por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Os mais impressionantes documentários sobre questões que não podem ser esquecidas

O documentário pode ser um poderoso meio de denúncia , uma forma de dar voz aos esquecidos e invisíveis, de mudar conceitos e transformar o olhar.


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O documentário é um gênero do cinema de não-ficção muito utilizado pelo jornalismo, uma crônica que junta o impacto das imagens com a força da narrativa para abordar a realidade ou criar em torno uma história fictícia para pensar sobre ela. O documentário pode ser um poderoso meio de denúncia , uma forma de dar voz aos esquecidos e invisíveis, de mudar conceitos e transformar o olhar. A realidade às vezes nos surpreende, às vezes nos inquieta, mas como diria o poeta, a realidade em si não é feia nem bonita, a beleza está na relação que cada um de nós tem com ela. Sobre isto dizia Fernando Pessoa: “a civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. Manufaturamos realidades.”

Ilha das Flores (1989) Direção: Jorge Furtado

Considerado um dos melhores documentários em curta-metragem do cinema brasileiro, o filme fala sobre a pobreza do povo brasileiro de forma única e irônica, através da Ilha das Flores, que serve como depósito de comida que a classe média não consome e de banquete para os necessitados. O lugar existe, ou existiu, embora tenha-se criado uma história para se pensar essa realidade. “Ilha das Flores” é um depósito de lixo, no rio Guaíba, em Porto Alegre no Rio Grande do Sul. O filme propõe tanto pensar sobre o problema social quanto sobre o desperdício, tão comum no ciclo de consumo de nossa era. Jorge Furtado é também autor de O Homem que Copiava (2003) e Meu Tio Matou um Cara (2004), além de muitas minisséries e outros filmes. Ilha das Flores foi premiado com o Urso de Prata de melhor curta-metragem no Festival de Berlim (1990) e com o prêmio de melhor curta do Festival de Gramado no mesmo ano.

Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (1999) Direção: Marcelo Masagão

Este filme lançado em 1999 do diretor Marcelo Masagão, traça um retrato instigante do século XX, dando uma volta ao mundo no seu contexto histórico social, político, econômico e cultural. Com imagens de arquivo mostra as histórias de pessoas comuns e também de tiranos sanguinários responsáveis pela morte de milhares de pessoas. Um século marcado pela revolução tecnológica, científica e de costumes, e suas conseqüências para o indivíduo. Parece que tais mudanças não trouxeram junto a mesma evolução do aspecto humano, não nos tornamos melhores por causa disso, o que se viu foi a banalização da vida naquele século, ainda tão presente no atual.

The Corporation (A Corporação) – 2003 Direção: Mark Achbar e Jennifer Abbott

Um ótimo documentário que mostra como a grande corporação foi ganhando poder ao longo do tempo, poder que se consolidou ainda mais com a globalização. Hoje podemos dizer que quem controla o mundo não são os governos e sim as grandes corporações se valendo da mídia, das instituições e dos políticos que são facilmente comprados, e o impacto que isto pode causar em nossa sociedade contemporânea. The Corporation mostra até que ponto pode chegar uma instituição para obter grandes lucros, destacando seus pontos psicológicos como a ganância e a falta de ética.

Muito Além do Peso (2012) Direção: Estela Renner

Podemos fazer um paralelo com o documentário anterior (A Corporação), para falar desse outro produzido em 2012 sobre o poder de convencimento e sedução da indústria alimentícia no mundo todo sobre as crianças e os malefícios à saúde delas. A comparação feita no texto do vídeo com as drogas pode parece exagero, mas não é. A indústria foca suas estratégias de publicidade nas crianças que uma vez conquistadas adquirem maus hábitos para o resto da vida e se tornam reféns dela. Este é um vídeo que todos que se preocupam com a saúde de nossas crianças deveriam assistir, mas não adianta os pais exigirem que os filhos se alimentem de forma saudável se os próprios pais não o fazem. “Os pais acham que estão mantendo os filhos seguros ao se certificarem que não há traficantes em volta da escola ou que a criança não conversa com estranhos. Acontece que há um outro vilão, muitas vezes mascarado, que vem tomando as vidas das crianças bem de frente aos olhos dos pais. É a indústria alimentícia.”

Nascidos em Bordéis (2004) Direção: Zana Briski e Ross Kauffman

Uma fotógrafa e um cineasta se unem para traçar um retrato triste e ao mesmo tempo cheio de esperança e força, das crianças nascidas na zona de prostituição Sonagashi em Calcutá, uma das regiões mais marginalizadas e pobres da Índia. No decorrer do tempo em que a fotógrafa Zana Briski convive com as crianças, percebe o interesse delas pela câmera e resolve ensiná-las a fotografar com o olha delas, e o resultado é surpreendente. O documentário ganhou o Oscar em 2005 e 12 outros prêmios em festivais de cinema e TV.

Estamira (2005) Direção: Marcos Prado

Um documentário comovente que conta a história de Estamira Gomes de Sousa, uma mulher que sofria de distúrbios mentais e que passou a vida trabalhando no aterro sanitário do Jardim Gramacho, local que recebia mais de oito mil toneladas de lixo diariamente da cidade do Rio de Janeiro. Mas engana-se quem pensa que Estamira vai provocar sentimentos de piedade pela sua condição. Ela mostra sabedoria em seu discurso poético/filosófico, em uma mistura de lucidez e loucura, falando sobre questões importantes sobre a vida, Deus e reflexões existenciais sobre si mesma, a sociedade e os homens. Ao ouvir Estamira pensamos se somos mesmo assim tão lúcidos como acreditamos.

A Carne é Fraca (2005) Direção: Denise Gonçalves

Este é um documentário bastante conhecido que nunca tive coragem de assistir até o final. Talvez porque minha consciência não deixe. Tenho um mecanismo psicológico que me faz negar ou minimizar tudo aquilo que me incomoda e uma parte do meu cérebro está condicionado a acreditar que vivo na mais perfeita normalidade. Sem entrar no mérito dos argumentos contrários sobre os benefícios proteicos da carne ou de que nossa natureza é carnívora, tento justificar minha titubeante decisão de continuar consumindo carne dizendo que ser vegetariano é muito radical. Comovente, forte e perturbador o documentário com cenas impactantes de onde e como os animais são criados e abatidos, apresenta dados objetivos sobre o resultado desta prática ao meio ambiente.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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