por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O Homem que Amava os Cachorros - uma jornada pela história política do século XX

O título do livro faz referência ao trecho em que o personagem e narrador Iván - um escritor desiludido que vive em Cuba, país que passa por dificuldades econômicas com o fim da ajuda da União Soviética, e às voltas com seus próprios dramas pessoais - em um de seus passeios pela praia, chama sua atenção um homem misterioso que costuma passear com seus cachorros da raça borzói, uma raça de galgos russos que Iván conhecia bem por trabalhar em uma clínica veterinária. Acaba por isto travando uma certa amizade com esse homem.


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Um ótimo romance histórico que mistura ficção e realidade, considerado o melhor de 2013, ano de seu lançamento. O livro narra os acontecimentos que culminaram com o assassinato de Leon Trotsky à mando de Josef Stálin, secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da URSS, relatando ao mesmo tempo a história de Trotsky e de seu assassino, o espanhol Ramón Mercader, um militante recrutado pela NKVD da antiga União Soviética, mais exatamente na tradução para o português, como Comissariado do Povo para Assuntos Internos. É possível no romance observar, ou melhor, confirmar o caráter personalista e tirano de Stálin.

Além de expor a complexidade humana dos personagens, o livro nos apresenta um retrato de época que torna possível o entendimento acerca de eventos políticos que marcaram o século, e como certos acontecimentos podem levar à outros, trágicos ou não. Mas seu grande mérito é a reflexão sobre uma geração, que sem se dar conta naquele momento da história, teve sua alma aniquilada e sua individualidade massacrada por uma utopia desvirtuada pelos donos do poder.

10825.jpg Guerra Civil Espanhola

O cenário político mundial naqueles tempos era bastante conturbado, o mundo havia recém saído da primeira grande guerra e a Alemanha sofrera uma derrota humilhante que a deixara com a economia em frangalhos, o que estava facilitando a ascensão de Adolf Hitler. Hitler então fingia ser aliado dos comunistas, e Trotsky via com preocupação a subida dele ao poder, sabia no que isto iria dar. Seus temores se confirmaram quando mais tarde os comunistas alemães passaram também a ser alvos da perseguição nazista. As democracias ocidentais pareciam desprezar a capacidade retórica de Hitler e suas doentias ambições expansionistas, e foram omissas ao não intervirem na ocupação da Tchecoslováquia pelos nazistas. Mais tarde, Stálin e Hitler assinariam um pacto de não agressão com pontos obscuros, acordo que Hitler descumpriu ao invadir de surpresa a União Soviética em 1941. A Espanha passava por uma violenta guerra civil, fortemente dividida entre forças nacionalistas e fascistas, e a base do governo republicano espanhol representado pelos sindicatos, partidos de esquerda e partidários da democracia. Naquela época, após a vitória da revolução bolchevique na Rússia, havia no mundo uma rigorosa divisão entre direita e esquerda, mas em nenhum outro lugar como na Espanha a própria esquerda estava tão fragmentada.

Depois da revolução de 1917, após a eliminação da autocracia e do governo provisório, a Rússia passou por um período de reorganização social e política, mas com a morte de Lênin em 1924 o partido Comunista ficou dividido, Josef Stálin tornou-se o novo secretário-geral, havia conseguido com habilidade e artimanha que Trotsky fosse expulso do Partido, e governaria a União soviética por 30 anos. O principal ponto divergente entre eles era sobre os rumos que a revolução deveria tomar a partir de então. Enquanto Trotsky tinha pretensões de estendê-la por toda a Europa e criticava a burocracia stalinista, Stálin achava que deveria permanecer limitada ao bloco de países soviéticos. Trotsky passara então de grande condutor da revolução de 17 a um contra-revolucionário traidor, chegando ao extremo de ser considerado um aliado dos fascistas. Um inimigo útil para o jogo político de Stálin, enquanto fosse de seu interesse. O próprio Trotsky já no exílio, reconhece que havia subestimado a capacidade de Stalin, um militante sem muita cultura e um tanto grosseiro, de manipular o Partido. Trotsky em seus pensamentos lembra que devia ter desconfiado daqueles “olhos de réptil”, que tão logo assumiu o poder passou a reprimir, perseguir e eliminar seus oponentes ou quem ele assim considerasse, fossem antigos militantes, intelectuais, artistas, ou, trabalhadores, aqueles mesmos em nome de quem os comunistas diziam ter feito a revolução.

A esquerda em um mundo então dividido entre o fascismo de Hitler e seus aliados e a suposta salvação pelo comunismo stalinista, estava desorientada, e uma parte dela acreditava que o regime de governo de Stálin poderia ser o melhor para todos. Mas na verdade o mundo estava entre dois regimes totalitários protagonizados por dois tiranos manipuladores, responsáveis pelos maiores crimes contra a humanidade no século 20, com a única diferença que no caso de Hitler o genocídio ocorreu durante a guerra e Stálin o praticou em tempos de paz. Para Trotsky o comunismo começava a cavar sua própria cova.

revolucao russa 3.jpg Revolução Russa

Trotsky em suas reflexões no exílio, em flashes de lucidez ou desânimo, chegou a se perguntar se teria valido a pena tantas mortes, todo sofrimento e sacrifício até mesmo de sua família em nome de uma causa, mas procurava manter o otimismo com a firme convicção de que tinha um compromisso com a revolução. Mas estava cada vez mais isolado.

Em paralelo à narrativa sobre a vida de Trotsky no exílio, surge o personagem de Ramón Mercader, um jovem revolucionário espanhol cuja as ideias sofriam grande influência da guerra civil em seu país onde participava como combatente, e de sua mãe controladora, também uma revolucionária que acreditava que antes da revolução comunista era preciso ganhar a guerra na Espanha, portanto não podiam prescindir da ajuda de Moscou nem de servir ao regime de Stálin para o que fosse necessário.

Mercader influenciado por sua mãe, porém muito mais por uma jovem revolucionária radical por quem era apaixonado e queria impressionar, acabou aceitando, apesar de certa hesitação no início, uma importante missão que ele ainda nem sabia qual era. Mas fora avisado que essa missão iria mudar completamente sua vida. A fé cega em uma ideologia e em um líder que dela se apropria, tenha essa ideologia a forma que tiver, pode transformar uma pessoa e fazê-la cometer todo tipo de perversidades acreditando estar no caminho certo.

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Foto famosa de uma das reuniões dos três líderes das nações aliadas, Churchill, Roosevelt e Stálin, ocorrida em Yalta na Crimeia em 1945, onde foram decididos o fim da Segunda Guerra, e determinantes para o início da Guerra Fria.

Em determinados momentos da narrativa, as manobras sórdidas que vão emergindo das sombras causam uma inquietude que vai se apoderando de nós, provocando sentimentos entre a repugnância e a compaixão. Como mais tarde conclui um dos personagens, aquela foi uma geração enganada (ou teria se deixado enganar?), e usada por líderes megalomaníacos.

Não é possível saber como seria conduzida a política na União Soviética, caso Trotsky e não Stálin, tivesse presidido o governo no novo regime, ou como seria a vida de Ramón Mercader caso ele recusasse a missão que lhe fora incumbida, mas é possível notar o tempo todo como a mentira sistemática, a censura e o medo, vão cada vez mais minando as forças do pensamento, reduzindo a capacidade de raciocínio e tornando a sociedade doente, servindo de base de sustentação à seus tiranos. Ditaduras de qualquer tipo são o que há de mais terrível como sistema de governo.

O Homem que Amava Os Cachorros Autor: Leonardo Padura Lançamento: 2013 Editora: Boitempo


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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