pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

Psicopata americano: Será mesmo?

Entre a grande lista de filmes que não foram devidamente entendidos pelo publico, se encontra 'psicopata americano', um filme dirigido por Mary Harron que conta com Christian bale no papel principal. O filme foi baseado no livro de mesmo nome escrito por Bret Easton Ellis, e diz mais em entrelinhas, até obvias, do que no próprio filme.


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Nenhum livro chocou tanto os Estados Unidos dos anos 90 quanto Psicopata Americano. Antes mesmo que fosse publicado (o New York Times e o Spy magazine reproduziram e publicaram trechos do livro) a Igreja e entidades anti-violência já protestavam nos jornais. Com isto a editora Simon and Schuster, que já tinha pago 300 mil dólares de adiantamento para o autor, rompeu o contrato. Depois de publicado pela editora Vintage Books (que o lançou com grande badalação e grupos de feministas aos gritos protestando na porta da sede da editora), ele foi considerado "chocante e exagerado" ao mostrar a vida urbana contemporânea dos ricos americanos através dos olhos de um assassino em série. Bret Ellis é perseguido até hoje por sua obra (basta ver o número de sites da internet que o atacam e defendem). Tanto assim, que a produção do filme foi boicotada diversas vezes durante as filmagens - principalmente no Canadá.

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"O psicopata americano" relata a vida cotidiana de Patrick Bateman com todos os detalhes que, de tão rotineiros, podem passar despercebidos: os exercícios abdominais, o bronzeamento artificial, o ritual de cremes e óleos, o culto ao corpo... Minutos de filme descrevendo os pormenores que a sociedade capitalista induz a suas vítimas a fazerem. Um retrato da vida urbana e capitalista a partir da narração de Bateman – um yuppie (young urban professionals – jovens profissionais urbanos que foram símbolos de uma geração ambiciosa que circulava na Wall Street de Nova York).

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Nos restaurantes da moda as conversas circulam ao redor de preocupações mundiais – a fome na África, a crise econômica no Terceiro Mundo – diálogos com os quais a personagem se preocupa tanto quanto com o modelo do cartão de crédito com o qual fará a carreira de cocaína no banheiro: sinais da hipocrisia circulante no mundo capitalista globalizado. O filme todo é uma crítica que utiliza de humor negro para retratar a indiferença pelas pessoas, o culto excessivo a aparência, e outros pormenores que são perceptíveis tanto nos jovens perdidos da década de 80, quanto na geração sempre conectada de hoje em dia.

Um dos momentos onde a analogia é mais profunda é na cena onde Patrick esfaqueia um mendigo.

- Perdi o emprego... - Por quê? – pergunto, interessado de verdade. – Você andava bebendo? É por isso que foi despedido? Tráfico de informações confidenciais de mercado? Estou só brincando. Não, realmente, você andou bebendo no trabalho? (...) - Estou com fome – repete - Ouça. Você acha justo tirar dinheiro de pessoas que têm emprego? Que trabalham mesmo? (Ellis, 1992, p. 161-162) [diálogo de Bateman com um morador de rua antes de esfaqueá-lo].

Uma pequena elite afasta-se daqueles que cada vez mais tomam as ruas graças à exclusão econômica e social. O jargão da individualidade transforma a pobreza em culpa individual e não social; assim, em nome de uma identidade as exclusões são legitimadas ao não se reconhecer o outro em suas diferenças. Até mesmo problemas econômicos são atribuídos ao individual. Culpabilizar um indivíduo é mais fácil do que encarar a própria responsabilidade pela condição alheia.

O que acontece em Psicopata Americano (American Psycho) - assim como ocorreu em Clube da Luta - é que as pessoas tendem a julgar um filme sem se aprofundar nele. Curiosamente, a violência gratuita nos cinemas não causa tanta polêmica. Mas, se ela traz consigo uma reflexão, uma crítica à sociedade, muitas vezes é ignorada. Ambos os filmes vêm a nós como um alerta, um aviso do que o consumismo desenfreado pode acarretar na mente de um ser humano. A imagem do sonho americano sendo dilacerada.

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A trilha sonora de Psicopata Americano traduz a alma dos anos 80 ("Sussudio", de Phil Collins, "Hip to Be Square" de Huey Lewis and the News, e "Walking on Sunshine", de Katrina & The Waves) . Grande parte do orçamento do filme foi gasto no pagamento aos direitos autorais destes ícones da geração gananciosa: US$ 150 mil por Hip To Be Square; US$ 120 mil por Sussudio.

Alerto que a a seguir se encontram spoilers:

Há ainda a grande polêmica acerca do final do filme. O fim nos faz perguntar se ele realmente cometeu os assassinatos ou não. Independente de qual seja sua versão, pois cada pessoa que assiste o filme pode vir a ter uma opinião diferente, o fim vem a ser uma crítica, assim como todo o filme. Se você achar que ele realmente cometeu os crimes, então o interesse do proprietário do apartamento falou mais alto e ele preferiu esconder os corpos e vender o apartamento por um valor alto do que arcar com toda a burocracia de esperar uma investigação dos crimes e perder clientes. Se você acha que na verdade ele não cometeu os crimes, tudo foi só delírio, a sociedade fútil o deixou louco.

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Fontes: Psicologia em Estudo - Contemporaneity: an american psychopathy?


Isabel Nobre

Nem sei mais..
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