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Humano, Demasiado Humano

Núbia Ferreira

O testemunho de Primo Levi

As recordações do campo de concentração e sua posição ética de contar a sua historia no lugar daqueles que se calaram diante do trauma, da dor profunda que vivenciaram, não podendo mais ser assimilada em palavras, e por aqueles que não sobreviveram, Primo Levi se vê na necessidade de mostrar ao mundo através de sua leitura memorialística a sua dor entre a de muitos outros...


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Primo Levi (1919-1987), nacionalidade italiana, judeu, químico e ex-prisioneiro do campo de concentração foi deportado a Auschwitz-Monowitz no inicio de 1944 junto a mais de 600 italianos, e tinha apenas 24 anos. Constrói uma obra memorialística sobre a sua vivencia juntamente a de outros milhares de judeus que sofreram as consequências mais sombrias da era moderna.

Primo Levi, em seu livro “É Isto um Homem?” nos conta sobre Auschwitz, o centro do estiolamento das almas dos prisioneiros vitimas de uma violência incomensurável. Este resgate de uma memória individual traumática é apresentado a partir das experiências limítrofes de Primo Levi, um espaço no qual foi realizado a desumanização dos prisioneiros. Na rememorização do testemunho, Primo Levi, deseja manter viva a lembrança do campo de concentração, contando a sua história e ao mesmo tempo a de muitos outros. Sua memória funciona ora refugio, ora uma arma política na busca da compreensão das atrocidades cometidas.

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A reconstrução da sua identidade como pertencente ao grupo de sobreviventes dos campos de concentração, Primo Levi mostra que procuramos esconder o nosso lado mais nu, mais desprotegido e cru. Os diretos fundamentais foram violentados a todo instante, as tatuagens que marcaram os corpos dos prisioneiros mostra que o objetivo era a animalização rápida, ressaltando que tatuagens eram proibidas pela lei mosaica, esses judeus aprisionados foram humilhados até que não restasse nem um vestígio de dignidade entre eles. O anonimato em que foram submetidos pela indústria de destruição nazista que os identificava por números e raspava seus cabelos, contribui para que houvesse uma perda de identidade da forma mais particular, pois muitos já eram corpos sem alma.

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Obrigados a entender a língua alemã para que tivessem chance de garantir a própria sobrevivência abstendo-se de sua origem judaica, nos faz refletir sobre os limites das experiências humanas, pois o idioma é a nossa maior referência de nacionalidade. A reconstrução de sua identidade enquanto escritor mostra-nos que Primo Levi descreve sobre a importância de lutar pela sua dignidade posto que esta foi violentada no campo de concentração.

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Para ele apenas sobreviveu os que conseguiram em meio a uma desumanização excessiva se adaptar de forma que Primo Levi identifica-os como os piores, os insensíveis e egoístas, o que nos remete a culpa que ele sentia por ter sobrevivido. A vergonha que o judeu italiano sentia por ter vivenciado a forma mais severa de aniquilação do homem era constantemente expressada em seus sonhos, aonde seu trauma profundo se manifestava e evidenciava o seu desejo de torna os outros conscientes da barbárie cometida nos campos de concentração, uma ansiedade de exteriorizar o seu sofrimento enquanto ex-prisioneiro, reconstruindo a sua memória de auschwitz em meio às lembranças dolorosas.

Primo Levi nos faz uma indagação a posteriori em seu livro Os Afogados e Sobreviventes, se realmente vale a pena restar alguma memória desta situação ignóbil em que foi submetido, afirma então que “sim”, justificando que: “Nenhuma experiência humana é vazia de conteúdo [...], todas merecem ser analisadas.” É importante nos torna conscientes dos nossos limites, até quando podemos aguentar e até onde conseguiremos lutar a fim de manter a nossa memória, pois é esta é a nossa única chance de se reestruturar novamente.

levi4.jpg “É difícil defender-se de um golpe para o qual não se está preparado.”

Golpe este em que o escritor nunca se recuperou totalmente, um trauma que ficou marcado em sua memória ao expor sua intimidade ao ridículo e a incontestável violência cometida contra a sua origem, contra seu povo, contra á quem ele era, judeu, mas acima de tudo um ser humano.

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