praticando godot

Para quem cansou de esperar

Daniel Baz

Aprendeu com o filho do Oswald de Andrade que a poesia é a descoberta das coisas que ainda não vimos. E isso foi bom...

O jejum de Paolo Sorrentino

"A grande beleza", novo filme do diretor Paolo Sorrentino, atualiza um dos maiores clássicos kafkianos: "O artista da fome". O equilíbrio entre empaturrar-se e comedir-se surge, por intermédio da figura de seu protagonista, como um dos desafios da arte contemporânea.


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No final de "A grande beleza", novo filme de Paolo Sorrentino, Gep Gambardella, personagem vivido intensamente por Toni Servillo, revela porque deixou de escrever após a publicação de seu único romance, solucionando o maior mistério da película. A causa é simples: por não conseguir encontrar a grande beleza, Gep desistiu da arte. Dessa forma, o protagonista reencena a célebre fábula kafkiana “O artista da fome”. O texto do tcheco narra a condição alienada de um jejuador, cuja façanha já não tem mais apelo diante da sociedade. Ao fim da história, contudo, seu sacrifício é redimensionado ao descobrirmos que o homem deixara de comer única e simplesmente por não ter encontrado o alimento que o agradasse. Esse sentimento de vazio será atualizado por intermédio de uma espécie da crítica da cultura atual, conduzida por Sorrentino desde o primeiro take de seu novo trabalho.

Após epígrafe, retirada do romance "Viagem ao fim da noite", de Céline, a câmera sai de dentro de um canhão e nos mostra um grupo de espectadores aplaudindo um disparo ensaiado. O contexto bélico, tão importante na obra do escritor francês, aqui se transforma em uma performance vazia e gratuita. O ideal do espetáculo sem sentido, portanto, é a profissão de fé do entretenimento burguês. A cena remete ao início de "A doce vida", de Fellini (intertexto básico para a compreensão de "A grande beleza"), quando uma estátua de Jesus carregada por um helicóptero diverte um bando de traunseuntes que a segue correndo.

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Após este significativo início, muitos personagens são apresentados ao lado de monumentos históricos de Roma. Não sabemos qual deles será o centro da narrativa e essa errância é transmitida por uma câmera movimentada, que se sucede em travellings e panarômicas nervosas, garantindo que quase nenhuma cena neste ponto do roteiro seja estática. Um número musical é a única fonte de ligação e ritmo destes fugazes momentos. Uma forma irônica de, sutilmente, sugerir a importância condutora da arte em nossa existência.

Um japonês parece que irá ganhar destaque, mas morre. Aparentemente, de beleza. Um grito estridente (paralelo também à figura mascarada que serve de transição em "A doce vida"), acompanhado ao fundo por música eletrônica altíssima, é o contraponto entre arte clássica e (pós)moderna, imposto antes mesmo que saibamos o plot a ser desenvolvido. Uma anã desmaia alcoolizada, um ator se gaba de estar interpretando um Papa e um viciado ao mesmo tempo, enquanto que uma ex-vedete de Tv sai de dentro de um bolo. Nenhum destes intrigantes seres será o protagonista, mas garantem que a ideia de desajuste seja encarada como regra. A música folclórica de uma banda estereotipada de mexicanos busca espaço no meio da estridente festa. O território globalizado permite a emergência de qualquer tipo de fenômeno, mas também o descaracteriza. A ambivalência e ansiedade de tudo que é mostrado desconcerta o expectador acostumado com a gramática padrão do cinema atual. O sentido se ensaia, mas não se concretiza... Ainda. Até que surge o verdadeiro protagonista da história. Um homem "destinado à sensilibildade", romancista de um livro só, que ganha a vida como jornalista. Este, artificialmente, se destaca de uma coreografia vulgar de "La colita" e assume o centro do quadro e do enredo. Entretanto, a multidão que coreografa o hit ao fundo, funciona análoga à sua inquietação disfarçada de falso equilíbrio.

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A errância, admitida pelo tratamento dos cortes e movimentos de câmera, servirá de "ethos" de Gep, personagem que encarna um típico Flâuneur, cuja mobilidade é a única forma de lidar com um mundo destituído de sentidos fixos. Quando as multidões, as grandes massas humanas, ameaçam o eu, ele flana. Põe-se em movimento, fingindo descompromisso (ideia presente já na desleixada pose do ator na capa do filme). Acontece que, quando anda, o indivíduo se redefine, visto que se relaciona com a comunidade que o cerca. Gep se perde na experiência labiríntica de uma Roma desglamourizada que, podendo ocultar meninas no subsolo de sua imponente arquitetura, diz muito a respeito de si. Descobre um grande amor, revê um velho amigo, distribui verdades aos hipócritas, observa o desaparecimento de uma girafa e, mesmo assim, espera que um cardeal lhe revele o sentido da vida. O ócio é, simplesmente, sua rebeldia disfarçada de alienação. Gep jejua.

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A ideia do jejum está explicitamente presente na figura da santa que visita Roma ao fim do filme, contrastando com o cardeal ocupado o tempo inteiro em discorrer sobre receitas de pratos variados. É ela quem diz saber o nome cristão de todos os pássaros que se alimentam das migalhas deixadas na sacada de Gep. É ela quem provoca a bela imagem da revoada dos animais, intantes antes do término da obra. É ela também quem pergunta, nesta mesma cena, o porquê do velho escritor nunca mais ter escrito um livro e, após a resposta, sopra a revoada de aves para longe, compondo um plano de "grande beleza" que extasia Gep.

Tanto a velha religiosa, quanto o sectagenário romancista olham diretamente para a câmera, encarando o espectador nos últimos quadros de "A grande beleza". Isso, por um lado, retoma mais uma vez "A doce vida", que se encerra com a mulher na praia nos observando. Por outro lado, a conexão com o público (que convida à participação ativa deste) é análoga ao olhar do artista da fome kafkiano, cuja potência comunicativa está à mercê das decisões e interesses da plateia. Ao longo do filme, vimos todo o tipo de manifestação da linguagem, desde performances artísticas que podem causar traumatismo craniano, até crianças obrigada a se cobrir de tinta para benefício dos pais e de uma audiência desesperada por integração. Sendo assim, uma revoada de pássaros diante da aurora, um homem faminto, uma namorada adolescente viva na memória, as fotografias da vida inteira de um homem exposta nas paredes, ou uma mulher banhando-se em uma fonte: todos estes acontecimentos podem ser origem de beleza. Para Sorrentino, no entanto, o belo não é uma questão de uso, mas de manifestação. Empanturrar-se ou comedir-se: eis a humana questão!


Daniel Baz

Aprendeu com o filho do Oswald de Andrade que a poesia é a descoberta das coisas que ainda não vimos. E isso foi bom....
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