por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Número Zero - o papel da imprensa no romance de Umberto Eco

"Os jornais ensinam como se deve pensar…as pessoas não sabem no início que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham"


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Um escritor de meia idade que vive de trabalhos avulsos como "ghost writer" é convidado para assistente de direção em um projeto para a criação de um jornal, trabalho pelo qual será bem recompensado. Para esse projeto são chamados seis redatores que já escreveram para colunas diversas, e todos a princípio ficam satisfeitos com o convite acreditando que o jornal é uma boa aposta e poderá quem sabe alavancar suas carreiras. No entanto o diretor já havia aberto o jogo com o assistente: o jornal na verdade será uma espécie de "fachada" criado para servir de trunfo às pretensões políticas do editor, um empresário multimilionário que entre seus negócios é dono de canais de TV, e o jornal possivelmente nunca será lançado.

Entre os jornalistas, uma redatora mais idealista que para ajudar a família teve que abandonar a universidade e trabalhar cobrindo casos amorosos de celebridades, percebe logo que as coisas ali não são bem o que ela esperava, mas como os demais, não pode dispensar o emprego. Nas reuniões com a equipe de redatores são passadas orientações sobre a linha editorial do futuro jornal, digamos, não muito éticas, sobre métodos de manipulação da notícia e da opinião, de como fabricar fatos a partir de boatos, desqualificar um desmentido, fazer insinuações sobre a reputação de alguém, criar dossiês. Todos partem então em busca de conteúdo para a futura publicação, até que um dos redatores, meio paranóico, fascinado por teorias da conspiração e que ninguém parece levar muito à sério, é assassinado, e tudo se desmonta.

Desde que surgiu o primeiro jornal impresso no mundo, durante a Idade Média, a imprensa vem influenciando a vida pública e privada em todo o planeta, e funciona praticamente como um termômetro das democracias, é possível medir até que ponto um regime de governo é democrático pela maior ou menor liberdade de imprensa de um país. Mas qual é afinal o papel da imprensa? Informar o público com base somente em fatos? Apresentá-los com isenção sem tentar induzir a opinião pública? A imparcialidade não é a realidade da prática jornalística do dia a dia, uma vez que como humanos não somos imparciais, embora não seja um bom argumento para justificar ou mesmo explicar certo excesso de parcialidade da imprensa.

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Melhores trechos

- A compilação de um dossiê pode ser feita até por um estudante universitário que, em troca de uns caraminguás, faz o giro das hemerotecas, O senhor acha que os dossiês, já nem digo dos jornais, mas até dos serviços secretos, contêm notícias inéditas? Nem os serviços secretos podem desperdiçar tempo assim…os dossiês contêm notícias esparsas que a pessoa interessada deve elaborar de tal modo que consiga fazer brotar suspeitas e alusões…

- Nosso editor disse uma vez que seus telespectadores estão numa faixa média de idade (digo, idade mental) de doze anos. Os nossos leitores não, mas é sempre útil atribuir uma idade a eles: os nossos terão mais de cinquenta anos, serão bons e honestos burgueses que desejam a lei e a ordem, mas adoram fofocas e revelações sobre várias formas de desordem.

- Os jornais ensinam como se deve pensar…as pessoas não sabem no início que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham.

- Não podemos tratar demais de cultura, os nossos leitores não leem livros, no máximo a Gazzetta dello Sport. Mas, concordo, o jornal não pode deixar de ter uma página, não digo cultural, mas digamos de cultura e espetáculo. - Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador.

- Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias.

- Siga esse íntegro servidor do Estado, ninguém nunca é cem por cento íntegro, mesmo que não seja pedófilo, não tenha matado a avó, nem embolsado propinas, terá feito alguma coisa estranha. Ou então, se me permitem a expressão, estranhifica-se aquilo que ele faz todos os dias. Use a imaginação. Entendido?

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Umberto Eco, falecido em 19 de fevereiro de 2016 em Milão, utiliza como cenário acontecimentos marcantes do século XX como o fim do fascismo na Itália e a morte de Mussolini, para compor seu romance. Mas Eco, além de escritor, filósofo, linguista e semiólogo, foi também um estudioso da mídia e teve experiência de trabalho em redação de jornal no início de sua trajetória, conhecendo a força e a influência que a imprensa tem na sociedade moderna, já tendo abordado o tema em artigos e livros científicos, o que lhe dá desenvoltura para se aprofundar sobre a prática jornalística com a liberdade proporcionada pela literatura.

Em governos ditatoriais sabemos que a imprensa trabalha para o regime, e só fala e escreve o que é permitido, porém nas democracias, não podemos dizer que a grande imprensa não trabalha para governos ou para grandes corporações. Fica evidente sua responsabilidade nas sociedades modernas com o tipo de informação que passam.

Conclusão final

Com o surgimento do rádio e da televisão e mais tarde das ferramentas digitais, a imprensa se transformou ao longo do tempo em grandes conglomerados de comunicação e seu poder se ampliou bastante, a ponto de colocar ou tirar governos do poder, transformar um desconhecido em celebridade instantânea ou fazer alguém cair em desgraça. Não a toa Napoleão Bonaparte já dizia: "se perco o controle da imprensa não aguentarei no poder nem por três meses". O jornalismo que deveria ter como princípio além da informação, a denúncia e a busca da verdade, serve muitas vezes apenas como propaganda. A tiragem de jornais impressos diminuiu drasticamente nos últimos tempos, grande parte deles está em formato eletrônico e a internet por sua vez facilitou muito a vida do jornalismo contemporâneo que tem um retorno imediato do impacto causado por uma notícia, além de ser um espaço onde ninguém checa nada, muitas vezes sequer passam das manchetes que viralizam numa velocidade nunca antes possível, e onde aqueles que usam de má fé podem ficar mais à vontade.

Os interesses da imprensa, como grandes empresas de mídia, se voltaram não para a qualidade, mas cada vez mais para a quantidade de informação, a rapidez na divulgação, e em atrair grandes anunciantes. Não se trata nem mesmo de ser a favor desse ou daquele, mas sim de quem está ou tem boas chances de chegar ao poder em determinado momento e poderá proporcionar, em troca de apoio ou do silêncio da imprensa, bons dividendos, sejam eles políticos ou monetários. O grande jornalista e editor Joseph Pulitzer foi visionário ao dizer que "com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma".

Número Zero Autor: Umberto Eco Categoria: romance de ficção Ano de edição: 2015 Páginas: 208


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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