por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

Foxfire: a violência que nasce da utopia feminina

As integrantes da Foxfire querem ser ouvidas. Há o sentimento de revolta que não encontra resposta em uma sociedade na qual a mulher é relegada


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O assédio de um tio, as humilhações cometidas por um professor. Opressão, cobrança de valores exigidos de mulheres inseridas em uma sociedade machista da década de 1950. Todos esses elementos contribuem para que um grupo de adolescentes de uma cidade pequena dos Estados Unidos faça justiça com as próprias mãos ao criar uma gangue fora-da-lei. O alvo? Os homens. Essa é a trama de Foxfire (2012)*, filme dirigido por Laurent Cantet (Entre os muros da escola).

Desprovidas de um sistema que defenda os seus direitos, as meninas decidem se unir contra os abusos cometidos pelos homens que moram na cidade. Chegam, inclusive, a residir em uma moradia comunitária, onde alimentam a utopia de viverem distante dos “inimigos”, como se refere uma das personagens. A intenção carrega um sentimento genuíno de busca pela felicidade, um espaço, enfim, em que elas possam se sentir acolhidas e distante dos olhares recriminadores.

É nítido o desejo que elas nutrem em serem ouvidas. Trilhar um caminho diferente das mulheres que as precederam faz parte de um processo natural. Existe, é fato, o sentimento de revolta, de insatisfação, que não encontra resposta em um espaço no qual a mulher é relegada.

Foxfire - 1 - Divulgação - Imovision.jpg Em Foxfire, de Laurent Cantet, adolescentes criam uma gangue fora-da-lei

Distante do século XXI, época que se tem à disposição meios e órgãos que denunciam crimes e abusos contra a mulher - e que, apesar dos avanços, ainda são pouco eficientes -, é do grito sufocado das integrantes do Foxfire que nasce a violência, filha do descaso.

Basta que uma delas seja atingida para que o infrator sofra consequências imediatas: roubo, vidraças quebradas, ameaças, sequestro. No núcleo da irmandade, sob a qual todas prometem defender-se mutuamente, é pela força que as adolescentes se reconhecem como agentes. Mesmo assim, os atritos surgem, colocando abaixo a utopia deslumbrada.

A comparação a seguir talvez não seja apropriada mas, se levada em conta a tradicional visão apaziguadora que se tem da mulher diante à violência ("o sexo feminino não a pratica, não faz parte de seu instinto"), Foxfire diverge. Em Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, a reação é oposta. Se na comédia as mulheres calam a guerra na qual os seus homens estão envolvidos pela greve do sexo (o silêncio do corpo), em Foxfire são justamente elas que se jogam no combate e praticam atos criminosos contra... os homens. O desejo que antes ansiava a igualdade e a harmonia transforma-se numa sequência de atos violentos (e extremos) pela imposição de poder.

O filme de Laurent Cantet permite inúmeras leituras possíveis, todas enriquecedoras, provavelmente. Contudo, o que mais chama a atenção é a proporção que este grito de socorro reprimido toma. Desorganizado, faminto por justiça, o movimento Foxfire busca em seu próprio desespero a possibilidade de reconhecimento e respeito que nem pelo diálogo nem pela briga ainda foram alcançados em sua plenitude.

* O filme - uma adaptação do livro de Joyce Carol Oates - também foi adaptado, em 1996, por Annette Haywood-Carter, que trazia Angelina Jolie no elenco.


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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