
Falta amor. Falta tempo. Ao que tudo indica, parece que o homem contemporâneo anda em déficit consigo mesmo. Passa-se em branco apesar de tanto ruído, de tanto barulho.
Sem espaço para perplexidades e reflexões profundas, tenta-se diagnosticar comportamentos dissonantes em uma época assimétrica. Desencaixe entre o ideal e a teoria volátil.
Ainda que no calor da hora, a arte tenta traduzir a angústia cantando o sofrimento e exorcizando a solidão de apartamentos de um dormitório, o engarrafamento da cidade e o tempo escasso, que se esvai, que escapa, que foge.
“Tem que correr, correr/ tem que se adaptar/ tem tanta conta e não tem grana pra pagar” é o que diz a música Dois cafés, da brasileira Tulipa Ruiz. Pode-se dizer que ela - uma das grandes revelações entre os jovens compositores do País - tenta expor em suas canções o drama do homem-anos-2000. E, neste caso, é o urbanismo que sufoca e disputa espaço com o sossego.
Ainda que se trate de outro perfil de artista, Criolo também pode ser considerado um nome de peso entre a nova geração da música brasileira.
Mesclando contestação e protesto, o rapper também procura traduzir de forma dolorosamente melódica e crível a realidade não apenas de São Paulo, mas de qualquer outra metrópole fechada em si mesma e que carece de delicadeza.
O desabafo está na canção Não existe amor em SP, em que a letra destaca com pessimismo: “os bares estão cheios de almas tão vazias/ a ganância vibra/ a vaidade excita/ devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel/ aqui ninguém vai pro céu”.
Afinal, falta amor. Falta tempo.
Comentários
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Andréia
Ler esse texto me devolveu um pouco de esperança pra vida...e sem dúvidas atenuou-me o costumeiro gosto de fel. Ilhados, mas não sozinhos.
Oi, Andréia! Obrigada por suas palavras, que também não permitem com que eu me sinta sozinha :-D Bj
Marco
Acabo me tornando parte desta conformação do século, porém a alma grita. Bjs !!!
Andreaha San
Concordo com a Rita Cyntrao, é importante dar o crédito ao quadro de Rubens. Até por que foi muito bem escolhido! Belo encaixe com o texto. Saturno devorando seu filho, tem tudo a ver com a falta de amor dos 'tempos civilizados'. Quando poderíamos evitar muita agonia bem educando nossos filhos, fazendo dos cidadãos homens de verdade e não mais um desencontrado dessa sociedade desumana.
Caros, obrigada por alertarem o meu descuido. Não foi a minha intenção não dar crédito à imagem. Pensei que, ao salvá-la no sistema, o crédito aparecesse na passagem do cursor. Assim que conseguir acrescentar a informação (pois estou tendo dificuldades), darei os devidos créditos, como sempre costumo fazer. Um abraço.
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