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Cuffman

Sou faixa preta, eu toco guitarra. Um dia eu vou pular de asa. Durmo de dia, trabalho a noite. Não sei se vou voltar pra casa

Viva (Camisa de Venus): um autêntico show de Rock N Roll

Conheça o Viva, um disco Ao Vivo marcante do Rock Nacional, que fez história por ser lançado sem a permissão da divisão de censura federal durante a ditadura militar. Conhecido por ser o primeiro disco ao vivo do rock brasileiro sem técnicas de manipulação de áudio em estúdio. O disco mostra a forte interação que existia com o publico, mesmo a banda não estando em evidencia na mídia.


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Estava observando meus discos na estante e decidi escrever sobre um em particular. O disco em questão é o primeiro ao vivo da banda baiana Camisa de Vênus, chamado Viva e lançado em 1986.

O disco foi lançado em meio a ditadura militar sem pedir permissão para a divisão de censura federal, como mostra os dizeres da capa: “As faixas do álbum não foram submetidas à divisão de censura de diversões publicas. Não estão autorizadas as suas execuções públicas e radiofônicas", o que pra começar é um feito muito marcante para a época.

O Viva é o disco perfeito para mostrar a força do Camisa de Vênus, uma banda que conquistou fama praticamente através dos palcos. Havia todas as dificuldades possíveis para a banda aparecer na mídia e para conseguir uma gravadora devido as letras que eram agressivas, as declarações ácidas do vocalista Marcelo Nova e ao nome que era considerado palavrão em tempos que eram muito mais conservadores. Camisa de Vênus pra quem não sabe, significa camisinha e pode até parecer ridículo nos dias de hoje, mas na época os jornais publicavam o nome da banda como “Camisa de ...” para evitar constranger as pessoas.

Depois de muito tempo na estrada a banda teve oportunidade de gravar seu primeiro disco pela Som Livre (da Rede Globo), sendo colocado em uma das reuniões que a banda teria que mudar de nome para que fosse possível sua divulgação nas rádios e em programas da Rede Globo como o Chacrina, Fantástico, etc. Marcelo Nova, pra variar, mandou todos terem uma “boa tarde”(tomar no cu), sugerindo a mudança do nome para “Capa de Pica”. Obviamente a banda foi expulsa da gravadora.

O Camisa ficou mais de um ano só na estrada e sem disco em catálogo, situação que só iria mudar com o lançamento da música Eu Não Matei Joana Dar’c. A música virou uma febre tão grande que as gravadoras passaram a achar o nome da banda não mais tão agressivo ou subversivo, mas sim irreverente.

Mesmo com todas as dificuldades pra gravar, mesmo sem tocar nas rádios, sem muitas participações em programas de TV, a banda tinha um público fiel, que ia a todos os shows e conhecia todas as músicas. Tinha também o famoso grito do “bota pra fuder”, algo que se espalhou pelo Brasil sabe-se como sem os compartilhamentos do facebook nos anos 80. Essa interação público-banda pode ser notada na canção My way do viva, uma versão nada formal e recheada de palavrões do clássico imortalizado na voz de Frank Sinatra. O público canta junto do início ao fim, mesmo que não houvesse nenhuma gravação de estúdio.

O inicio do show é destruidor. Sem dar tempo para o público respirar, a banda imediatamente após tocar Eu não matei joana Darc, já engata os primeiros acordes neuróticos de Hoje, canção que fala da loucura da vida nos grandes centros urbanos, onde você quer fazer tudo, quer tocar guitarra, pular de asa, mas não sabe mais nem o corte de cabelo que usa, ou se vai voltar vivo pra casa. A impressão que dá é que as duas músicas se tornam uma só.

Esse disco tem algo que nenhum outro disco ao vivo teve na época. Haviam discos “ao vivo de estúdio”, mas não haviam “discos ao vivo, ao vivo”.

Não entendeu? Vou explicar: o viva não foi remixado e não possui overdubs (quando as gravações ao vivo são levadas ao estúdio para todos os instrumentos serem regravados, de modo a deixar com uma sonoridade mais limpa). Tudo que aconteceu no show está registrado ali no vinil, com microfonia , palavrões , gritos do público, instrumentos mal tocados e tudo mais que um show ao vivo e improvisado tem direito. A interação com o publico é muito forte e empolgante, a ponto do publico ser apresentado na contracapa como integrante da própria banda.

Marcelo Nova – vocal; Gustavo Mullem – guitarra solo; Karl Hummel – guitarra base; Roberio Santana – contra-baixo; Aldo Machado – bateria; Público - gritos, palmas e inestimáveis backing vocals.

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Outro detalhes marcante do show é o discurso de Marcelo Nova antes da canção Silvia:

“Hoje tem um monte de mulher na platéia. Hoje é o dia internacional da mulher e nós queremos aproveitar a oportunidade... porque o Camisa de Venus tem acusado de ser uma banda machista, mas não é nada disso. Na verdade o camisa de Venus é a única banda heterossexual do planeta... e então a gente não podia deixar de dizer que nós amamos as mulheres. Sem vocês, nós não viveríamos em hipótese alguma. Inclusive eu acho que o mundo só vai concertar o dia que a mulher tomar o poder, tem mais tato , sensibilidade, tem mais carinho. Bem, agora que eu já enchi o ego de vocês, podem arriar as calçolinhas e vamos lá”

Pode parecer um discurso arrogante e machista, mas não passa de uma performance puramente anárquica, algo que o público sabia e queria. Portanto não havia espaço para ressentimentos. Hoje, ironicamente podemos dizer que a mulher tomou o poder, porem se o mundo vai concertar, ou pelo menos o país, já são outros 500.

O show termina com chave de ouro ,com uma versão inalcançável de O adventista. O público ensandecido, instintivamente mudou o refrão da música de "não vai haver amor nesse mundo nunca mais" para "não vai haver amor nessa porra nunca mais", tornando isso um coro ensurdecedor, enquanto Marcelo Nova se deita no palco e começa a rezar o pai nosso. Desfecho marcante para um disco marcante.

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Uma versão completamente sem nexo e mutilada do viva foi lançada em CD, com o discurso de Silvia e a faixa Rotina cortadas, além de inserção de músicas de estúdio. Se quisessem fazer um trabalho decente colocariam no CD mais músicas do próprio viva, músicas que tiveram que ser cortadas do Vinil, pois esse só suportava cerca de 35 minutos de áudio.

Pra quem curte e entende o espirito do Rock n' Roll , é um disco muito bom de se ouvir. Bate até um certa vontade de voltar no tempo e ter ido nesse show. Afinal quem gosta de ir pra um show de rock e ver o público paradão? Ou pior, ir a um show com o público mais preocupado em filmar do que se divertir? O viva foi um show sem frescura, pauleira, com a banda no auge do vigor físico e com um público inspirado. Pra quem foi a esse show em Santos no caiçara club em 1986, restam boas recordações. Para outros fãs mais novos como eu, que não puderam viver essa época, só resta seguir as recomendações da capa do disco:

“Esse disco não foi remixado. Você ouve o que aconteceu no show. E OUÇA ALTO"


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Sou faixa preta, eu toco guitarra. Um dia eu vou pular de asa. Durmo de dia, trabalho a noite. Não sei se vou voltar pra casa.
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