por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

A paz e a greve de sexo

“Bom dia, Lisístrada. Magnífico dia para um bacanal.” É assim que se inicia o diálogo de uma peça em que as mulheres não têm vergonha de dizer que gostam de sexo. Mesmo assim, através do humor, do sarcasmo e de palavras de duplo sentido elas tentam sufocar o desejo em nome da paz.


Lisístrata por Picasso.jpg Lisístrata por Pablo Picasso

É com um "não" que as mulheres lideradas por Lisístrata vencem a batalha contra homens ávidos por guerra. Cansadas dos conflitos bélicos que assolavam a Grécia do século V a.C, da solidão e das sucessivas mortes, elas decidem não mais consentir aos seus amados a chance de gozar dos prazeres que a junção dos corpos proporcionava - a muito custo, verdade. Conforme a exigência, os guerreiros não poderiam sustentar ao mesmo tempo as armas e os corpos febris de suas amantes. A paz da alcova estaria comprometida enquanto houvesse guerra, portanto.

Mas é neste ínterim das preliminares das brigas, das negações e negociações e das ofensas que mora o humor, o sarcasmo e o duplo sentindo. Mesmo assim, desde o começo, fica claro que o trato pesa sobre as mulheres, que, obviamente, assim como os homens, sofrem pela falta do sexo. A personagem principal, contudo, menciona as sutis diferenças das manifestações dos desejos, o que favoreceria a barganha que planejavam:

E se o doce amor, o incomparável Eros, soprar também o fogo do desejo em nossas coxas, com ele atiçaremos o ardor dos homens até que não consigam mais esconder a rigidez das próprias ânsias. Pois até nisso Afrodite nos fez mais delicadas; nosso desejo é oculto e imperceptível.”

No entanto, em silêncio, o desejo ardia em chamas, desde sempre, como já sugere o primeiro diálogo da peça, em que Cleonice, saúda sua amiga:

Cleonice: Bom dia, Lisístrada. Magnífico dia para um bacanal.

Lisístrada: Cleonice, pelo amor de Zeus: Baco já deve andar cansado.

Logo após, conforme o pedido de Lisístrata, as mulheres chegam atrasadas ao seu encontro para ouvir qual a proposta ela tem a fazer para pôr fim à guerra:

Lisístrata: (...) Mas eu avisei que deixassem tudo. A coisa aqui é muito mais urgente. Muito maior.

Cleonice: Tão grande assim? (...) Mas, então, se você mostrou a elas a exata dimensão da coisa, não compreendo que não tenham vindo logo correndo, todas!

Lisístrata ainda pergunta se suas futuras comparsas estariam preparadas para executar o plano. Uma diz que deixaria de beber vinho, se fosse preciso. Outra comeria o próprio braço, se necessário. Contudo, quando a líder expõe suas intenções, todas dissimulam. Lisístrata quer saber qual será a dificuldade:

Cleonice: Para mim, total. Eu não resisto. Que a guerra continue.

Mirrina: Eu também. Que continue a guerra!

Lisístrata: (Para Mirrina) Mas não era você que estava disposta a comer o próprio braço?

Mirrina: Estou disposta a sacrificar esse membro, mas não me privar do outro. Tudo, tudo o que você quiser, amada Lisístrada. Menos isso.

Dirigido por Radu Mihaileanu, A fonte das mulheres, foi inspirado em Lisístrata

E assim segue o plano que logo é colocado em prática, sob juras e promessas. Além disso, a orientação é de que as mulheres sejam provocantes em suas vestimentas e modo de agir. Tudo para atiçar o desejo dos homens. No entanto, a tarefa não se torna fácil, como fica claro em uma passagem na qual uma das mulheres pensa em ceder, inventando pretextos:

Primeira mulher: Preciso voltar pra casa. Me lembrei que deixei lá toda a minha lã milésia. A essa altura deve estar sendo comida pelas traças.

Lisístrata: Eu sei! Conheço bem o tamanho da traça de que você fala. Volta pra lá, correndo!

É importante destacar que Lisístrata lidera uma confederação de mulheres, que representavam três cidades gregas (Atenas, Esparta e Corinto), para acabar de vez com os conflitos entre essas regiões.

Considerada uma das primeiras obras pacifistas, Lisístrata (441 a.C) foi escrita por Aristófanes, nascido em local desconhecido, em 444 a.C, tendo morrido, aproximadamente, em 385 a.C. No decorrer de sua vida escreveu mais de 30 comédias, entre elas, Assembleia das mulheres, Acarnenses, Nuvens e Mulheres que comemoram as Tesmoforias.

Ainda assim, a atualidade da obra surpreende, pois, apesar do humor, Lisístrada evidencia a importância da paz e da democracia, que até hoje não foram alcançadas em sua totalidade. Se o poder das mulheres não poderia ser representado pelas armas, seria pela negação da manifestação de seu desejos. Era o que lhes cabia no momento: abrir, momentaneamente, a mão do prazer em troca de paz.


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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