pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

ciborgue: porque não existe o natural

Mulher e homem, mente e corpo, realidade e aparência, totalidade e parcialidade. Que tal romper com essa lógica dualista em favor da fragmentação, da parcialidade ou mesmo da contradição?


IMG_1878-tile.jpg Fotografia de Isabel Nobre. Todos os direitos reservados.

O "Manifesto para Ciborgues" foi originalmente publicado na Socialist Review, em 1985, constituindo, mais tarde, um dos capítulos do livro Simians, Cyborgs and Women - The Reivention of Nature (1991). Escrito por Donna Haraway, esse manifesto usa a figura do ciborgue, um personagem recorrente na ficção científica contemporânea, como metáfora para a crítica da identidade em favor das diferenças e para reivindicar as possibilidades de uma apropriação politicamente responsável da ciência e da tecnologia, é como uma imagem condensada das transformações sociais e políticas do Ocidente na virada do século.

01.jpg Fotografia de Isabel Nobre. Todos os direitos reservados.

Híbrido de máquina e organismo, o ciborgue simboliza a ruptura e a confusão dessas fronteiras e pode ser apropriado criticamente para se fundar uma nova política. Neste sentido é que Donna Haraway propõe um rompimento com o marxismo, o feminismo radical e outros movimentos sociais que fracassaram ao operar com categorias como classe, raça e gênero. Em relação ao movimento feminista, a crítica de Haraway diz respeito ao modo como ele vem operando com a categoria "mulher" de uma forma naturalizada. Segundo Haraway "não existe nada no fato de ser mulher que una de maneira natural as mulheres". Sendo assim, seria necessário romper com essa política da identidade e substituí-la pelas diferenças e por uma coalizão política baseada na afinidade e não numa identificação concebida como "natural". O ciborgue seria, assim, o modelo, o mito fundante dessa nova política de identificação construída a partir da afinidade, longe da lógica da apropriação de uma única identidade.

IMG_2170.jpg Fotografia de Isabel Nobre. Todos os direitos reservados.

É necessário complexificar a reflexão sobre as nossas relações sociais cada vez mais mediadas pela ciência e a tecnologia, rechaçando tanto uma "metafísica anticientífica"(característica do discurso criacionista) quanto uma "demonologia da tecnologia". Por isso é que Haraway faz uso do ciborgue e de uma vasta literatura de ficção científica neste trabalho. Da imaginação da ficção científica podem emergir uma nova maneira de se relacionar criticamente com a ciência e a tecnologia e, assim, possibilidades políticas interessantes para o século XXI.

Originada a partir dos Estudos Culturais norte-americanos, a Teoria Queer ganhou notoriedade como contraponto crítico aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais e à política identitária dos movimentos sociais. Os primeiros teóricos queer rejeitaram a lógica minorizante dos estudos socioantropológicos em favor de uma teoria que questionasse os pressupostos normalizadores que marcavam a Sociologia canônica. A escolha do termo queer para se autodenominar, ou seja, um xingamento que denotava anormalidade, perversão e desvio, servia para destacar o compromisso em desenvolver uma analítica da normalização que, naquele momento, era focada na sexualidade. Foi em uma conferência na Califórnia, em fevereiro de 1990, que Teresa de Lauretis empregou a denominação Queer Theory para contrastar o empreendimento queer com os estudos gays e lésbicos.

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Teóricos queer encontraram nas obras de Michel Foucault e Jacques Derrida conceitos e métodos para uma empreitada teórica mais ambiciosa do que a empreendida até então pelas ciências sociais. De forma geral, as duas obras filosóficas que forneceram suas bases foram História da Sexualidade I: A Vontade de Saber (1976) e Gramatologia (1967), ambas publicadas em inglês na segunda metade da década de 1970.

Na década de 1980, o movimento LGBT no Brasil iniciou uma parceria política com o Estado a fim de enfrentar o surto da AIDS. O sucesso dessas ações contribuiu para novas pautas políticas visando melhor assistência à população LGBT. Tais políticas nos últimos anos ampliaram-se, porém adaptando-se ao modo de representação política vigente, uma política identitária essencialista, ou seja, "Gays" nascem "gays", e não há nada que alguém possa fazer sobre isso.

Alguns manifestantes da causa LGBT, alegam que usam esse essencialismo como "identidade estratégica", ou seja, uma maneira mais segura de exigir direitos. Seria algo como: "Já que nascemos assim, estranhos, precisamos de direitos, eu não escolhi ser gay, ser, estranho". Como podem não perceber e aceitar a hierarquização e o discurso de poder que essa frase retoma e afirma? E SE EU TIVER ESCOLHIDO TER RELAÇÕES COM UMA PESSOA QUE TEM UM ÓRGÃO GENITAL PARECIDO COM O MEU, QUAL O PROBLEMA?

Acredito que o movimento queer, ainda que não proponha definir uma direção precisa, é capaz de inspirar o estranhamento de noções arraigadas em nossa cultura e suscitar indagações pertinentes. A negociação do movimento LGBT com o Estado ficaria ameaçada, caso não se recorresse ao discurso de uma identidade sexual para reivindicação de direitos? Seria possível pensar políticas públicas para além da identidade? As políticas públicas construídas para uma dita "minoria" não seriam mais um espaço através do qual o "normal" tolera o diferente?

IMG_2292.jpg Fotografia de Isabel Nobre. Todos os direitos reservados.

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REFERÊNCIAS: Miskolci, Richard. A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização. Sociologias, Jun 2009, no.21, p.150-182. ISSN 1517-4522 HARAWAY, Donna. "Manifesto Ciborgue: Ciência." Tecnologia e Feminismo-Socialista, 2000. Sampaio, Juliana Vieira and Germano, Idilva Maria Pires Políticas públicas e crítica queer: algumas questões sobre identidade LGBT. Psicol. Soc., Ago 2014, vol.26, no.2, p.290-300. ISSN 0102-7182


Isabel Nobre

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