pra não dizer que não falei das flores.

Eu convido você para um mundo onde não existe tal coisa como o tempo.

Isabel Nobre

Nem sei mais.

O dêmonio da competição: mitos do “não chore” da vida de Isabel

“Não demonstre tristeza, se fizeres isso os outros te engoliram viva/vivo.”; “Falar sobre seus problemas é entregar a própria cabeça ao inimigo.”; “Chorar é para os fracos.”. Essas afirmações, a 30 anos atrás, eram frases opressoras mais direcionadas a pessoas do sexo masculino. No entanto, eu que não nasci com um falo entre as pernas e há 19 anos atrás, as escutei muito.


Self-Portrait - Sarah Afonso.jpg Self-Portrait - Sarah Afonso

É notório que, pondo em termos simples, quem é pobre tem um tipo de educação, e quem é rico tem outra (basta lembrarmos das escolas profissionalizantes, destinadas para pessoas de baixa renda, e faculdades de medicina e direito, para filhos de médicos e advogados), e além desse recorte amplo, há o fato de que cada casa é um caso, e pais criam seus filhos de formas diferentes, e não afirmo aqui que todas as mulheres estejam sendo educadas dessa maneira, e muito menos falo que essa é uma maneira correta ou não de se educar pessoas. Esse texto é como um desabafo, como uma conversa comigo mesma, uma reflexão sobre um corpo castrado por ele mesmo, por uns e pro outros, que nem existem. Esse é um texto de uma universitária de 19 anos tentando encontrar explicações para eventos corriqueiros em algo que está latente. Se não vê sentido em ler sobre isso, essa é a hora de pular fora e ir ler algo mais interessante (vai dar uma lida em A inconstância da alma selvagem, de Viveiros de Castro, recomendo muito, ou leia sobre a Língua Pirahã e veja que existem mais possibilidades do que você imagina).

É importante sempre lembrar-mo-nos que as opressões mulher e homem não podem ser desassociadas. Ver o homem como apenas um opressor da mulher anula a subjetividade de milhões de seres e simplifica um problema absurdamente profundo em um caso de hollywood dos anos 50 (sempre um bonzinho e um vilão), e as coisas não são bem assim.

De acordo com Sócrates Nolasco (1993) “homens”, por nascerem “homens”, tem uma expectativa de sucesso, assessão social. Eu senti essa expectativa como algo constante em minha trajetória, e nasci considerada uma mulher e até hoje assim me consideram. Analisando essa afirmação, percebi que é quase comum que pessoas de classe média da minha geração, cresçam ouvindo essa afirmação. Uma opressão que era antes mais exclusiva masculina, hoje não tem tantas restrições. Me parece que o que antes era mais um problema de gênero agora se torna também um problema de classe, ou sempre tenha sido, mas de forma menos evidente. A cultura do individualismo na sociedade contemporânea com certeza é um pilar central nessa questão, mas não é por ai que vamos nos enveredar.

Lady Hazel Lavery -  Sir John Lavery.jpg Lady Hazel Lavery - Sir John Lavery

Renunciar a uma representação de si carregada de qualidades extraordinárias não se mostra uma tarefa fácil. Cresci com uma dificuldade para lidar com desilusões, caso alguma causa interna me atrapalhasse, me considerava “problemática”, “fraca” e procurava esconder isso de várias formas. Sempre tive comigo que deveria separar completamente corpo, genitais e envolvimento afetivo, pensava que eram três elementos reativos e que quando dois ou mais se encontravam juntos, uma catástrofe aconteceria. Meu corpo, meu desejo, e sentimentos, que são minha subjetividade eram sublimados por um ideal distante de sucesso e poder que eu deveria buscar.

Se agora você lê esse texto e me imagina como uma pessoa fria, essa não sou eu, ou não somente. Existem vários momentos de mim, e eu posso ser várias coisas, sentir vontade de acariciar, ou vontade de agressão física, vontade de ir de encontro, vontade de fugir, vontade de bundas femininas, ou vontade de pênis. Isso pode acontecer, e não quero me limitar a me definir por conta de expectativas alheias.

Uma das minhas maiores descobertas pessoais recentes: eu posso sim, amar alguém, posso sim, sofrer por que uma pessoa não corresponde as minhas expectativas, e não isso não vai me fazer uma pessoa menor, ou menos legal, ou menos bonita, ou menos qualquer coisa. Essa percepção se deu pois me deu conta que expressava uma certa aversão a certas pessoas que demonstravam afetos que não sabiam se seriam retribuídos, as achava “fracas”. Não havia um motivo real para a minha aversão a essas pessoas, era tudo medo (Freud explica), medo de me expressar, medo de ser como elas, tudo um grande e feio medo.

É uma luta constante se conhecer, de ver aquilo que influi sobre sua vida, de procurar os porquês e consequências das questões mais pequenas, mas que geram problemas grandes. O medo de falar sobre sexo e sobre sentimentos são coisas ainda fortes em mim, o último então, nem falo. “Sentimentos” é tabu.

Expectativa de sucesso não se infiltra só em termos de trabalho/estudo, ela está em tudo. Temos que ter o trabalho ideal, o corpo ideal, o relacionamento ideal, a renda ideal. Por mais que eu lute contra esses “ideias”, eles estão latentes, sempre aparecem me culpando, me falando que eu não deveria ficar triste, parada, que isso é coisa pra fracos, que eu deveria fazer algo sobre isso agora, quando tudo que preciso é um tempo para sentir, pensar. Porque não? Minha tristeza mais intensa advinde da culpa por estar triste. Mea Culpa.

Two Girls By A Table Look Out On A Starry Night  -    Frederick Cayley Robinson  1905.jpg Two Girls By A Table Look Out On A Starry Night - Frederick Cayley Robinson (1905)

Além de tudo isso, é imprescindível falar sobre culpas que só a experiência como mulher nessa sociedade proporciona. Nós vemos livros de auto-ajuda pelas livrarias nas estantes de best-salers com títulos tais como: “Porque mulheres são de Vênus e homens são de marte?”; “Porque só as poderosas casam?”, algumas de nós (como eu) os olham e desconsideram por se tratarem de livros de autoajuda, e serem livros comerciais. Entretanto quando algo de “errado” ocorre em minha vida, vem esses títulos em minha cabeça, e vários conselhos que escutava enquanto criança, que me ensinavam como me portar, como estar sempre por cima. Sempre por cima. Nunca demonstre interesse. Cuidado, se não tal pessoa ira perceber seu afeto por ela. Essas frases nunca saem da minha cabeça e a luta contra elas é constante.

Eu não preciso estar sempre por cima, eu não quero mais ter que me provar no mundo, ter que provar que sou interessante. Tenho que lutar contra isso cada segundo, o território do eu tem que ser livre. Tenho que ser para mim, e não para os outros, e digo isso no sentido mais profundo possível.

REFERÊNCIAS

NOLASCO, Socrates Alvares. O mito da masculinidade. 1993.


Isabel Nobre

Nem sei mais..
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