por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Será que podemos tirar alguma lição do atentado ao jornal Charlie Hebdo?

Diante da comoção gerada por acontecimentos como o ataque ao jornal Charlie Hebdo, tendemos a agir com a emoção, pelo menos em um primeiro momento. No entanto não podemos nem devemos desprezar a razão e nos colocar em apenas um dos lados sem tentar analisar o outro, arriscando nosso senso de humanidade. Tenho lido de tudo nas redes sociais, em blogs, jornais e felizmente alguns autores têm mantido a lucidez.


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Este triste episódio serve para refletir sobre certos dilemas da sociedade, em questões como liberdade de expressão, censura e preconceitos. Nada justifica assassinatos e é insano pensar que os terroristas estavam certos de alguma forma ao atacarem o jornal, mas então você vê pessoas defendendo a ação deles porque afinal de contas os jornalistas provocaram ao fazer chacotas sobre o Islã. Bom, digamos que sim, eles satirizavam o Islã e outras religiões. Mas que nome dar por exemplo aos radicais islâmicos que condenam jornalistas e reféns estrangeiros a decapitação e ainda filmam e divulgam nas redes sociais? Isto não seria uma provocação muito pior ao ocidente? Devemos ir lá, e na dúvida matá-los a todos? Não. Eles são “radicais”, o termo está bem claro, e quem disse que eles representam a maioria do povo muçulmano?

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É fato que na atualidade o islamismo é a religião que mais abriga fanáticos que não querem diálogo, mas impor seus dogmas pela força, se valendo de uma interpretação distorcida do Islã, basta lembrar como eles veem e tratam a mulher. Para alcançar seus objetivos não poupam sequer seu próprio povo. Porém no passado, outras religiões cometeram seus crimes, como a igreja cristã durante as cruzadas e a inquisição. Espera-se claro, que a humanidade evolua em seus costumes, sua cultura e seus preceitos, mas parece que as coisas não acontecem em todos os lugares ao mesmo tempo.

burning-23.jpg Imagem da inquisição

E o que pensar quando se invoca o humor politicamente incorreto como forma de justificar ou colocar tudo no mesmo caldeirão? Até onde o “politicamente incorreto”, usado como se o sentido da expressão fosse exatamente o oposto, serve para justificar toda piada de mal gosto? Quando se tenta comparar o que um humorista brasileiro disse sobre negros e gays no passado não se ofenderem com piadinhas sobre eles, e o atentado no Charlie Hebdo? A pergunta no caso que deveria ser óbvia é se os negros e gays do passado não se sentiam mesmo ofendidos ou não tinham meios para se manifestar e achavam que não adiantava nada mesmo. Existe diferença entre as duas situações? Sim e não. Sim, porque criticar sistemas políticos e religiosos é bom e necessário, diferente de depreciar pessoas. E não, porque até que ponto temos o direito de debochar de uma religião, considerando no caso a religião como parte da cultura de um determinado povo, ainda mais quando se trata de imigrantes que não são muito bem aceitos dentro da sociedade em que vivem, é certo que tomarão isto como ofensa pessoal.

No Brasil por muito tempo e ainda hoje os seguidores do candomblé e da umbanda são chamados de “macumbeiros”. Imagine quanta piada não pode ser criada em cima disso. Muitos de nós há tempos fazemos piada com os evangélicos, com os judeus. A diferença é que esses não são fundamentalistas que querem impor sua crença pela força.Temos um botão no automático que costuma generalizar e é daí que surgem os estereótipos. Então também passamos a achar que todo muçulmano é “terrorista”. Eis outro grande perigo. Deveria haver um limite? E quem vai estabelecer esse limite, afinal isto não é censura? o-JE-NE-SUIS-PAS-CHARLIE-facebook.jpg

A censura é inaceitável em um sistema democrático, mas até que ponto? A censura contra obras da literatura por exemplo é sem sentido, e a censura prévia é ainda pior. Mas se eu recorro à liberdade de expressão como trunfo para incentivar a violência e o preconceito, tudo bem? Então devem existir meios legais para aqueles grupos ou pessoas que se sintam ofendidos. A liberdade de expressão é vital, mas eu devo arcar com as conseqüências se eu extrapolar. No entanto alguém acredita que a Lei trata igual os nativos e os imigrantes?

É possível prever que o resultado de mais esta insanidade seja o aumento da xenofobia na Europa. A violência extrema começa bem antes, com o sentimento de ódio ministrado diariamente em doses homeopáticas, através da nossa intolerância, do nosso fanatismo seja ele ideológico ou religioso, da nossa certeza na superioridade em relação aos outros. É certo que para não perder o próximo de vista não podemos esquecer do velho “clichê” que ilustra este artigo.

Veja mais artigos sobre o assunto: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/matheus-pichonelli/terror-la-estupidez-aqui-124718557.html?linkId=11621362 http://emtomdemimimi.blogspot.com.br/2015/01/je-ne-suis-pas-charlie.html?spref=fb


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