por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

A parte

Poder estar comigo, você diz, é lembrar que a dor não é embrionária, mas adquirida no decorrer da vida pela total falta de destreza


Passaram-se muitos anos, porém, o tempo não fez com que eu esquecesse o primeiro dia em que vi você chorar, pai. Como? Não sei, lembrei disso agora. E, até onde minha memória alcança, aquela foi a única vez. Eu sei, pai. Você deve ter chorado em muitas outras ocasiões, mas foi aquela a única que eu vi.

Foi um divisor de águas: minha vida antes e depois de você chorar. Nunca contei porque imaginei que você fizesse questão de apagar das suas recordações um momento de fraqueza. Não, não é tolice, pai. Apenas quis respeitar a sua dor.

A árvore da vida_klimt Museum.jpg "A árvore da vida"(1904), obra de Gustav Klimt

Mas sabe, basta eu fechar os meus olhos... e me lembro como se fosse hoje. Você me busca na escola. De cima, você me olha sem sorriso, doce ou presente. Chego a pensar que devo ter feito algo errado, mas não recebo nenhum tipo de repreensão. Você me pega no colo e me abraça forte. No trajeto até a praça em frente à minha escola, um silencioso estranho nos acompanha.

Sentamos em um banco verde com tinta descascada. Sim, lembro inclusive a cor do banco. Você faz silêncio. Mas eu não entendo o silêncio, o que ele significa, e acho estranho. Apenas sigo sua reação e o imito. Reproduzo sua tristeza sem verdade alguma. Então você começa a chorar. Eu nunca tinha visto você chorar. Espio ao nosso redor com vergonha de que algum amiguinho meu assista a isso. Parecia engraçado você, um adulto que usava gravata, chorar como eu ou qualquer outra criança. Não sabia se deveria olhar para os seus olhos vermelhos. Tinha medo de que os meus também assumissem tal cor.

Mordo meus lábios enquanto balanço meus pés suspensos ao ritmo de seus soluços. Um, dois, umdoistrês, um, dois, umdoistrês. Olho para o chão e percebo que vertem da areia gotas de seu choro. Fixo minha atenção aguardando que uma poça se forme e torço para que isso aconteça. Menos por maldade e mais por capricho lúdico.

Você não conta porque está tão infeliz, mas diz que precisava me ver porque eu lhe faria bem. Fala que sou a melhor parte de você, o pedaço ainda não machucado. Poder estar comigo, você diz, é lembrar que a dor não é embrionária, mas adquirida no decorrer da vida pela total falta de destreza.

Compadeço-me de sua infelicidade e, aos poucos, vou perdendo o medo da cor de seus olhos. Desço do banco verde, enquanto você permanece sentado. Ereta, fico frente a frente ao seu rosto, pai. Encaro seus olhos por minutos intermináveis. Não me movo. Você não fala. Nada acontece ao nosso redor.

Como que hipnotizada por uma força desmedida, fixo o meu olhar no seu. E ali aguardei o momento em que eu, sua melhor parte, pudesse fundir-se em você novamente, até que a sua dor curasse, até que não me desprendesse mais de você, até que não sentíssemos mais dor. Nunca mais. Até que fossemos apenas eu e você, pai. Para sempre.

Hum?

Eu sei, sempre choro quando lembro disso. Não se preocupe, pai. Não estou triste. É apenas uma parte sua recordando uma dor que foi curada em um abraço. Eu e você, pai. Para sempre.


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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