pósmodernizando

Em uma sociedade filha de várias gerações a originalidade se torna rara, mas não impossível.

Larissa Lotufo

Mulheres & Cabelos Curtos

O que um corte de cabelo tem a ver com a sua visão de mundo? Em uma sociedade que julga as pessoas pela imagem e atitude, muita coisa! E os cabelos curtos em uma mulher, em particular, dizem muita coisa sobre como essa mulher se sente no mundo a seu redor e como se porta em relação a ela.


Em uma das novelas recentes da Globo uma personagem, estereótipo da chamada periguete, fez sucesso ao dizer que o "cabelo é a força da mulher", mas se o cabelo é a força, porque é quando os cortamos que nos tornamos mulheres fortes? Os comentários mais óbvios dirão que a resposta é fácil "porque o homem usa cabelo curto". Só que a coisa é bem mais complexa por um simples fato: o centro das questões, e particularmente dessa, não são os homens. Não existe nenhuma regra bioquímica que faça com que mulheres tenham cabelos compridos e homens cabelos curtos. Diferente da barba, por exemplo, cabelo cresce naturalmente e generalizadamente em homens e mulheres, independente de hormônios ou funcionamento corpóreo, e pode ficar do comprimento que a pessoa desejar. Mas ainda assim as pessoas insistem em achar que cabelo comprido é sinônimo de feminino, como disse a jornalista Arwa Mahdawi “cabelo é o véu da mulher ocidental”. Quando uma mulher resolve quebrar com essa 'regra' logo recebe comentários clichês "nossa, como você está moderna", "acho lindo cabelo curto, mas tem que ter coragem né?". Não, não é preciso coragem. Coragem tiveram as primeiras mulheres ocidentais que fizeram isso e tiveram que conviver não só com o preconceito, mas com o desrespeito que a sociedade tinha com a liberdade de expressão feminina. Ainda hoje, ser uma mulher de cabelos curtos é visto como sinal de emancipação e poder, como se a mulher de cabelos compridos ainda estivesse presa a algum passado repressor e patriarca, e não pudesse ser tão emancipada e poderosa por isso. No Brasil, em particular, o cabelo curto ainda não faz sucesso, o que é bastante curioso se levarmos em conta o calor que vivenciamos nessas terras, principalmente no verão. Quando acontece de uma moda passageira surgir por aqui, que nem ocorreu no fim de 2014, é uma moda de comprimento demarcado. Que o diga Flávia Lucini, a top brasileira comentou que ficou chateada com os comentários negativos que recebeu em solo tupiniquim, por causa de seu novo corte, no estilo Joãozinho foi até chamada de lésbica. Esse negatividade em relação às mulheres que fogem do “padrão nacional de brasileira” é um evidente resquício do passado conservador e misógino que a sociedade insiste em carregar, e está muito ligado as dificuldades que a parte feminina da sociedade vivência seja na hora de conseguir um novo emprego, ou caminhar com tranquilidade na rua. Ainda há muita diferença de gênero enraizada no imaginário popular e vista como se fosse o natural, a ideia de que mulher tem que submeter ao imposto e sem reclamar é fácilmente encontrada no cotidiano, quer prova maior do que a acalourada discussão do programa Altas Horas entre a cantora Pitty e um espectador da platéia que disse que “lugar de mulher é em casa”? O cerne do problema está examente na difícil aceitação de que não existe um lugar obrigatório a ninguém, seja mulher ou homem, hetero homo ou bissexual; mas infelizmente o peso maior disso ainda cai sobre a mulher e não é vitimismo algum afirmar isso, até por que é o tipo de afirmação que exige coragem. Quantos exemplos, recente ou antigos, não temos de jornalistas e escritoras que sofreram ameças de estupro ou violência depois de publicar um texto falando sobre a falta de liberdade feminina? A resposta infelizmente é que são inumeros exemplos. E a violência não vem só dos homens, pelo contrário, mulheres se mostram tão violentas e conservadoras quando o assunto é feminismo, principalmente quando apelam para um discurso ácido contra a defensora das ideias liberais. Tenho certeza que você que está lendo o texto deve lembrar de alguma história ou comentário em que uma mulher denegriu outra por não aceitar o tipo de roupa, corte de cabelo ou atitude de sua semelhante. Alias, o discurso é sempre o mesmo“eu não sou como ela”, todavia a novidade mais antiga do mundo é que todos somos iguais, independente do gênero, atitude ou corte de cabelo; o que nos distancia é o preconceito e a intolerância. Cabelos curtos ou não todas a mulheres e homens podem buscar melhorar essa relação entre “a mulher e a sociedade”, porque se um dia essa situação for superada o ganho não vai ser só feminino, vai ser universal, pois a repressão a mulher envolve grande parte das repressões impostas aos homens, e várias outras questões e setores sociais que tanto precisam parar de ser reprimidos.


version 3/s/recortes// //Larissa Lotufo