por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A cultura cyberpunk - os rebeldes da era digital

O cyberpunk é definido como uma subcultura, um subgênero de ficção cientifica, mas é possível dizer que sua origem embrionária foi sendo gerada na desilusão por regimes de governo que prometiam “sociedades perfeitas” em uma época não muito distante e depois pela exclusão digital da maioria, cenário que mudou muito nos últimos tempos.


shohei-otomo-0.jpg Ilustração de Shohei Otomo

Nossa vida é muito melhor, as facilidades tecnológicas que temos hoje nem se comparam há décadas passadas e se preciso for brigamos para termos iguais direitos a essas facilidades, o direito inalienável de adquirirmos cada vez mais coisas que nos atribuam um pseudo poder. Nada mais justo. De resto está tudo perfeito. Está? Esta uma daquelas perguntas que de tempos em tempos é sempre bom fazer, haja ou não respostas. Mas voltando ao tema proposto, o cyberpunk surgiu como uma referência à nossa era digital e ao sentimento de solidão e desencanto com as promessas de felicidade proporcionados pela tecnologia avançada. Hoje já se fala no pós-cyberpunk, sendo no início mais voltado para os efeitos da alta tecnologia sobre o indivíduo e agora sobre a sociedade. A diferença do cyberpunk “clássico” está na característica dos personagens em atuar para melhorar as condições sociais, e surge daí os conflitos entre hackers na ficção, agora já divididos nas categorias do bem e do mal.

1340998268_1261446593_los_angeles_en_blade_runner (1).jpg Imagem do filme Blade Runner

O estilo cyberpunk começou a surgir nas últimas duas décadas do século XX com preferência por música psicodélica e a fusão do punk rock com música eletrônica, e descreve o lado niilista e underground da sociedade digital, com uma visão distópica de mundos da ficção científica. Antes do surgimento da expressão “cyberpunk” a literatura e o cinema já questionavam o sonho da sociedade perfeita. A maioria dos romances foram para as telas e podemos destacar alguns como “1984” do livro de Orwell, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, Fundação de Isaac Asimov, Blade Runner que teria sido inspirado no livro “Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?” de Philip K.Dick, Laranja Mecânica, Uma Odisséia no Espaço, Minority Report, entre tantos. Alguns foram até visionários. Outro clássico da ficção científica dos anos 80 que estava sendo cotado a ir para as telas é o livro de William Gibson, Neuromancer que já foi inspiração para filmes como Matrix.

Banda de música eletrônica alemã The Kraftwerk

No meio musical houve uma junção entre a música eletrônica e o punk rock. Além das bandas eletrônicas mais antigas,afinal música eletrônica vai muito além daquele som repetitivo de “bate estaca”, prova disso são bandas como a alemã The Kraftwerk e o Depeche Mode, apenas como exemplos; até bandas de punk rock como The Ramones, The Adicts, The Offspring. Lembrando também da ótima trilha sonora composta por Vangelis para o filme Blade Runner. Com o cyberpunk surgiram novas bandas desconhecidas do grande público, como é o caso da Karuniiru que embora seja um nome japonês é uma banda portuguesa, e a banda italiana Dope Stars Inc. que lançou um álbum em 2005 chamado Neuromancer .

Dope-Stars-Inc. (1).jpg Banda Italiana de punk rock Dope Stars Inc.

Há algo que sempre nos inquieta nas “sociedades perfeitas”: aquela atmosfera sufocante de comportamentos padronizados para finalidades determinadas, onde a consciência foi suprimida e restou somente apatia mantida através de meios sofisticados de controle da mente. As emoções, grandes responsáveis pelos males da humanidade, foram eliminadas e temos então o melhor dos mundos onde reina a paz, a ordem, a saúde. Mas trata-se de um engano. No filme Admirável Mundo Novo há uma passagem que traduz muito bem esse sentimento ao falar sobre a “droga da felicidade” usada pelos personagens, chamada “SOMA”. Qualquer semelhança com Rivotril, Prozac, Ritalina, etc. é mero acaso.

“Não havia espaço para questionamento ou dúvidas, nem espaço para conflitos, pois até os desejos e ansiedades eram controlados pela SOMA. Sempre no sentido de procurar a ordem dominante. Ex: A servidão tornou-se aceitável mediante doses regulares de felicidades.”

utero_artificial_admiravel_novo_mundo.jpg Imagem do filme Admirável Mundo Novo

Podemos ser “escravos” de um sistema, da necessidade e da vontade, mas é pior ser “escravo” acreditando-se livre. A tomada de consciência da nossa condição pode ser uma lufada de ar fresco, um passo mesmo que vacilante para a liberdade a qualquer tempo. É por esta razão que na ficção científica é severamente proibido qualquer tentativa de humanização da máquina. Deseja-se que o humanóide permaneça humano apenas na aparência. O cyberpunk surgiu como manifestação estética contrária a esse sistema de controle da vida contemporânea

shohei-ballpoint-pen-drawings-5.jpg Ilustração de Shohei Otomo

Nas artes visuais podemos destacar o ótimo trabalho do ilustrador japonês Shohei Otomo que combina arte tradicional com um estilo moderno. E até mesmo poesia como esta de Glaucio Aranha:

Megamediatrends

Silenciosos e pacatos seguem como rés e como res*. Já sem discernimento, com contentamento. Já sem autonomia, com entretenimento.

Silenciosos e pacatos vão como se a um leilão: seu labor por uma oferta muitas vezes feita às pressas.

Silenciosos e pacatos trocam: pores-do-sol não vividos, paisagens para os sentidos por um copo refrescante com padrão transnacional. Extensões do ser humano ou, possível, mero engano: os olhos em multicor vidrados no monitor.

Silenciosos e pacatos estão: digitando seus segundos, aquém do aquém do mundo. Naufragados entre amigos, que escondidos, permanecem como signos, sem ter ouvidos, sem ter braços ou sorrisos quando é preciso; apenas a procissão de informação simulando integração.

Silenciosos e pacatos estão desi(e)nformados, num mosaico de metástases unificados, devorando e devorados. Silenciosos e pacatos somem

Nota: “res” do latim = coisa

Glaucio Aranha: http://letrazcyberpunk.blogspot.com.br/

Shohei Otomo: backwoodsgallery.com/artists/shohie-otomo/?artist..


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Eli Boscatto
Site Meter