hallwald, resolve pintar o retrato de Dorian e ao ver seu rosto imortalizado na pintura, ouvindo as palavras de Henry Wotton que o encoraja a viver todos os prazeres da vida aproveitando sua juventude e beleza, Dorian decide seguir os conselhos do amigo e resolve que para parecer eternamente jovem como no retrato, entregaria até mesmo a alma ao diabo.

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Ele passa então a experimentar todas as formas de prazer possíveis: festas regadas a sexo sem compromisso, drogas e bebidas, tornando-se ao mesmo tempo cada vez mais egoísta e cruel. O Dorian do retrato começa a envelhecer em seu lugar, enquanto ele permanece jovem e belo. Mas quem é o Dorian real? Ele ou seu duplo? O livro foi um escândalo para a época por causa das insinuações homoeróticas de uma paixão platônica do pintor de retratos Hallwald por Dorian, e Wilde chegou a ser julgado mais de uma vez e preso, viu sua fama desmoronar, seus livros serem recolhidos e suas peças retiradas de cartaz. Dizem que Dorian Gray era seu alter ego, ele mesmo teria passado o resto de seus dias morando em hotéis baratos e se embriagando.

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O filme não foi muito bem recebido pela crítica que o considerou pouco fiel ao livro. Mas talvez as adaptações de obras literárias para o cinema não sejam de todo ruins se servirem para despertar o interesse das novas gerações, e Dorian Gray pode perfeitamente ser trazido para os dias de hoje. Em seu tempo como uma crítica à sociedade da época vitoriana onde a hipocrisia e o hedonismo estiveram fortemente presentes, O Retrato de Dorian Gray pode ser entendido como uma metáfora sobre a velha natureza da vaidade humana, que tanto quanto nos move, pode nos cegar e nos colocar em uma delicada fronteira entre a felicidade e a desgraça.

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Quando Dorian ao voltar para a cidade depois de vários anos com a mesma fisionomia, mas entediado, vai ver seu retrato que está escondido no sótão da casa, percebe que sua imagem entrou em decomposição e tornou-se monstruosa. Ele então cai em si, mas parece tarde demais. Em uma das cenas onde ele é confrontado por seu outrora amigo Henry Wotton que questiona seu comportamento, Dorian responde: “eu sou o que você me tornou, fiz tudo aquilo que você queria mas nunca teve coragem de fazer.” Em outra cena onde Dorian perturbado resolve confessar seus crimes e pecados, ele responde ao padre que lhe diz que só Deus pode ver a alma: “eu posso ver minha alma, e ela está podre”.

O filme contém muitas referências históricas e literárias e mantém a ironia e o sarcasmo próprios de Oscar Wilde. O enredo nos leva a reflexões sobre a busca mirabolante por aquilo que acreditamos ser felicidade, sobre a moral e a imortalidade. Em uma das cenas um dos personagens diz: “há coisas que só são valorosas porque não duram para sempre”. Wilde parece querer nos dizer que a moral só existe pelo temor da punição imposta pelos freios sociais e religiosos. Se de repente nos descobríssemos imortais, agiríamos da mesma forma que Dorian. Essa moral que emana do temor da punição é um engodo que não resistiria à imortalidade.


Eli Boscatto

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