pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

Pequena crônica: caixa e vida.


tumblr_myag36sUaX1qe31lco5_500.jpg John Divola - Zuma (1977-8)

E quando Joaquim abriu a porta de casa, de manhã cedo, saindo para o trabalho, deparou-se com uma caixa. Fechada, de papelão, sem fitas colantes, sem qualquer palavra escrita, nem para indicar o endereço, não podia ter sido deixada ali pelo correio. Era só uma caixa, representação da surpresa para Joaquim, do novo, do mais. Podia ter tudo , qualquer coisa, dentro, até o nada. Podia acrescentar, ou diminuindo, acrescentar. Tudo uma questão de perspectiva.

A caixa de Joaquim, é como meu quarto, meu mundo. Aqui sou eu, aqui me guardo, aqui sangro e aqui morro. Transbordo em mim. Ressuscito as vezes. Solidão é algo que pode ser superado se adicionado o fator surpresa. Ela, essa tão (mal)falada solidão, é uma ótima companhia. A loucura também acha o mesmo que eu, na intimidade nós duas concordamos bastante.

Joaquim segura a caixa com as duas mãos e a aproxima do rosto. Caixa pequena, caberia um relógio. Olha para ela bem de perto com seus olhos negros, céticos que agora parecem confusos por estarem em dúvida. As rugas do meio da testa se contraem. Então, ele cheira a caixa, que, inesperadamente, cheira apenas a papelão. É apenas uma caixa, nada de especial vai acontecer na vida de Joaquim, é só uma caixa, nada de especial acontece. Nada especial nunca acontece com Joaquim.

A Janela do meu quarto não abre, e se abrisse a vista seria concreto. Ela, estando fechada, consigo ver o céu torcido através dos espaços onde há vidro trabalhado. Ouço os pássaros e imagino a vida. Em baixo da janela tem fotos azuis de todos os lugares do mundo, tirei de revistas de turismo e coisas parecidas. É ótimo refletir-las e refletir sobre elas. Céu, mar, azul.

Tudo tão estável, tão previsível.

Mas Joaquim ainda não abriu a caixa.


Isabel Nobre

Nem sei mais..
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