pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

Breve e apaixonante Rayon em Dallas Buyers Club

Em fevereiro de 2014 foi lançado ao grande público o filme Dallas Buyers Club, dirigido por Jean-Marc Vallé. É um filme orgânico, sem iluminação artificial, sem trilha musical, uma câmera. O filme foi gravado em 24 dias, os atores estavam completamente em seus personagens, era uma "coisa viva que estava acontecendo", segundo o diretor.


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É baseado em fatos reais, a história que gerou a obra se passa em 1986, a narrativa foca-se em Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um homem que é diagnosticado com AIDS e logo começa uma batalha contra a indústria farmacêutica, mostra a saúde como um negócio enquanto uma grande parte da população norte-americana julgava como direito. A descoberta obriga ao início de uma odisséia, procurando tratamentos alternativos, ele passa a contrabandear drogas ilegais do México para sobreviver, consequentemente facilita a sobrevivência de outros que também possuem o vírus HIV.

Aos 31 minutos de filme, surge na trama um personagem coadjuvante que encanta a todos os expectadores com sua aparição, elegante como uma dançarina burlesque que entra ao palco com a abertura das cortinas, e continua encantando até sua ultima cena, é Rayon (Jared Leto), uma transexual toxico dependente que adere ao negócio de Ron Woodroof. Rayon é um personagem belo, apaixonante, que nunca deixa de ser meigo, nem nas nas mais complexas adversidades. De certa forma, levando em conta todas as complexidades de ser alguém, Rayon saiu do lugar que lhe foi dado e foi viver a vida como mulher, apesar de não ter nascido no corpo de uma, indo contra os valores do grupo em que vivia.

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Numa sociedade como a nossa, onde são reprimidas, com particular atenção, as energias inúteis, a intensidade dos prazeres e as condutas irregulares, Rayon é um personagem fascinante, pois de certa forma, vive essas três proibições.

Ela saiu do conjunto de valores e regras propostas por seu grupo (família rica e bem sucedida e que segue os valores morais valorizados por parte da sociedade, como mostra quando Rayon tem o contato com o pai) e constituiu a si mesma como sujeito de uma moral a primeira vista, diferente da de sua família, agindo em referência aos elementos prescritivos que constituem o código do novo grupo que convive (até certo ponto, pois, até onde vemos, ela convive com a comunidade homossexual, se identificando como transsexual), convive também com Ron, heterossexual e inicialmente homofóbico, como o grande grupo social, mas não faz parte do mesmo subgrupo que a família de Rayon (ricos, bem sucedidos, alta-burguesia). Enfim, ela é um personagem com uma subjetividade complexa como a de Ron, mas também é outsider, parece ter sido outsider em todos os momentos de sua vida, o que a torna ainda mais complexa.

No documentário o vôo da beleza, do professor Alexandre Fleming, uma das primeiras falas do filme proferida por uma das meninas é: Nós, transexuais, buscamos a beleza (Rayon, quando já estava muito doente, profere a frase: "Deus, quando eu conhecer você, ficarei bonita, nem que seja a última coisa que eu faça, eu serei um anjo bonito"). As mulheres desse documentário são outsiders, no começo em seus corpos, em segundo plano na subjetividade, em terceiro plano, no lugar onde vivem.

Estamos acostumados a norma de gênero que postula que somos o que nossas genitálias informam, de modo a haver uma concordância entre gênero, sexualidade e corpo. De acordo com Cohen-Kettenis e Gooren (2009), os pais de meninos transexuais contam que, assim que seus filhos começam a falar, insistem em usar roupas e sapatos de suas mães e são exclusivamente interessados em jogos e brincadeiras de meninas, mostrando muitas vezes uma angústia em ser menino ou ter genital masculino.

Quando falamos em transexualidade, estamos nos referindo a um universo subjetivo. Sabemos que Freud não teve como foco de investigação a questão da transexualidade. Porém, a leitura dos seus textos nos permite diversas reflexões. Podemos perceber a importância que seu raciocínio pode ter hoje na compreensão e discussão desse fenômeno. A transexualidade é sumamente complexa e inclui uma diversidade de formas de subjetivação.

