por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O Cinema Chinês e a decadência dos filmes de artes marciais

Quando se fala em cinema Chinês, há um estereótipo no ocidente que vem logo à nossa mente de que são filmes de luta com enredos fracos, apoiados muito mais em efeitos especiais do que na realidade. Mas há ótimos filmes chineses que provam o contrário do senso comum.


phpThumb.jpg

Isto se deve em grande parte à decadência dos filmes de artes marciais chinesas que tiveram seu auge nas décadas de 70 e 80 e se tornaram conhecidas no ocidente graças à Bruce Lee, instrutor de artes marciais, ator e cineasta norte-americano de Hong Kong, que se tornou um mito dessa modalidade. À partir daí surgiram os aproveitadores, tanto os que se autodenominavam "mestres" da arte em academias, quanto os produtores de filmes de qualidade duvidosa. No entanto a Arte Marcial Chinesa é mais do que uma luta, é uma filosofia de vida, preserva as lendas dos guerreiros chineses. Na verdade é uma arte de luta milenar, e escavações arqueológicas dão conta de que o "kung fu" já existia na China há mais de 5.000 anos. As artes marciais são portanto uma referência cultural e de identidade para os chineses. O cinema chinês teve início no começo do século XX, sendo o primeiro filme uma gravação da Ópera de Pequim, realizado em 1905, tendo depois ficado por duas décadas no ostracismo por causa da censura do regime comunista. Como é de se esperar, com a tomada do poder em 1949 por Mao-Tsé Tung, o governo passa a ver o cinema como uma maneira eficaz de fazer propaganda. Por essa razão, de 1949 a 1966 houve grande aumento na produção cinematográfica incluindo o envio de diretores chineses para Moscou com a finalidade de tomarem aulas de direção com os russos, e a abertura da Academia de Cinema de Pequim, em 1956.

Nas décadas de 1990 e 2000 o cinema chinês voltou a ganhar destaque no cenário mundial especialmente por causa de diretores como Wong Kar-Wai, Jia Zhang-Ke e Zhang Yimou, um dos mais produtivos e premiados cineastas do chamado "cinema novo chinês". Filho de um militar do exército de Chiang Kai-shek, seu sonho sempre foi ser diretor de cinema, mas no regime comunista repressivo de Mao, ele abandonou os estudos para trabalhar no campo em uma fábrica têxtil e tentou estudar em suas horas livres, porém a escola de cinema havia sido fechada pelo governo. Somente após a morte de Mao e o começo de uma certa abertura foi que permitiu à Zhang Yimou no início dos anos 80 se inscrever na Academia de Cinema de Pequim.

Tempo de Viver de 1994 - Direção Zhang Yimou O filme que resultou em censura e no afastamento do país por dois anos do diretor Zhang Yimou e da atriz Gong Li, traça um retrato político da China dos anos 40 à década de 80, desde a guerra civil passando pela chamada Revolução Cultural de Mao-Tsé Tung, na verdade um pretexto para fortalecer o poder de Mao, que acabou na perseguição à dissidentes do seu governo e com o fim da autonomia nas artes e na produção de conhecimento. Antes disso, desde que Mao assumira a liderança do país em 1949, a fome havia causado a morte de milhões de pessoas. O enredo conta a vida de um casal que passa por diversos problemas e acontecimentos ao longo dos anos, e vai vendo seu padrão de vida cair. A China, um país milenar de dimensões territorial e populacional imensas, tem sofrido grandes dramas político-sociais ao longo de sua história como os choques culturais da passagem repentina de uma economia rural para uma economia de mercado, porém mantendo-se a repressão política. Um dos grandes dramas recentes foi a "política do filho único" que provocou o abandono e morte de muitas crianças do sexo feminino.

Amor e Sedução de 1990 - Direção: Zhang Yimou Uma jovem camponesa é forçada a casar-se com um fazendeiro grosseiro e estéril e dá à luz um menino, resultado de um romance com o sobrinho do seu marido, e é obrigada a criá-lo como sendo o herdeiro dele sem revelar a paternidade. Novamente a condição da mulher na China é abordada no filme. Lanternas Vermelhas de 1991 - Direção: Zhang Yimou Na China de 1920, quando o país passava por uma transição da era imperial para a republicana, Songlian, uma universitária de 20 anos é forçada a se casar com um homem bem mais velho depois da morte de seu pai. Seu marido já tem mais três esposas morando em casas diferentes e cada noite ele decide com quem vai dormir, e a escolhida ganha massagem, lanternas vermelhas acesas e o direito de escolher o cardápio do dia seguinte. Tal costume gera rivalidade entre as esposas, e logo Songlian se vê envolvida em um mundo de intrigas femininas e conspiração de serviçais. O filme é uma denúncia sobre a condição da mulher no contexto histórico e cultural chinês, condição que ainda se vê nas províncias. Até hoje se mantém o costume das concubinas e do dote.

O Sonho Azul de 1993 - Direção: Tian-zhuangzhuang O filme foi aplaudido em Cannes e vencedor no Festival de Tóquio, mas banido pelo governo chinês. As mudanças provocadas pela revolução na vida de uma família em um lugarejo de Pequim na China comunista dos anos 50 e 60, vistas através do olhar de uma criança, e a alegoria da pipa azul simbolizando a liberdade de vôo que o menino nunca alcança.

O Clã das Adagas Voadoras de 2004 - Direção: Zhang Yimou Considerada pela crítica uma produção belíssima em fotografia, cenários, figurinos, música e um ótimo roteiro, o enredo se passa no século XIX, quando aparecem os primeiros movimentos contra a dinastia Manchu. É uma história de amor e conspiração envolvendo as três personagens principais em um equilíbrio perfeito entre ação, drama e fantasia.

Adeus Minha Concubina de 1993 - Direção: Chen Kaige O filme, considerado pela crítica no ocidente como uma obra de arte do cinema chinês, conta a história de dois homens que se conhecem como aprendizes na Ópera de Pequim e permanecem amigos por 50 anos. A obra é uma viagem no tempo desde os anos 20, passando pela ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial, a chegada do comunismo e a Revolução Cultural dos anos 60, que implicaria em transformações devastadoras na vida das personagens principais.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Eli Boscatto