pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

Eu é um outro: a ilógica da realidade de Rimbaud

"Entre o olho e a coisa cai a sombra, essa sombra é a palavra pré-gravada."
Willliam S. Burroughs.


457px-Rimbaud.PNG Retrato de Arthur Rimbaud, com a idade de dezessete anos, por Étienne Carjat, c. 1872.

Poetas descrevem seus sentimentos, põe pra fora, analisam-se pelo uso da palavra muito antes que psicanalistas o tenham feito. Analisam-se também pelo uso de imagens, de sons, de tudo que possa ser expressado. É poeta mesmo que enterre todas as suas obras. Extravasam sentidos, mostram com beleza a inquietude de andar em ciclos. O verdadeiro poeta é inquieto e ainda assim consegue prestar atenção no mais discreto cair de uma folha seca e absorvê-lo, para depois cuspi-lo junto com seu próprio ser. O vento que bate bate na pele do ser, que sente verdadeiramente, é poesia.

Uma imagem pode ser poesia. Sebastião Salgado, por exemplo, é um poeta que escreve dramas, onde o normalmente subjugado se mostra como ser que supera, ou que precisa se superar, como herói épico ou como vítima que precisa de ajuda. O significado varia de foto para foto, como de poesia para poesia, mas o drama, a inclinação para a tragédia em suas fotos, sendo elas épicas ou não, é notável.

salgado021.jpg Fotografia de Sebastião Salgado em Serra Pelada, Brasil.

Há uma infinidade de poetas, tanto porque são muitos, tanto porque em um ser a muitos poetas. Todos somos vários sujeitos. Rimbaud era um poeta de palavras, mas palavras que não eram só palavras, eram sentimento vivo, sentimento intenso, que saiam dele e iam para o papel do rascunho como se vomitado em garranchos. Entretanto, quando ia passar a limpo não admitia falhas, o menor borrão era motivo de amassar a folha e começar novamente a transcrever o poema. Não há nada mais pessoal e universal que o sofrimento (mal-estar, unbehagen). O olhos tristes e profundos de Rimbaud, que pareciam saber de algo triste que os outros não sabiam, em sua fotografia mais famosa (primeira fotografia, acima), dão pistas de sua poesia. Seu sofrimento único, que ele traduz em palavras, e nós sentimos os nossos próprios sofrimentos com as palavras dele, e todo sofrer é um só.

Ele escrevia como que ao ar livre, internalizava tudo que via, e escrevia sempre sobre si e sobre tudo. Rimbaud viajou muito pela França, Belga... As vezes a pé, outras fugindo de trem para longe do autoritarismo da mãe fundamentalista cristã. Depois viajou muito com o poeta Verlaine, seu amante, fugindo da esposa dele, Mathilde Verlaine. Depois viajou para fugir de Verlaine e de tudo. No fim, ele fugia de si mesmo.

Rimbaud_&_Verlaine_by_Félix_Régamey.jpg Rimbaud e Verlaine em uma rua de Londres - Regamey Félix (1844-1907)

Rimbaud era "um imenso pássaro azul cinza se debatendo contra as molduras do teto e arrastando as asas na sombras da tarde", em suas próprias palavras. Ele era uma máquina desejante sem objeto de desejo e que não queria ser sujeito, mas era. Um neurótico impulsivo, um artista dionisíaco que expressa várias vozes de um mesmo uno.

Sua proposta era que fosse possível ver através da linguagem, sem ela, estava cego. Mergulhava abissalmente em todas as experiencias buscando uma linguagem diferente, nova.

Poesia agora é gesto, ideia, transe, imagem, música, é a observação de um mundo por alguém que sofre por ser. Rimbaud queria uma lógica nada previsível.

"Toda a poesia antiga desemboca na poesia grega, Vida harmoniosa. – Da Grécia ao movimento romântico – Idade Média –, há letrados, versificadores. De Énio a Teroldo, de Teroldo a Casimir Delavigne, tudo é prosa rimada, um jogo, rebaixamento e glória de inúmeras gerações idiotas (...) Com efeito, EU é outro. Se o cobre acorda clarim, a culpa não é dele. Para mim, é evidente: assisto à eclosão do meu pensamento: fito-o, escuto-o: dou com o golpe de arco no violino: a sinfonia tem um estremecimento nas profundidades ou salta de súbito para a cena. (...) O Poeta faz-se vidente por um longo, imenso e ponderado desregulamento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; procura por si próprio, esgota em si próprio todos os venenos para só lhes guardar as quintessências. Inefável tortura em que precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo Sábio! – Com efeito, chega ao desconhecido! Visto ter cultivado a alma, já rica, mais que ninguém! Chega ao desconhecido; e quando, apavorado, acabasse por perder a inteligência das suas visões, tê-las-ia já visto! Que rebente no seu salto pelas coisas inauditas e inúmeras: outros virão, horríveis trabalhadores; começarão pelos horizontes em que o outro tombou!" Trecho de Lettre du Voyant/ Carta do Vidente (Arthur Rimbaud à Paul Demeny, 15 de maio de 1871).

O poeta é como um tradutor do sofrimento humano, das mensagens enviadas da realidade para cá. O eu é um outro. Rimbaud sabia disso, e viveu vários, não foi só poeta, mas foi sempre poeta. Viveu o que pregou quando jovem, várias vidas na mesma, não se delimitou a ser "poeta". Viveu, certo ou errado, viveu.

Henri_Fantin-Latour_005.jpg Verlaine (extrema esquerda) e Rimbaud (segundo à esquerda) em uma pintura 1872 por Henri Fantin-Latour.


Isabel Nobre

Nem sei mais..
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