por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O Deus do Novíssimo Testamento

Deus existe e vive no século 21, é um velho ranzinza e machista e mora em Bruxelas com sua filha mais nova e sua mulher.


a.jpg

O filme do diretor e roteirista belga Jaco Van Dormael, lançado em 2016 e ganhador do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, é uma fantasia que apresenta Deus sob uma perspectiva bem humorada, uma crítica mordaz com momentos de singeleza. Quem espera um filme nos moldes bíblicos com parábolas e mensagens, vai se decepcionar.

Deus existe e vive no século 21, é um velho ranzinza e machista e mora em Bruxelas com sua filha mais nova e sua mulher, que também é Deusa, mas nunca abre a boca com medo dele, ela vive para seus bordados e gosta de jogos de beisebol. Deus passa o tempo se distraindo, controlando e observando as pessoas pela internet, vestido de pijama e chinelas. Sua filha acredita que o pai criou a humanidade para sua diversão proporcionando-lhe muita miséria e um pouco de felicidade para lhes dar falsas esperanças. Até que certo dia, ela cansada de seu mau humor e de ser maltratada, se rebela, rouba o computador divino do pai e manda mensagens por SMS para todos os humanos revelando a data da morte de cada um. Então, instigada pelo seu irmão mais velho, JC, ela foge de casa e vem à Terra em busca de mais seis apóstolos para escrever o Novíssimo Testamento. Com mais 6 apóstolos, totalizando 18 no total como no jogo de beisebol, as coisas poderiam ser diferentes, e quem sabe a humanidade se salvaria. Deus fica furioso, agora que todos os humanos têm conhecimento da data de sua própria morte, ele perde completamente o controle sobre eles, e vem então no encalço de sua filha para tentar impedir o estrago. No filme Deus não é nada benevolente, é pelo contrário, autoritário e repressor.

le-tout-nouveau-testament-7.jpg

O Novíssimo Testamento irá contar a história de vida de cada um dos apóstolos, mas a filha de Deus não sabe escrever e precisa arrumar alguém que faça isso, mas logo ao chegar ela faz amizade com um pedinte que passa a ajudá-la. Agora que cada humano sabe quando irá morrer, coisas que pareciam muito importantes, já não são mais. Os apóstolos estão entre pessoas comuns que até não saberem a data da morte, viviam sua rotina. Todos fazem um balanço de suas vidas, abandonam as aparências já que não há mais motivos para disfarces, ser vencedor ou perdedor tornou-se sem sentido, é urgente viver, não depois, mas agora. Suas histórias embora banais, contém aquilo que pode haver de mais humano em cada um de nós, perdido num emaranhado confuso de memórias, sentimentos e desejos em algum recanto da alma.

download (2).jpg

Teria Deus criado o homem atribuindo-lhe inteligência e senciência e ao mesmo tempo todo tipo de sentimento mesquinho como inveja, soberba, ganância, ódio, para como num jogo, se divertir com sua criação, movimentando as peças conforme sua vontade? Teria o diretor se inspirado na obra de Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo? No livro Deus tem um propósito para seu filho aqui na Terra, já no filme parece que Jesus se tornou mais humano do que seu pai gostaria, até o ponto de se dar mal. Mas ambos têm em comum o questionamento da crença na infinita bondade divina. No romance de Saramago, Deus não se importa em sacrificar o próprio filho (que não tinha pretensões de criar uma nova religião nem tão pouco estabelecer regras morais), para expandir seu poder na Terra. Assim a culpa e o medo fariam a humanidade se digladiar pelo resto dos tempos em nome dele.

Se formos considerar o Deus do Velho Testamento, ele nunca foi mesmo muito misericordioso, foi antes cruel e implacável, seu filho sim, é seu contraponto, como humano que foi, compreenderia melhor a humanidade. No romance de Saramago, ao contrário do que se diz, Deus não mandou Jesus para interceder por nós junto à ele. Num livre exercício de imaginação, podemos até visualizar JC em discussões homéricas com o Todo Poderoso à nosso favor, mas sem muito sucesso.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Eli Boscatto