por uma linha que caiba

Rabiscos aleatórios daquilo que a rotina não sustenta

Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz.

A mulher no espaço urbano: e se a rua também fosse delas?

A rua, por definição, é uma via de circulação pública. Logo, qualquer cidadão teria o direito e a liberdade de transitar por ela a qualquer dia e hora; claro, desde que não seja uma mulher.


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Eu caminho, tu sentes medo, ela me enxerga, nós nos unimos. Conjugar verbos e sentimentos na primeira pessoa do plural: esse é um dos objetivos das mulheres que estão se juntando em diversas partes do mundo para propor ações colaborativas entre as que se sentem inseguras no espaço público. Isso resulta da indiferença do Estado e de uma sociedade machista que negam à mulher a ocupação plena do espaço urbano.

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A comunidade criada no Facebook, Se essa rua fosse nossa é exemplo de um espaço disposto a debater a cidade, o lugar, o espaço – e sobre a falta dele, como a página mesmo explica. As discussões têm o objetivo de “conhecer, mapear, compreender, questionar e melhorar a relação da mulher com o espaço urbano”. Ali, as organizadoras coletam relatos, histórias e compartilham tais vivências.

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O engajamento e apoio do público - masculino, inclusive - às iniciativas colaborativas são notáveis e comprovam ser fundamentais. É a partir da exposição do problema que a sociedade sente-se estimulada a (se)questionar qual é sua parcela de responsabilidade no cenário desenhado. E não, não é aceitável que uma mulher precise escolher ruas e horários para poder circular pela cidade. Isso não é admissível.

O movimento Vamos juntas?, que em 24 horas recebeu 5 mil likes. “Na próxima vez em que estiver numa situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?”, é o que propõe a página. A intenção é instigar uma mulher a se aproximar de outra para percorrerem caminhos em comum e se sentirem mais seguras. O movimento fez com que amigas e colegas de trabalho também tratassem com antecedência trajetos semelhantes para se protegerem.

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Além do risco cotidiano e perversamente democrático de assaltos e furtos, sabe-se que a mulher, pela condição feminina, sofre riscos de forma iminente. Sem minimizar as ameaças que atingem também aos homens, é consensual que o medo da mulher difere daquele sentido pelo sexo masculino, pois, para elas, o seu corpo também é alvo. Sendo assim, mães, filhas, irmãs, esposas e amigas se veem obrigadas a estudar trajetos e horários hipoteticamente mais seguros.

Um vídeo publicado em 2014 no Youtube mostra o resultado da gravação feita por Shoshana B. Roberts. Ela registrou uma caminhada de dez horas pelas ruas de Manhattan, em Nova York. Ao todo, foram mais de 100 assédios verbais, em 10 horas.

Talvez a luta pelo fim do assédio sexual e verbal seja longa, ainda que combatida com afinco por mulheres que exigem o que todo cidadão merece, respeito. No entanto, para uma mulher, saber que ela não está sozinha a encoraja e a fortalece para a batalha cotidiana. Vamos juntas?


Priscila Pasko

Priscila Pasko é jornalista. Ainda não tem uma opinião formada sobre a sua pessoa, mas tem certeza de que se puder escrever será alguém feliz..
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