por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O Cinema Russo pelas lentes da política russa

No Brasil o cinema internacional mais conhecido é o americano, depois talvez o francês, mas pouco se houve falar do cinema russo.


cartaz-do-filme-ivan-o-terrivel-de-sergei-eisenstein-1405028831709_802x580.jpg "Ivan, o Terrível"

Se a literatura russa é uma das melhores, o cinema russo é um dos mais antigos e importantes da história da sétima arte. Durante o regime czarista obras de Tolstói e Dostoiévski já eram adaptadas para as telas. Por ocasião da revolução russa e da instalação do novo regime, o cinema surge em um momento histórico em que o ideal do povo passou do cristianismo ortodoxo para a utopia comunista, que prometia como a religião, o reino da verdade e da justiça. Finalmente depois de séculos de imperialismo, uma vida feliz com igualdade e liberdade que seria experimentada ainda na Terra. Os ícones sagrados iam sendo substituídos pelos ícones do comunismo, e a revolução em sintonia com o desejo do povo se empenhou em destruir o Estado, mas ainda nem bem havia terminado e já se apressava em construir outro. Não tardou para que o reino comunista se tornasse ainda mais poderoso que o reino dos czares. Naquele momento o cinema russo sofria as influências do governo bolchevique que incentivava a produção de filmes que exaltassem a coragem e a valentia do povo. Mas seu cinema se tornaria célebre assim como a literatura, através de filmes e artistas diferentes e ideias distintas.

download (6).jpg Serguei Eisenstein

Em meados dos anos 1919 surge na Rússia um movimento artístico chamado Construtivismo dando ênfase no “sentido construído” através da arte, negando a chamada “arte de representações e abstrações”. Mas é no cinema que o Construtivismo ganha características próprias, e nessa fase se destacam entre outros, diretores como Serguei Eisenstein com filmes como O Encouraçado Potemkim de 1925 e Ivan o Terrível de 1944 e Dziga Vertov com O Homem da Câmera de 1929 e vários filmes de animação de curta metragem que faziam propaganda das fazendas coletivas e do Partido. Eisenstein, porém, apesar de produzir filmes que agradavam o regime, teve constantes atritos com Josef Stálin por causa de sua visão do comunismo e da sua defesa da liberdade de expressão artística. Em contraposição durante o período da Guerra Fria, os Estados Unidos produziam filmes para demonizar o comunismo, foi nessa época que surgiu o famoso agente espião 007. Os Estados Unidos, por sinal, tiveram oportunidade de conhecer e usar até hoje muito das técnicas cinematográficas de Eisenstein que trabalhou por um período em Hollywood.

potemkin.jpg "O Encouraçado Potemkin"

Desde a Revolução Russa de 1917 até a extinção da União Soviética em 1991, foram 74 anos em que muitos intelectuais e diretores de cinema sofreram todo tipo de censura, que começaram a se abrandar a partir da década de 1980 no governo de Mikhail Gorbatchev. É deste período o chamado novo cinema russo com filmes como Penitência (1984), Garota Internacional (1989), um dos primeiros filmes a abordar o tema da prostituição na União Soviética, O Assassino do Czar (1991), que conta a verdadeira história do assassinato da família imperial russa e O Sol Enganador de Nikita Mikhalkov, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1995. É importante também citar Alexander Sokurov com filmes como Arca Russa de 2002 e Fausto de 2011, vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Mas um dos diretores que merece destaque é Andrei Tarkovsky. Formado em pintura e música quando criança, Tarkovsky tinha um sentido apurado, produzindo filmes poéticos para falar da realidade.

Foto-1-Andrei-Tarkovsky-cineasta-ruso-1932-1986-1.jpg Andrei Tarkovsky

Entre os novos diretores russos que surgiram na última década, estão algumas mulheres como Maria Saakian, uma cineasta de 34 anos que trouxe três filmes para a Mostra de Cinema Russo Contemporâneo da Caixa Cultural no Rio de Janeiro, evento que ocorreu em fevereiro deste ano: Farol de 2006, Essa não sou eu de 2012 e Entropia de 2012. Outro filme da Mostra que merece destaque é Leviatã, uma alusão à obra de Thomas Hobbes do diretor Andrey Zvyagintsev, ganhador do Melhor Roteiro no Festival de Cannes de 2014 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O crítico de cinema Andrei Plakhov que veio para a Mostra no Rio, mostrou-se preocupado com as tentativas recentes do governo russo de controlar o que se diz e se mostra nas produções que recebem incentivo público, até hoje alguns diretores são comissionados para fazer filmes de propaganda.

Não é uma novidade que até mesmo as artes podem ser usadas em benefício de ideologias políticas, algumas são criadas com esse objetivo, outras ganham nova interpretação para o mesmo fim. Hitler já fazia isso na Alemanha com a música e o cinema, e até com a filosofia. Não é fácil para os artistas driblarem governos autocráticos.

maria_saakyan-3c4e51.jpg Maria Saakian

A Rússia é hoje, teoricamente, uma República presidencialista, mas parece que uma tradição autoritária a persegue agora na figura de Vladimir Putin, um ex-agente da KGB que governa o país de forma centralizadora há 16 anos, envolvido em suspeitas de corrupção, de liderar uma nova máfia russa, e com assassinato de opositores. Se depender do governo o cinema russo que se cuide.

Os melhores filmes de Tarkovsky: Nostalgia – 1983 - O Espelho – 1975 Solaris – 1972 Stalker – 1979 - O Sacrificio - 1986 - A Infância de Ivan - 1962 - Andrey Rublev - 1966

Melhors filmes russos de todos os tempos: http://melhoresfilmes.com.br/paises/russia

Fontes: http://corvobranco.tripod.com/ArtigosHT/ht_cinemarusso.htm http://cafecomwhisky.com.br/construtivismo-russo-e-o-cinema/ http://oglobo.globo.com/cultura/filmes/no-cinema-uma-nova-revolucao-russa-15222514


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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