"(...) a posição de Freud ao chamar a atenção para a dificuldade em se definir masculino e feminino é revolucionária, na medida em que, nessa perspectiva, recusa toda amarra na realidade anatômica, subordinando, assim, a significação dessas noções a resultados de processos bem mais complexos que as determinações instintuais". (CECCARELLI, 2008, p.68)

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Alguns transexuais aceitam a transexualidade como algo natural e outros se opõem a ela, sentindo-a como algo que não deve ocorrer. Alguns acreditam que a transexualidade deve ser entendida como mais uma das formas de subjetivação do ser humano, enquanto que outras crêem ser ela um transtorno, eximindo-se, assim, de quaisquer responsabilidades, como escolha pessoal, bem como a seus familiares, em relação a fatores como formas de criação por parte dos pais, organização familiar ou mesmo traumas que tenham sofrido durante a infância. É difícil saber entre esses dois grupos qual se aproxima mais da vivência de Rayon, mas podemos supor que ela está mais para o primeiro que para o segundo, por sua postura com relação aos acontecimentos que ocorrem com ela em Dallas Buyer Club. Ela gosta da vida, não quer morrer, parece aceitar-se bem e procurar "ser ela mesma" sempre, e não parece que tenha sofrido abusos na infância pela relação com seu pai, breve, mas emocionante, que é mostrada nos momentos finais do filme.

Rayon constitui a si mesmo enquanto sujeito de uma moral, decide ser mulher e faz uma representação de si com adereços, práticas e gestos que simbolizam o feminino na sociedade ocidental, ele restringe a parte dele mesmo que constitui o objeto da pratica moral (o corpo masculino), define sua posição em relação ao preceito que respeita, estabelece para si um certo modo de ser que valerá como realização moral dele mesmo, e para tal, age sobre si mesmo, procura conhecer-se, controla-se, põe-se à prova, aperfeiçoa-se, transforma-se.

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Ela se coloca em um lugar de estar agradecida por estar no mundo. Quando pede ajuda ao pai, é para ajudar Ron, porque esta agradecida por ele ter sido seu amigo, "a ajudado". Ela não considera obrigação do mundo ser um lugar agradável, e quando ele é, ela se sente agradecida. A cena de sua morte é precedida por uma cena onde Ron entra em uma sala, no México, que estava povoada de lagartas, cujo casulo ajudariam a produção de antivirais, que acabaram de se tornar borboletas. Aludindo a uma metamorfose. Quando morre, Rayon deixa cair um apetrecho de maquiagem.

A AIDS não é simplesmente uma síndrome, dá também uma nova significação aqueles que com ela são identificados. Um colapso cardíaco é um acontecimento, mas não da a pessoa uma nova identidade, não transforma o paciente em "um deles", como acontece com quem possuía tuberculose ou com quem possui câncer e Aids.

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Muitas pessoas insistem em encarar a AIDS metaforicamente, como uma espécie de peste, uma condenação moral da sociedade. Os fulminadores profissionais não poderiam resistir à oportunidade retórica oferecida por uma doença fatal sexualmente transmissível. Ao contrário do câncer, entendido como uma doença provocada pelos hábitos do indivíduo e que revela algo a respeito dele (normalmente é visto como indivíduo reprimido, que não satisfaz suas vontades), a AIDS é concebida de maneira pré-moderna como uma doença provocada pelo indivíduo enquanto tal e enquanto membro de um "grupo de risco", essa categoria burocrática, aparentemente neutra que também ressuscita a ideia arcaica de uma comunidade poluída para qual a doença representa uma condenação.

Havia uma pressão crescente em identificar essas pessoas e assinalá-las. Era comum que pessoas fossem demitidas simplesmente por possuírem o vírus HIV. A reação dessa medida foi que "comunidades" que antes não existiam, pelo menos tão tão densas, surgiram, como o grupo de pessoas em que é focado o enredo do filme que aqui discorro sobre.

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Aids veio como que limitando uma época de prazeres mais livres, sua condenação prova isso, veio para reforçar mensagens complementares cada vez mais ouvidas nessa sociedade por pessoas acostumadas a procurar o prazer, que em números crescentes estão se interessando por programas de autocontrole e autodisciplina (regimes, ginástica). A aids é como uma "escancaração" da necessidade de limites perante a pessoas que a julgam como o mal do século.

As máquinas fornecem novas formas populares de inspirar o desejo em condições de segurança e mante-lo restrito à esfera do mental tanto quanto possível. Um exemplo claro disso é o sexo comercializado via telefone, na França, patrocinado pelo próprio Ministério de telecomunicações, que oferece uma versão do sexo promíscuo e anonimo sem troca de fluidos., que oferece uma versão do sexo promíscuo e anonimo sem troca de fluidos.

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Isabel Nobre

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