pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

Patativa do Assaré: Um gênio semi-analfabeto

Tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. 'Basta vê no mês de maio, um poema em cada gaio e um verso em cada fulô’, declamava.


Patativa-do-Assare.jpg Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos trocou uma ovelha do pai por uma viola. Dez anos depois, viajou para o Pará e enfrentou muita peleja com cantadores. Quando voltou, estava consagrado. Nessa época os poetas populares vicejavam e muitos eram chamados de 'patativas' (um pássaro) porque viviam cantando versos. Ele era apenas um deles. Para ser melhor identificado, adotou o nome de sua cidade e imortalizou-se como Patativa do Assaré. 65772ccc59cee1b4e9edab3c9aa5380986.jpg Filho de pequenos proprietários rurais, Patativa, nascido Antônio Gonçalves da Silva em Assaré, a 490 quilômetros de Fortaleza, capital do Ceará, inspirou músicos da velha e da nova geração e rendeu livros, biografias, estudos em universidades estrangeiras e peças de teatro. Também pudera. Ninguém soube tão bem cantar em verso e prosa os contrastes do sertão nordestino e a beleza de sua natureza. Luiz Gonzaga gravou muitas músicas dele, entre elas a que lançou Patativa comercialmente, 'A triste partida'. Há até quem compare as rimas e maneira de descrever as diferenças sociais do Brasil com as músicas do rapper carioca Gabriel Pensador.

Como todo bom sertanejo, Patativa começou a trabalhar duro na enxada ainda menino, mesmo tendo perdido um olho aos 4 anos. No livro 'Cante lá que eu canto cá', o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para 'ser poeta de vera é preciso ter sofrimento'.

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Patativa só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser Doutor Honoris Causa de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. Desde os 91 anos de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida, 'já disse tudo que tinha de dizer'. Patativa morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava o nome.

Vejam a mente de um gênio, que memória ele possue, e sem muito pensar e sem titubear, recita uma verdadeira obra de arte, quando perguntado o que sentiu quando Luiz Gonzaga morreu.

Vale a pena conferir essa entrevista do Patativa para Jô Soares, que em detalhe técnicos não está muito boa, mas em compensação a riqueza do conteúdo é incomensurável. Ele decora todos os seus poemas e cria novos enquanto fala, e tem um senso de humor e crítico muito aguçado.


Isabel Nobre

Nem sei mais..
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