por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Pós-modernidade, avanço ou retrocesso?

Às vezes, parece que vamos retroceder à idade das trevas, os tempos estão insanos, a barbárie se prolifera.


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Avançamos bastante na ciência e na tecnologia, mas como seres humanos pouco evoluímos. Prova disso é que coisas como a escravidão e a tortura persistem, e continuamos os mesmos seres egoístas, egocêntricos e gananciosos. A história humana e a ciência já demonstraram que não somos muito diferentes das outras espécies, o que nos diferencia não é a inteligência e sim o princípio intelectual e moral do qual somos dotados, princípios de tolerância, de solidariedade, de respeito à vida, seja ela humana ou não, princípios que independem de religião, ou de ter uma. Por sinal, as distorções religiosas podem provocar exatamente o efeito oposto. Não estão, também, diretamente relacionados ao nível educacional do indivíduo, a educação formal por si só não torna ninguém melhor.

Saramago dizia que não somos inteiramente bons, somos relativamente bons. Ele estava certo. Não existe receita, melhoramos ou pioramos conforme nossas vivências individuais, ao mesmo tempo em que uma má experiência pessoal não justifica nosso comportamento na mesma medida. Por outro lado, a presunção de que somos moralmente melhor que o outro é o que costuma obstruir a visão sobre nós mesmos. O mal está sempre no outro, sempre do lado de fora, somos rigorosos apenas com a ética alheia.

intolerancia-onde.jpg Tem surgido nos últimos tempos por uma parte da sociedade - bastante comum nas exposições virtuais de intolerância - a mania de desqualificar e depreciar tudo que se refere a manifestações de solidariedade e a movimentos de minorias. Uma espécie de negação daquilo, que talvez possa dizer respeito ao meu lado pouco nobre, portanto, se não me agrada não existe. Daí, surgirem expressões como “vitimismo”, “gayzista”, “feminazi”, “esquerdopata”, entre outras. Racismo não existe, machismo não existe, os homossexuais querem nos impor sua sexualidade pervertida, e o apoio à causas humanitárias, ambientais ou sociais são jogados na vala comum de outra expressão recorrente largamente utilizada pelos meios de comunicação: o "politicamenre correto". Parece que nunca fizemos tanto uso do relativismo como nos últimos tempos, tudo está relacionado a segundas intenções, tudo está por trás de interesses ideológicos. Parece haver uma confusão, às vezes proposital, para que não se saiba o que é correto e o que é apenas "fachada".

Estamos mais atentos a seletividade dos meios de comunicação, como ocorreu recentemente com as tragédias no Brasil e na França, e é bom que tenhamos essa percepção. Esta seletividade não é exatamente uma novidade, se antes a imprensa era dependente dos anunciantes, hoje é também dependente do efeito imediato no público das mídias digitais. Mas até que ponto somos agentes passivos nesse processo? É inegável o poder das mídias de nos influenciar. A questão é usar a seletividade - que é um fato - para hierarquizar e relativizar uma tragédia em prejuízo de outra. Devemos, claro, lançar críticas sobre a mídia, mas não nos esqueçamos que ela é nosso espelho. O pensador e teórico da comunicação Marshall McLuhan dizia que o homem cria a tecnologia e a influencia. Esta, por sua vez, muda a forma como o homem vê o mundo a ponto de influenciá-lo. Segundo McLuhan, “o homem precisa aprender a sair deste ciclo vicioso em que as mídias refletem a sociedade que é transformada pelas mídias.”

Atentado em Paris tragédia socioambiental e econômica em Mariana.jpg O relativismo surgiu como teoria filosófica fundada na relatividade do conhecimento, e nos ajuda a refletir e a debater sobre certas verdades que nos foram impostas como inquestionáveis ao longo do tempo, como por exemplo os dogmas religiosos e ideológicos. O problema é seu uso indiscriminado, é incorrer no mesmo equívoco e transformar o relativismo em uma nova verdade absoluta. Esse modo de pensar, esse desprezo generalizado por valores universais, se disseminou pela sociedade, e parece uma maneira perversa de camuflar a indiferença e o preconceito atribuindo-lhes um verniz de “vanguarda” às avessas.

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Talvez, seja o caso de se pensar que a civilização humana, como a conhecemos, ainda existe porque houve alguma evolução em nossa consciência. E que, por isso, a máxima contida na obra Leviatã, de Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem”, capaz dos atos mais cruéis contra outros da própria espécie, não esteja inteiramente correta.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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