por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

As Irmãs Madalena

Alguns filmes deveriam ser assistidos por todos nós. É o caso de As Irmãs Madalena, filme irlandês lançado em 2002 que conta a trajetória de quatro mulheres. O que o torna ainda mais inquietante é ter sido baseado em fatos reais.


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"As Irmãs Madalena" foi o segundo longa metragem de Peter Mullan e ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2003. O cenário é a Irlanda da década de 60 e retrata o que acontecia nos conventos de Maria Madalena na Irlanda, administrados por freiras da Misericórida em nome da Igreja Católica. Algo que na idade contemporânea só imaginamos que ainda aconteça no Oriente Médio e na África. Esses asilos católicos recebiam moças que eram enviadas para lá contra a vontade delas por suas próprias famílias ou por orfanatos, pelos mais variados motivos como ser mãe solteira, ser muito bonita, muito feia ou muito inteligente, ou ter sido vítima de estupro. Os conventos eram como prisões, e lá elas eram encerradas por tempo indeterminado para expiar seus “pecados” que consistia em trabalhos forçados nas lavanderias sem nenhuma remuneração, submetidas a castigos e humilhações, físicas e psicológicas.

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O título do filme assim como o nome dos conventos, são uma referência à Maria Madalena, que segundo o cristianismo teria sido uma prostituta, e como prostitutas eram vistas essas mulheres por uma parte da sociedade irlandesa. Elas carregavam um estigma, e naquele ambiente opressivo duas cenas, entre outras, são capazes de revolver as entranhas de nossa alma: uma delas em que os pais obrigam a filha a dar o próprio neto em adoção assim que ele nasce, e a outra em que uma das internas ao fugir e voltar para casa, é arrastada de volta ao convento pelo seu próprio pai que não a quer mais.

O enredo nos apresenta uma perspectiva sobre crenças, preconceitos e a condição de muitas mulheres no mundo, e expõe o que está longe de ser algo isolado estando ainda presente de variadas maneiras em maior ou menor intensidade, e faz uma constatação que gostemos ou não, não dá para negar: a mulher tem sido a maior vítima dos dogmas religiosos em diferentes lugares e épocas.

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Não se trata de radicalismo feminista, de trocar um dogma por outro. Feminismo não é o oposto de machismo, ou pelo menos não deveria ser. Feminismo trata-se apenas de um movimento que luta por direitos civis iguais. Mas quando por exemplo surgem palavras como “feminazi”, uma expressão repugnante para insultar e depreciar tudo que tenha relação com esses direitos, está claro que nada mudou muito. As três maiores religiões da nossa civilização concebem a mulher de forma maniqueísta, ou como santa ou como demônio. Seus preceitos pregam que sobre a mulher pesariam todas as “virtudes” e todos os “pecados” da Terra, é ela quem pode corromper a alma masculina. Precisa portanto ser contida. Ao contrário da mulher, aos homens não é tão exigido que controle seus instintos, as religiões são mais benevolentes com os “pecados” masculinos. Não estamos falando das exceções que existem de ambos os lados, mas os homens historicamente consideram a mulher como parte de suas conquistas materiais e da afirmação de seu poderio, e em diversas situações isto pode ser levado aos extremos da violência.

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Um dos papéis atribuídos à religião são os chamados “freios morais” colocados através do medo da punição e da recompensa divinas. Interessante que esses freios morais tenham muito mais a ver com a repressão da sexualidade humana que com a destruição, tanto física quanto psíquica, do próximo. Mas seja como for, é certo que a religião por si só não torna o homem melhor, e exemplos não faltam. Certa vez ouvi de alguém que o ser humano precisa da religião como uma espécie de “muleta”. Mas então precisamos de “muletas” para sermos éticos?

Na opinião do próprio produtor do filme, os conventos de Maria Madalena são algo do qual a Irlanda deveria se envergonhar. O último deles teria encerrado suas atividades em 1996.


Eli Boscatto

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