pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

Legião: Ainda somos muitos

Desde 1985, depois do primeiro CD, que se intitulava legião urbana, a banda Legião Urbana encabeçou sucessos críticos que fazem sentido até hoje. As músicas dessa banda preservam bem o caractere de explorar nossa realidade social de acordo com o pensamento jovem. Dentre esses sucessos, um dos mais críticos e cheio de simbologias é a música Metal contra nuvens.


I Não sou escravo de ninguém Ninguém, senhor do meu domínio Sei o que devo defender E, por valor eu tenho E temo o que agora se desfaz. Viajamos sete léguas Por entre abismos e florestas Por Deus nunca me vi tão só É a própria fé o que destrói Estes são dias desleais. Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão. Reconheço meu pesar Quando tudo é traição, O que venho encontrar É a virtude em outras mãos. Minha terra é a terra que é minha E sempre será Minha terra tem a lua, tem estrelas E sempre terá.

II Quase acreditei na sua promessa E o que vejo é fome e destruição Perdi a minha sela e a minha espada Perdi o meu castelo e minha princesa. Quase acreditei, quase acreditei E, por honra, se existir verdade Existem os tolos e existe o ladrão E há quem se alimente do que é roubo Mas vou guardar o meu tesouro Caso você esteja mentindo. Olha o sopro do dragão...

III É a verdade o que assombra O descaso que condena, A estupidez, o que destrói Eu vejo tudo que se foi E o que não existe mais Tenho os sentidos já dormentes, O corpo quer, a alma entende. Esta é a terra-de-ninguém Sei que devo resistir Eu quero a espada em minhas mãos. Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão. Não me entrego sem lutar Tenho, ainda, coração Não aprendi a me render Que caia o inimigo então.

IV - Tudo passa, tudo passará... E nossa história não estará pelo avesso Assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá, vamos viver Temos muito ainda por fazer Não olhe pra trás Apenas começamos. O mundo começa agora Apenas começamos.

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"A verdadeira legião urbana são vocês". Essa frase foi dita por Renato Russo e mostra que suas músicas, são pessoais, e ao mesmo tempo expressão sentimentos dos jovem até hoje. Como a legião somos nós, devemos entender, interpretar as letras, trazendo aos dias de hoje todo o sentido que Renato achou para elas no final dos anos 80 e começo dos 90.

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Metal Contra as Nuvens é a mais longa música da Legião Urbana, com duração máxima de 11 minutos e 28. Lançada originalmente em 1991, no disco 5º, a música ganhou várias versões, sendo gravada posteriormente no Acústico MTV em 1992 (vídeo acima), e depois no famoso show “Como é que se diz eu te amo” (1994). Ela tem também uma característica muito interessante: diferentemente dos padrões de música, Metal Contra as Nuvens tem uma variação melódica muito grande. O seu início é calmo seguido por uma batida no estilo rock, sucedido por um final mais doce. É uma das poucas músicas da banda que possui um refrão. A música não era tocada nas rádios, devido à sua extensão (Mais de onze minutos, dependendo da versão) que superava em dois minutos até a música Faroeste Caboclo.

A começar pelo título e o refrão, essa música traz simbolismos que nunca fizeram tanto sentido quanto hoje. Metal, creem alguns, faz uma referencia ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva que na época havia perdido, de uma maneira pouco leal devido os cortes que a rede globo de televisão fez nos debates, para Collor, que como todos sabem, prejudicou tanto os brasileiros da época, congelando o dinheiro dos bancos de toda a população. Lula era um metalúrgico, e por isso a repetição no refrão de "Eu sou metal".

Através de metáforas e analogias a Santa Inquisição, que na letra é referenciada pelo termo O Sopro do Dragão, é tratada por Renato com sentimentos, como se fosse o que ele estava vivendo. “(...) por Deus nunca me vi tão só é a própria fé o que destrói estes são dias desleais”

No Brasil, que é oficialmente um estado laico, estamos enfrentando uma onda religiosa que parte das grandes redes de televisão, que virão que isso gera muitos lucros. Basta observar que na lista dos livros mais vendidos em nosso país, um livro do Edir Macedo, dono de uma rede de televisão e “bispo” da “igreja” Universal, é o mais vendido na lista de não ficção. Sim, o mais vendido. Talvez essa frase nunca tivesse feito tanto sentido na história do Brasil como agora. A escola, a política, a igreja, os meios de comunicação... São os meios que os poderosos usam para legitimar suas visões e seus desejos. Além disso, vejo que muitas igrejas transformam os fiéis em “medrosos” presos ao senso comum.

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Entre essas analogias, Renato Russo assumiu que a letra fala de uma época durante o mandato de Collor, quando os direitos autorais das canções ficavam presos e como a Legião Urbana fazia poucos shows, a banda ficou durante muito tempo sem receber dinheiro, indignação esta expressa nos versos. "Quase acreditei na sua promessa/ E o que vejo é roubo e destruição" "E há quem se alimente do que é roubo/ Mas vou guardar o meu tesouro/ caso você esteja mentindo"

O Sopro do Dragão citado na música é também possivelmente uma referência à inflação que assolava o país na época.

“Reconheço meu pesar quando tudo é traição, o que venho encontrar é a virtude em outras mãos”.

Traição e injustiça, é essa a imagem do Brasil e o perfil do ser humano que derruba qualquer um para ter prestígios e riquezas. O primeiro parágrafo é cantado de forma mais lenta. É expressado como uma desabafo. Ele perdeu sua inocência e viu que tudo é traição e percebeu a virtude em outras mãos. Quem sabe ele fala da política, mas poderia também estar tratando de assuntos pessoais. Renato constantemente tratava de assuntos pessoais e políticos em uma mesma frase, ou música.

“Minha terra, é a terra que é minha e sempre será. Minha terra tem a lua, tem estrelas e sempre terá”.

Aqui, mostra alguém a defender sua pátria, sua terra. Lembra a canção de exílio de Gonsalves Dias: “minhas terras tem palmeiras onde canta o sabiá (...)”. Esse poeta fez essa poesia quando estava exilado fora do Brasil, pelo fato de escrever e pensar diferente do que era permitido na época.

“Quase acreditei na sua promessa e o que vejo é fome e destruição. Perdi a minha sela e a minha espada perdi o meu castelo e minha princesa.”

Nesta estrofe, percebemos que elas se direcionam como critica a política. Confiei em certo político, depositei toda esperança (voto). Agora só vejo fome e destruição. Perdi toda minha esperança.

“Quase acreditei, quase acreditei e, por honra, se existir verdade, existem os tolos e existe o ladrão e há quem se alimente do que é roubo, mas vou guardar o meu tesouro caso você esteja mentindo. Olha o sopro do dragão...”

Aqui já se vê uma nova concepção de politica típica do dia de hoje: não se confia mais na política por causa das decepções que ela já fez. Devo garantir minha vida, não devo mais contar com a política.

Todas as estrofes seguintes retratam que existe um foco de esperança que permanece no coração de alguns. Alguns pensadores, alguns educadores que ainda tem espada (metal) para continuar lutando para mudar a realidade que atormenta, engana e destrói. Por fim diz que possuímos as ferramentas mais importantes para transformar: possuímos o saber que é a informação e possuímos a máquina orgânica chamada cérebro. Devemos usa-las! O mundo começa agora, apenas começamos.

“- Tudo passa, tudo passará... E nossa história não estará pelo avesso Assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá, vamos viver Temos muito ainda por fazer Não olhe pra trás Apenas começamos. O mundo começa agora Apenas começamos.”

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Isabel Nobre

Nem sei mais..
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