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Humano, Demasiado Humano

Núbia Ferreira

Suicídio: O Sétimo Continente

O cotidiano pré-moldado transparece o distanciamento nas relações, a vida oprimida pelo capitalismo leva a família a uma autodestruição física e emocional, em que o suicídio aparece como o último indício de desejo desesperado por vida.


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O Sétimo Continente é um filme dramático austríaco do diretor Michael Haneke realizado em 1989 que da início ao que vir-a-ser conhecido como a sua “Trilogia da Era do Gelo Emocional”. A vida de uma sociedade capitalista massacrada pelo consumo notabiliza a onipresente perspectiva de vida que a família vivência em meio ao fracasso das relações humanas com seus modelos civilizatórios e gélidos que vão de encontro ao tédio.

E desta forma, o longa-metragem que foi inspirado em uma história verídica de uma família austríaca que cometeu suicídio sem motivos aparentes, mostra que somos controlados pelo consumo de objetos que nos cercam e nos oprimem tornando a rotina mecânica e fria. Michael Haneke e a particular “câmera fria” de seus filmes transparecem o cru das relações humanas, e em o sétimo continente é suscitado o incômodo através de ruídos e silêncios que emanam da tela e ascendem à sensibilidade.

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O filme mostra a vida de três personagens de uma típica família da classe média que vivem em uma cidade no interior da Áustria, Georg um engenheiro, Anna sua esposa e Oftalmologista e Evi a filha do casal. Nos primeiros minutos do filme os rostos dos personagens não são mostrados o que nós da a ideia de que poderia ser qualquer família, tornando mais fácil de identificarmos com as cenas que mostram uma vida comum como a vida de milhares de outras pessoas, a rotina é exibida em seus detalhes o que vai dando a sensação da automatização de nossas vidas. Seus pequenos problemas e a pacata rotina em um primeiro momento parecem fluir bem de acordo com que a esposa relata em uma carta endereçada aos sogros.

A vida tranquila da família é surpreendida quando a pequena Evi começa a ter um comportamento estranho, ela finge ser atacada por um misterioso tipo de cegueira o que expressa a tentativa de conseguir atenção em meio a uma vida isolada e monótona. Os anseios burgueses da família são correlacionados com a falta de afeto que eles vivenciam, como quando Georg se aproveita da idade avançada do chefe e decide largar o emprego sem o menor desconforto, a relação entre a família se faz de maneira sem graça e sem satisfação. Novamente uma carta é enviada aos sogros relatando que está tudo bem, porém não condiz com a realidade que vai se tornando cada vez mais insustentável.

Afundados no tédio e na insatisfação com a própria vida, a família toma uma decisão radical para tentar enfrentar a angústia que os levam rumo ao esvaziamento, "planejam" se mudarem para a Austrália, Georg dessa vez é quem escreve uma carta aos pais comunicando de maneira indireta que algo viria acontecer, mas o que seria o recomeço de uma nova vida se torna a persistência do doente laço familiar levando-os a trilhar um caminho de autodestruição, as cenas que antecedem ao ato de fato causam mal-estar, friamente é exibido uma sequência de cenas em que a televisão é destruída, o dinheiro é jogado fora pela privada e as datas de óbito anotadas na parede da sala. Já não restam esperanças, a viagem é outra, do sétimo continente ao suicídio.

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O filme traz uma reflexão sobre o sentindo na vida, no mundo capitalista almejamos cada vez mais bens materiais que possam suprir nossas necessidades mais tolas, mas há outro vazio a ser preenchido. As ações programadas e as informações prontas que não incluí a necessidade de pensar sobre o que fazemos nos aproximam de uma experiência robótica e nos afasta moralmente um dos outros, o que estamos nos tornando? A humanidade carecida de humanização é a mensagem que o filme de forma angústiante nos alerta.

ll.jpg A ruptura radical com a vida para se livrar de uma dor psíquica insuportável em que o sujeito acredita ser a única via de escape para o seu sofrimento, é um ato de extrema violência que se observa a impossibilidade de buscar ajuda frente à situação dramática vivida.


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