por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

Violeta Parra chora coisas belas

A tristeza não pode ser medida, tampouco elencada, mas pode ser extremamente bela, assim como as canções da cantora chilena


Violeta Parra no Teatro Plaisance, em Paris_Divulgação_Fundação Violeta Parra.jpg

Alguns artistas afirmam que é através da dor, e não da alegria, que são produzidas as obras mais marcantes. O sofrimento agudo que esconde qualquer possibilidade de salvação destila os sentimentos mais profundos e perturbadores infiltrados na alma humana.

Maldigo del alto cielo, canção escrita por Violeta Parra

A tristeza não pode ser medida, tampouco elencada, mas pode ser extremamente bela, assim como a canção escrita pela chilena Violeta Parra (1917 -1967), Maldigo del alto cielo, do álbum Las últimas composiciones (1966). Ela foi escrita sob forte depressão, após Violeta ter sido abandonada por seu companheiro, o antropólogo suíço Gilbert Fauvre, e também por estar desiludida com o fracasso do seu projeto, a Comuna de La Reina, um centro de cultura folclórica, Em 1967, Violeta se mata com um tiro.

Maldigo del alto cielo/ La estrella con su reflejo/ Maldigo los azulejos/ Destellos del arroyuelo/ Maldigo del bajo suelo/ La piedra con su contorno/ Maldigo el fuego del/ horno/ Porque mi alma está de luto/ Maldigo los estatutos/Del tiempo con sus bochornos/ Cuánto será mi dolor

Metamorfoseada em sofrimento, a mensagem está absorvida na melodia e na letra, que mostram juntas o mesmo pesar. Não se trata de uma melancolia resignada, mas indignada. As batidas nas cordas do violão são destinadas com força, com gana, como se a mão pudesse espancar a dor, como marcasse a batida de um coração inconformado.

Maldigo la cordillera/ De los andes y de la costa/ Maldigo señor la angosta/ Y larga faja de tierra/ También la paz y la guerra/ Lo franco y lo veleidoso/ Maldigo lo perfumoso/ Porque mi anhelo está muerto/ Maldigo todo lo certo/ Y lo falso con lo dudoso/ Cuánto será mi dolor

Que dor é essa que, mesmo revoltada, enxerga a beleza do contorno de uma pedra, a perfeição da cordilheira e percebe os jardins floridos? Que dor é essa que mergulhada em mágoa reconhece, ressentida, que nem mesmo a mais avassaladora das dores consegue apagar a formosura na natureza? Que dor é essa que tem a capacidade de observar e amaldiçoar o belo?

É a dor que cabe a cada um. E a de Violeta Parra chora coisas belas.

Violeta foi para o céu, filme sobre Violeta Parra dirigido por Andrés Wood


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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