por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

Tarantismo: o veneno da frustração feminina

Anuladas por um ambiente social e familiar claustrofóbico, era através do veneno de uma suposta tarântula que as mulheres jorravam suas frustrações


tarantismo_Divulgação_ www.salento.com.jpg

Bastaria pouco. Apenas uma picada da tarântula, e a mulher sofreria para sempre os efeitos perturbadores do Tarantismo.

Sabe-se que os primeiros relatos deste mal datam da Idade Média, período em que teria ocorrido uma “epidemia” da doença, na cidade de Taranto, no Sul da Itália. E, durante muito tempo, apenas, ou majoritariamente, mulheres desta região eram vítimas das tais aranhas.

As crises eram cíclicas e contavam com gritos, comportamento adverso, espasmos e contorções - que remetiam aos movimentos do aracnídeo. Tudo envolto em uma espécie de transe e delírio que flertava, também, com uma atitude considerada lasciva. A aranha, e o seu simbolismo, em seu estado mais exaltado.

Para a mulher se livrar do veneno, era preciso preparar um ritual, a Taranta. Nele, a envenenada deveria ficar cercada de pessoas, entre elas, músicos, que executavam a música com o intuito de “espantar a aranha” presente no corpo da vítima. Na ocasião, também deveriam se fazer presente imagens de São Paulo, o santo protetor das vítimas.

La taranta , de Mingozzi, foi o primeiro documentário produzido sobre o tema

Era, então, durante o transe, que a tarantata dançava, movimentava-se, contorcia-se. A intenção dos envolvidos era de que a peçonha fosse eliminada temporariamente pelo suor. Aliás, teria sido originada deste ritual a tarantela, dança popular italiana.

Por trás de tais acontecimentos, no entanto, estava omisso o que ninguém esforçava-se enxergar: a opressão sofrida pelas mulheres. Tendo o comportamento e os desejos reprimidos na vida social e familiar, acrescido pelo trabalho doméstico pesado, a mulher era acometida por uma espécie de transtorno histérico. Contudo, muitas tarantas foram executadas, até que a Ciência constatasse, no início do século XX, a origem do tarantismo.

O fato é que era através da “doença”, provocada pela suposta aranha, que as mulheres jorravam sua angústia e desespero, o seu grito de socorro, sufocado pelos ditames de uma sociedade machista.

A escritora brasileira Cíntia Lacroix, por exemplo, resgatou em seu mais recente livro, Tarantata (Dublinense, 256 págs), o mal que tanto amedrontou as mulheres daquela região da Itália. No romance, bastante envolvente e que conta com os mesmos simbolismos da tradição, a família Palumbo decide se mudar para o Brasil na tentativa de curar a filha Giuseppina do tarantismo.

Tarantata_Divulgação_Dublinense.jpg No livro Tarantata, a história do tarantismo é resgatada através do romance

A motivação de tal mudança estava no nome da cidade que recebia o nome do santo protetor das tarantatas: São Paulo. E é sob os olhos e o clima brasileiro que a doença volta a agir, para o desespero dos Palumbo. Mas, como fica claro, o veneno era outro:

"Desde pequena, Giuseppina concentrara-se inteira em dar cumprimentos à sua rotina de afazeres domésticos. Havia sempre instruções a seguir, recomendações a observar, expectativas a atender."

É em São Paulo que um brasileiro, o professor de piano Marçal Quintalusa, se apaixona pelo olhar de Giuseppina. Ele tentará se aproximar da família para compreender o que existe por trás dos olhos da jovem.

Décadas atrás, o cinema também investigou o tema, como o documentário La taranta (1962), o primeiro a abordar o fenômeno. Dirigido por Gianfranco Mingozzi, o filme faz uma incursão por Salento (Sul da Itália), entre as décadas de 1950 e 1960.

O registro se faz de forma breve, mas não menos poética ao tratar sobre o tarantismo: (...) a aranha da loucura e da ausência. Aparece no sangue de corpos fracos que conhecem apenas o trabalho pesado com a terra.

Os sintomas do tarantismo não se restringiam, obviamente, à região italiana. Em diversas partes do mundo, outras mulheres, que foram vítimas de questões sociais e emocionais, também sofreram de melancolia, histeria ou neurastenia, por exemplo. Em muitos lugares, as doenças eram interpretadas conforme o imaginário histórico local. Mas é inegável que muito tempo passou até que se percebesse que tais crises eram metáforas de um pedido de socorro.


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
Saiba como escrever na obvious.
version 10/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Priscila Pasko