por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

Quem é você?

Não existir dói. O homem não foi preparado para representar o vazio.Em que parte se está guardado? Em que outra se está esquecido?


La noche que me quieras_Crédito_Alejandro Kirchuk.jpg La noche que me quieras, trabalho do argentino Alejandro Kirchuk

Acompanhada de um sorriso quase constrangedor, tal pergunta é dirigida a familiares de laços sanguíneos bastante estreitos; aliás, próximos o suficiente para causar sofrimento a filhos, netos e amigos, que agora têm suas respectivas imagens abandonadas em algum canto escuro da memória de quem é refém do Alzheimer.

O fato de não ser lembrado por alguém que amamos pode ser considerada entre as experiências mais frustrantes da vida. O rosto não é reconhecido, a voz não causa reação, nenhum ponto está ligado ao outro. Espectro perdido no tempo. Folha em branco. Não há rancor, pena ou carinho, apenas a cordialidade diplomática conduzindo uma conversa simulada.

A exclusão dos detalhes de uma relação, seja ela qual for, acontece não por escolha, mas por uma debilidade cruel que apaga de forma sorrateira as pegadas deixadas. Não existir dói. O homem não foi preparado para representar o vazio.

O indivíduo existe por ser de carne e osso ou pelo fato de a existência ser validada pela lembrança que os outros cultivam? Afinal, o que faz com que cada um exista? Qual a importância dos rastros deixados na vida de outra pessoa? Em que parte se está guardado? Em que outra se está esquecido?

La noche que me quieras_2_Crédito_Alejandro Kirchuk.jpg La noche que me quieras retrata rotina dos avós de Alejandro Kirchuk na luta contra o Alzheimer

Ainda assim, resta à sombra dos filhos, netos e amigos fincar as pegadas, mesmo sabendo que após o segundo passo elas serão apagadas. Foi exatamente isso que o fotógrafo argentino Alejandro Kirchuk fez ao registrar, a partir de 2007, a rotina de seus avós maternos. A data marca a descoberta da doença que fez de sua avó uma vítima. Desde aquele momento, ela passou a receber o apoio do marido, que a acompanhou até à morte, reafirmando suas pegadas, ainda que fossem apagadas.

A obra, denominada La noche que me quieras, ganhou o primeiro lugar do concurso World Press Photo 2011 na categoria Vida cotidiana.

La noche que me quieras_1_Crédito_Alejandro Kirchuk.jpg La noche que me quieras,fotos venceram primeiro lugar no World Press Photo na categoria Vida cotidiana


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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