por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A Onda - O que há em comum no filme com o Brasil atual

No filme um professor de Ciência Política do ensino secundário, resolve fazer um experimento para demonstrar na prática como se chega a uma autocracia. Tudo começa como uma brincadeira, um jogo, que acaba por atingir proporções que ele jamais imaginaria. É possível no filme identificar muita semelhança com o que ocorre hoje em democracias pelo mundo, algumas tidas como sólidas.


É possível hoje em dia democracias se tornarem ditaduras? A pergunta está implícita no filme alemão A Onda produzido em 2008, do diretor Dennis Gansel.

No filme um professor de Ciência Política do ensino secundário, resolve fazer um experimento para demonstrar na prática como se chega a uma autocracia. Tudo começa como uma brincadeira, um jogo, que acaba por atingir proporções que ele jamais imaginaria. É possível no filme identificar muita semelhança com o que ocorre hoje em democracias pelo mundo, algumas tidas como sólidas.

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Em uma das cenas, ao perguntar aos alunos como se chega a uma ditadura, as respostas são desemprego, instabilidade social, nacionalismo extremo, um terreno fértil para o surgimento e ascensão de lideranças autoritárias. Os discursos e os símbolos são muito semelhantes em toda autocracia: o ufanismo patriótico, a uniformização de ideias que se encontra representada na vestimenta e no cumprimento entre membros do grupo, a imitação do código de conduta militar, a intolerância com opositores e a criação de um culpado por todos os males da nação que na Alemanha nazista foram os judeus, mas além de grupos étnicos, podem ser imigrantes, instituições e até alguma personalidade de relevância política, e assim vai se formando uma cultura do medo e da negação sistemática, até uma alienação generalizada.

Mas o filme extrapola a questão política quando se observa com atenção a mudança de comportamento dos alunos ao longo do experimento. Eles vão mudando no dia a dia conforme o professor os estimula com suas falas, a grande maioria passa a acatar seu comando sem nenhum questionamento, quase como autômatos. Um símbolo é criado, uma espécie de logomarca e um perfil no MySpace.

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Mas qual seria o mecanismo psíquico que muda o comportamento dos alunos? Ao se percorrer o mundo da psicologia, é possível arriscar alguns palpites: a necessidade de pertencer a um grupo e ser aprovado por ele, o que na adolescência é muito marcante mas não é característica exclusiva dessa fase da vida já que o ser humano é um ser gregário, além de frustração, ressentimento, baixa autoestima, e o filme mostra que tais sentimentos podem gerar uma grande expectativa com a promessa de recompensa emocional, podendo até transformar os mais suscetíveis em fanáticos. As experiências pessoais de cada um têm a ver com o poder maior ou menor da força de persuasão dos discursos do professor. O próprio professor não escapa da armadilha do ego e passa a gostar da sensação de poder ao ser seguido e respeitado pelos alunos. Alunos e professor se alimentam assim um ao outro.

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Embora a história do filme seja uma ficção, este experimento já aconteceu na vida real, quando em 1967 um professor americano ao ser questionado pelos alunos sobre como pessoas comuns na Alemanha nazista foram capazes de cometer crimes ou serem coniventes, resolveu demonstrar na prática como eles poderiam ser coagidos a serem cúmplices de um regime extremista, e as consequências não foram nada boas. Se considerarmos que na década de 1960 não existiam redes sociais e mesmo em 2008 não existia a variedade que temos hoje de redes de interação, agora ficou tudo muito mais rápido e fácil. Portanto, a resposta à pergunta do início do texto é sim, é perfeitamente possível hoje em dia democracias se tornarem ditaduras.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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