por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Porque o tema da redação do ENEM merece reflexão

Sobre o tema da redação do ENEM que tem gerado muita discussão, o que acho ótimo, pois certos assuntos precisam mesmo ser evidenciados e debatidos, apesar da internet ser um espaço onde nos deparamos com todo tipo de público e todo tipo de comentários, dos mais sensatos aos mais insanos, que por falta de argumentos partem para a violência verbal.


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Acontecimentos absurdos beirando a perplexidade, alguns recentes como o caso das meninas que sofreram estupro coletivo no Piauí provocando a morte de uma delas, convergem para um mesmo ponto: a forma como a mulher é vista e tratada na sociedade desde a infância.

Alguém alegou que morrem muito mais homens de morte violenta do que mulheres. É verdade, mas a violência contra o homem pode ter vários motivos, mas não decorre do fato de ele ser homem.

Na estreia do programa MasterChef Júnior a presença de uma menina de 12 anos gerou comentários de teor sexual na internet por parte de homens que acham natural expressar seus desejos por uma menina, que mesmo sendo bonita, se vestindo como adulta, não deixa de ser uma criança. Para além da pedofilia, a questão para esses homens não é a idade, mas o fato de ser do sexo feminimo e ter corpo de mulher já fica subentendido que ela é obrigada a aceitar todo tipo de assédio sem reclamar, e como a pós-modernidade facilitou a exposição do lado mais torpe da humanidade, alguns comentários são de embrulhar o estômago.

quilombolas_conciencia_negra_305.jpg Quilombolas da Comunidade Kalunga em Goiás

Outra história triste com detalhes escabrosos foi tema de um documentário recente em uma rede de televisão: a escravização doméstica e sexual de crianças quilombolas por comerciantes e políticos locais. Os quilombolas uma comunidade de ex-escravos na cidade de Cavalcante sertão de Goiás, esquecidos pelo poder público, vivem na miséria e sem instrução, portanto há um agravante maior: as crianças são pobres e negras, o que as torna ainda mais vulneráveis nas mãos daqueles que têm poder e posses e nenhum escrúpulo. A tragédia da miséria e da ignorância faz com que pais até vendam suas filhas e acobertem a exploração e os abusos que elas sofrem, o que nas palavras de um morador local, lá é visto como coisa normal.

00_18_de_maio_caso_araceli_1b.jpg Araceli

Em 18 maio deste ano fez 42 anos da morte da menina Araceli. Uma data da qual não temos motivo nenhum para se orgulhar. Para os mais novos que possivelmente nem sabem quem foi Araceli, era uma menina de 8 anos muito bonita que foi raptada, drogada, estuprada e morta de maneira brutal em 1973. Vivíamos o regime militar no Brasil, tempo em que aqui imperava a lei do silêncio tanto na vida pública quanto privada, e questões sobre direitos da mulher eram ainda discutidas timidamente por pessoas comuns. Casos de violência doméstica e abuso infantil cometidos por pessoas próximas ficavam ainda restritos às quatro paredes. Na época os acusados eram de famílias tradicionais e influentes no Espírito Santo, chegaram a ser julgados mas acabaram absolvidos, e a trágica história de Araceli e os desdobramentos do crime têm detalhes terríveis e mal esclarecidos como a morte misteriosa de pessoas envolvidas com o caso. Em memória de Araceli foi criado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, com a aprovação da Lei Federal 9.970/2000.

Toda essa forma de ver e pensar a condição, o corpo e a sexualidade femininas alimentam a cultura que legitima a violência contra a mulher. O estupro e a agressão vêm seguindo o rastro dessa cultura. A responsabilidade da sociedade começa na educação de suas crianças, meninas e meninos. O que podemos esperar por exemplo de uma sociedade que cria imagens ofensivas de conotação sexual para agredir a presidente, que por pior que seja o seu governo e eu não concorde com ele, ela é antes de tudo uma mulher? Se ao contrário o presidente fosse um homem, ninguém apelaria para seu sexo com a finalidade de ofendê-lo. E o mais curioso é que esta mesma sociedade que é contra o estupro, a violência doméstica, ao abuso de crianças, acha isso perfeitamente normal e até engraçado. E ainda, o que esperar quando um assunto grave como o abordado no tema da redação é associado a preocupações esquerdistas? Há coisas que estão acima de ideologias políticas.

Leia mais: g1.globo.com/.../morte-de-araceli-faz-42-anos-e-crime-continua-impune.. noticias.r7.com/.../reporter-record-investigacao-revela-a-escravidao-dom...


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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