por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

O (polêmico) manual do amor segundo Ovídio

Em A arte de amar, a mulher ganha autonomia para manifestar suas aspirações sexuais, situação que lhe foi negada durante os séculos seguintes


Ovidio_arte_de.jpg Título de uma edição de 1644 de Ovídio "Ars amatoira" (Frankfurt: Kempffer 1644)

Se houver algum homem comum a quem a arte do amor seja desconhecida, que ele leia este poema e que, conhecendo-a através de sua leitura, ame.” (Ovídio) É possível, ou melhor, é preciso ensinar alguém a amar? O questionamento se refere ao sentido mais amplo do verbo e seus diversos desdobramentos nem sempre exitosos. Provavelmente, Ovídio (43 a.C-17d.C), que escreveu entre 1 a.C. e 1 d.C A arte de amar, bem sabia que qualquer pessoa seria capaz de manifestar este sentimento tão conflituoso quanto fundamental na vida do ser humano. Por isso, a provável intenção do autor na citada obra seja a de convidar o leitor a compreender, sim, os meandros da sedução e o aperfeiçoamento das habilidades na perícia do amor. Tudo isso, é claro, envolto em uma malícia que causou muita polêmica na época e, sejamos honestos, até hoje, como será possível conferir adiante.

É certo que não existem regras que garantam o sucesso nas relações. Porém, o escritor empresta através de sua abordagem liberdade para que homem e a mulher manifestem seus desejos carnais e sentimentais, permitindo que ambos “joguem” através da sedução.

A linguagem utilizada por Ovídio é simples, direta, leve e, por vezes, bem humorada, caso o leitor se permita distanciar-se dos padrões sociais vigentes da época.

O livro A arte de amar está dividido em três partes. Na primeira, Ovídio orienta o homem como seduzir a amada; no segundo, após o contato carnal, como o homem deve manter a relação e a ternura; e, por fim, na terceira parte, Ovídio dedica sua atenção à mulher.

A indiscutível relevância do autor, que também escreveu As metamorfoses - obra que reúne lendas da mitologia greco-latina -, está no fato de ele ter “equiparado” a mulher ao homem no que se refere ao direito desta manifestar desejos. Na obra, ela não é mais apenas um objeto de contemplação sem vontades. Em A arte de amar, a mulher ganha autonomia para conquistar e ser conquistada, de ter a possibilidade de manifestar suas aspirações sexuais, situação que lhe foi negada nos séculos seguintes.

Latin_Poet_Ovid.jpg Ovídio foi exilado em Roma, no ano 8, pelo imperador Augusto por motivação política

Claro que há espaço para enxergar nas observações de Ovídio uma postura antiquada - até mesmo ultrajante e rasteira com os olhos de hoje, quando ele coloca a mulher no papel de “caça”, ao privilegiar sobremaneira os atributos femininos ou ao fazer com que ela finja prazer apenas para agradar o homem. No entanto, ao mesmo tempo, Ovídio ensina a mulher fingir, a valorizar sua beleza, a conseguir o que tanto quer: o amor de seu homem.

É preciso lembrar que a obra foi tida como obscena, causando constrangimento por sua espontaneidade em abordar o sexo e as relação extraconjugais, por exemplo. A arte de amar foi audaciosa demais. Não à toa que Ovídio foi exilado em Roma, no ano 8, pelo imperador Augusto: a alegação eram motivos políticos. De qualquer forma, desde quando chegou às mãos do leitor, a obra continua causando impacto.

Posto isso, serão destacados aqui os 15 conselhos mais singulares e polêmicos (conforme o olhar de hoje). Importante destacar que o presente artigo não tem a pretensão de aprofundar o tema nas águas profundas da Antropologia, História ou Literatura, espaço este garantido a especialistas das respectivas áreas. O olhar lançado aqui é o da curiosidade despretensiosa, mas ainda atenta e ávida.

Os 15 conselhos de Ovídio:

1) “O vinho prepara os corações e os torna aptos aos ardores amorosos; as preocupações fogem e se afogam nas múltiplas libações (...) mas não dê muito crédito à enganosa claridade do lampião: para julgar a beleza, a noite e o vinho são ruins"

2) “Aos homens só convém uma beleza sem enfeites. Devem agradar apenas pela elegância discreta. Não cries o hábito de frisar o cabelo a ferro, nem alises com pedras-pomes as pernas."

3) “O homem dissimula mal, a mulher esconde melhor seus desejos. Se o sexo forte julgar melhor não fazer avanços, a mulher, vencida, tomará para si o papel de fazê-los.”

4) “Ela se levanta, levante-se; enquanto ela ficar sentada, fique sentado; seguindo a vontade de sua amante, saiba perder o seu tempo.”

5) “As lágrimas também são úteis: com lágrimas você amolecerá o diamante. Cuide para que sua bem-amada veja, se for possível, seu rosto úmido. Na falta de lágrimas (pois elas não aparecem sempre de encomenda, molhe os olhos com a mão.”

6) “Tens de agir como apaixonado e tuas palavras devem dar a sensação de que estás perdido de amor. Como toda mulher se julga digna de ser amada, ser-te-á fácil ser acreditado."

7) "Se queres conservar o amor da tua amiga, faze-a acreditar que estás maravilhado com sua beleza. Se te apresenta vestida com uma simples túnica, exclama: 'Tu me abrasas!"

8) “Não seja nem submisso nem mais carinhoso que de costume; estes são os maiores sinais de um coração culpado.”

10) “Sozinhas, sem a sua ajuda, as palavras virão em tropel, e, no leito, a mão esquerda não ficará parada. Os dedos encontrarão o que fazer do lado onde misteriosamente o Amor mergulhas os seus traços.”

11) “A beleza é um presente da divindade; mas quantas podem se orgulhar de sua beleza! A maior parte de vocês [as mulheres] não receberam esse presente.”

12) “Quem diria? As mulheres ao aprenderem a rir, já adquirem assim um charme a mais. Abra moderadamente a boca (...) que o ventre não se canse de um riso constante, mas que esse riso soe ligeiro e digno de uma mulher.”

13) “Pratique mil jogos; é vergonhoso que uma mulher não saiba jogar; graças ao jogo, muitas vezes nasce o amor.”

14) “Que a mulher sinta o prazer de vênus se abater até o mais fundo de seu ser, e que o gozo seja igual para o seu amante e para ela. Mesmo você, a quem a natureza recusou sensações de amoroso prazer, finja, com inflexões mentirosas, apreciar os doces júbilos. 15) “O amor é uma espécie de serviço militar. Nos campos do prazer, nossas provações são a noite, o inverno, as longas marchas, os caminhos fragosos. Terás muitas vezes de suportar a copiosa chuva e, morto de frio, terás de dormir sobre a terra nua."


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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