por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O que tanto me atrai na vida virtual e por que?

O tema é inesgotável por trata-se de um fenômeno que norteia a vida em nosso tempo. Não se trata de fazer nenhum juízo de valor, mas de uma reflexão sobre nosso curioso comportamento ao tentarmos lidar com valores e impulsos dentro de um novo contexto, que para as novas gerações nem novo é, uma vez que quando nasceram o mundo já era assim.


images (9).jpg

Afinal, o que tanto me atrai na vida virtual e por que? Será porque tenho platéia, fico mais corajosa(o), desinibida(o), posso destilar meu ódio e minha intolerância? Aqui posso eleger algumas “bruxas” e queimá-las no “fogo virtual” das redes, afinal o mal está nos outros e não em mim. Às vezes leio meia dúzia de frases ou nem isso e já tiro minhas conclusões acerca de fatos e pessoas. Em outras, na pressa e ânsia de perder alguma coisa compartilho informações sem checá-las, já que não tenho tempo a perder. Embora eu negue, estou nas redes para ser bem aceita (o) e não refutada (o). Já não basta apenas ter ou ser, é preciso mostrar, ostentar.

Esta necessidade que o ser humano tem de aparecer e ser bem aceito não é nenhuma novidade, mas nunca como agora pessoas comuns como nós tivemos tantos holofotes tecnológicos à mão. Nietzsche dizia que “a vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade". Ficar em silêncio apenas observando pode nos poupar de pré-julgamentos e nos colocar na confortável posição de juízes nos isentando tanto das boas quanto das más impressões, e ainda nos dar a falsa sensação de que somos diferentes. Não somos.

images.jpg

Ficar muito tempo em nossa própria companhia não é fácil, mas se antes era possível sentir-se só no meio da multidão, hoje sequer percebo a multidão pois tenho as companhias virtuais onde os laços são frágeis e posso me desfazer de relacionamentos apenas com um clique, sem maiores complicações. Nunca foi tão difícil discernir realidade e fantasia, verdade e mentira. Se antes eu precisava das tais máscaras sociais, agora basta eu me esconder atrás de uma tela. Mas claro está que se voltássemos somente para a vida real outra vez, iríamos perecer de tédio.

lounge-empreendedor-o-perigo-da-vaidade.jpg

Isto tudo faz das redes um terreno superficial com pouca credibilidade, um “espelho” onde o ser humano pode projetar seu outro “eu”. Mas enfim o que somos nós senão humanos? Novamente o velho Nietzsche em Além do Bem e do Mal escreveu: "O vaidoso alegra-se com cada boa opinião que ouve sobre si mesmo (independentemente da sua utilidade ou, da mesma forma, de ser verdadeira ou falsa), tal como sofre com cada má opinião; submete-se a ambas, sente-se sujeito a elas devido àquele velho instinto de submissão que nele irrompe, é o 'escravo' que subsiste no sangue do vaidoso, um resto da astúcia do escravo". Parece que mais do que nunca somos todos escravos.

Não podemos negar que a conexão entre todos nós no planeta que só foi possível através da rede mundial de computadores, derrubou algumas fronteiras e nos permitiu tomar conhecimento online de como anda a humanidade. Parece que a humanidade anda mal. Porém a boa notícia é que se quisermos podemos tirar algumas lições disso. As redes têm o poder e a força de sensibilizar o mundo em torno de causas humanitárias, sociais e ambientais, mas a rapidez, a quantidade de informações e a falta de profundidade, uma característica marcante das redes, podem minimizar os acontecimentos que logo após a comoção e entusiasmo iniciais são esquecidos; e algumas coisas precisam ser incansavelmente repetidas.

char07102011.gif

É quase impossível conceber a vida pós-moderna sem estar conectado, mas em que momento as redes sociais deixam de ser apenas uma ferramenta que nos permite essa conexão com pessoas distantes, onde nós escolhemos se queremos ou não nela entrar e de que forma vamos usá-la?


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @obvious //Eli Boscatto