pósmodernizando

Em uma sociedade filha de várias gerações a originalidade se torna rara, mas não impossível.

Larissa Lotufo

A atitude pós-moderna por trás do roteiro de “In the Land of Blood and Honey”

Dirigido e roteirizado por Angelina Jolie, o longa recebeu críticas diversas, sendo classificado de ótimo à horrível. Esse borbulhão de opiniões reflete o modo de ser da sociedade pós-moderna, a qual é retratada de forma interessante e criativa na trama.


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Na mesma década em que David Harvey elucida o conceito de pós-modernismo, em seu livro “Condição Pós-moderna”, o mundo vivia a Guerra da Bósnia, um conflito pouco comentado, o qual serve de molde para compreendermos a sociedade contemporânea. A guerra bósnia ainda hoje é vista de modo incompreensível aos olhos do mundo, que não entende ao certo o porque de tudo ter começado e perdurado por tanto tempo, todavia é consenso que o embate foi um resquício da Guerra Fria, sendo permeado de antagonismos ideológicos. Esses antagonismos, no entanto, iam além da herança bipolar capitalismo versus socialismo, reinvidicava-se espaço territorial, unidade étnica e religiosa. A complexidade do conflito vem de encontro à ideia de destruição criativa de Harvey; aquela sociedade buscava criar algo novo, uma nova nação, única e dona de um espaço somente seu, a partir das cinzas do que era a sociedade da época. Dessa forma, não bastava criar, precisava-se destruir o que fosse alheio ao novo.

A insanidade que esse sentimento gerou foi retratado de modo incisivo no filme “In the Land of Blood and Honey”, até a escolha do nome parece refletir o paradoxo vivido pelo conflito. A contradição é o ponto chave da trama: conta-se uma história de amor, dentro de um contexto de ódio; os personagens opostos pela guerra, tentam se unir; a ideia de família como algo certo e seguro torna-se questionável; luta-se entre a ideologia e o sentimento. Tudo isso sendo vivenciado em um contexto extremado, típico de guerras, e isolado do resto do mundo.

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Nesse aspecto, Jolie mostrou-se fiel a suas causas sociais, pois deixa claro a apatia do mundo às pequenas causas. Em vários momentos ao longo do filme sente-se a atmosfera de solidão e falta de esperança vivenciada pelos personagens, fato que fica evidente quando descobre-se que a ONU ia até o local dos conflitos somente para fornecer alimento, sem nem ao menos resgatar os feridos. Através dessa atitude fica clara a irracionalidade da sociedade e a falência do mundo Moderno, já que a racionalidade quase matemática criada pelo ideal modernista resultou em um mundo conflitante, o qual transformou a simples coexistência entre diferentes ideais e modos de viver, em motivo de agressões. Para demonstrar essa ruína da racionalidade, o longa utiliza-se de vários fatos desse episódio de nossa história recente, dando amplo destaque para abusos cometidos sobre as mulheres.

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Mesmo essa escolha não é feita de forma aleatória, pois é uma mulher, ser visto por aquela sociedade como frágil e fraco, quem consegue mostrar-se fria e comprometida com seu objetivo, mostrando um clara troca dos papéis habitualmente atribuídos aos gêneros. A finalização do longa não deixa de lado a conduta pós-moderna e nos incita a pensar nos conceitos de liquicidade de Zygmunt Bauman, tanto na fluidez do sentimentos, quanto das crenças e razões atribuídas às atitudes. Para os personagens centrais do longa, acaba o conflito, a certeza e a vida, junto com o fim do filme.


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