praticando godot

Para quem cansou de esperar

Daniel Baz

Aprendeu com o filho do Oswald de Andrade que a poesia é a descoberta das coisas que ainda não vimos. E isso foi bom...

O sádico lobo de Wall Street

Martin Scorsese encontra Marquês de Sade, faz um dos melhores filmes do ano, e ajuda a compreender a mediania do espectador de cinema atual.


Não entendo certos espectadores. Agora começaram uma luta contra “O lobo de Wall Street”, último filme de Martin Scorsese, sugerindo que este faz apologia à vida de seu protagonista, o corretor de ações Jordan Belfort, regada a álcool, polvilhada de cocaína e recheada de sexo (além de vários outros tipos de excessos). É claro que essa intriga tem por fundo o ataque dos estúdios, que temem que o lupino de Scorsese abocanhe o Oscar deste ano. Mas a confusão vai mais além e fere os fundamentos da sétima arte. Afinal, o primeiro dado que parece estar sendo ignorado é a natureza própria da linguagem cinematográfica. Cinema é desejo. É perversão editada, ritmada. Nossas pulsões mais básicas se projetam no exibicionismo inerente aos atores. O espaço escuro da sala de cinema fortalece a ideia de uma experiência secreta, quase privada. Contudo, se deixa seduzir quem quer.

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O filme conta a vida de Jordan Belfort, corretor de ações da Bolsa de Nova York, que se envolve com operações ilícitas até ser preso na década de 90. Para analisá-lo, comecemos por algumas das muitas referências presentes em sua trama, das quais destaco duas citações fundamentais. Primeiramente, “Freaks”, de Tod Browning, quando os colegas de Jordan cantam a famosa canção “We accept you, one of us”. Nesse momento, o diretor está resgatando o clássico de 1932 com o intuito de sugerir que o estranho e o aberrante são a regra de seu novo trabalho. A outra citação se refere ao filme “A última noite de um homem”, que aparece em pelo menos duas cenas. Primeiro, no momento em que a esposa de Jordan o seduz e vemos seu rosto embasbacado por debaixo de seu joelho. Já a segunda referência, situa-se no trecho em que ouvimos “Mrs Robinson”, imortalizada no clássico de Mike Nichols, enquanto são efetuadas inúmeras prisões dentro da empresa que Jordan construiu, em um exercício de deslocamento semântico que marca todo o filme. De fato, a ode ao deformado e à volúpia sexual, obviamente fetichizada, se sustentam como dois campos semânticos funcionais para entender “O lobo de Wall Street” e ajudam a notarmos como os espectadores que acusam a obra de apologia caíram na sua propaganda, limitando-se à superfície do filme e seu principal produto: o protagonista vivido por DiCaprio e sua vida.

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Na primeira cena de “O lobo de Wall Street”, um leão caminha dentro de uma empresa e este sentimento surreal, que poderia existir em um filme de Buñuel, é apropriado para manifestar a selvageria (Donnie, o personagem de Jonah Hill, comerá um peixe de aquário em cena posterior) que marca a vida dos investidores da Stratton Oakmont. A seguir, ouvimos o protagonista enumerando suas conquistas materiais, passando pela Ferrari, por sua imensa mansão, seus jatinhos e sua mulher. É apropriado unir as conquistas materiais com as afetivas, pois todos os tipos de sedução, seja sexual, pessoal, material, são manifestações da lógica do consumo ao longo de todo o filme.

É apropriado também que as figuras projetadas em “O lobo de Wall Street” sejam figuras de disjunção, efeito sabiamente explorado quando Jordan se apresenta em “voice over”, enquanto vemos um anão em primeiro plano na tela, o que leva o protagonista a se identificar novamente, corrigindo o possível equívoco. O diretor trabalha o tempo todo com essa recontextualização de sentidos, geralmente confundindo desejo sexual com poder (o nome de seu navio é Naomi, mesmo nome de sua esposa), poder com consumo, consumo com alucinação, etc. Na primeira venda do personagem de Di Caprio na Stratton, por exemplo, o cliente afirma que sua mulher irá pedir divórcio, devido ao fato de ele estar se envolvendo neste tipo de especulação e a expressão corporal do protagonista é, justamente, o popular movimento dos dois braços para trás que simula o coito. A vitória ou derrota nos negócios é análoga à (in) satisfação sexual e/ou familiar. Sendo assim, como acontecerá com o próprio Jordan e já ocorreu com inúmeros heróis de Scorsese (“Touro indomável”, “Os bons companheiros” e, principalmente, “Cassino”) seu percurso demonstra que a busca do prazer é proporcional à destruição da vida. É isso que causa nossa admiração (admirari = espantar-se).

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A ideia de sedução, afinal, é o processo orientador do consumo. Jordan se vende o tempo inteiro. Tenta nos conquistar pela espetacularização da própria existência (não se esqueçam de que ele se apresenta no exato instante em que acaba de arremessar um anão e é preso durante a filmagem de uma de suas propagandas). O excesso e a abundância regem o seu mundo e são essenciais para o acesso a ele. Mesmo o mordomo de sua casa se entrega a exageros. Para marcar com mais força o seu território em relação a nós, Jordan olha para câmera e se dirige à plateia. Isso nos fere, porque, quando adentramos o cinema, vivenciamos a posição passiva de espectador que marca a situação cinematográfica, de acordo com Hugo Mauerhofer. Quando ele nos olha, sentimos desconforto, pois queremos ver sem sermos vistos. Exigimos o anonimato, mas Jordan faz questão de informar que sabe de nós.

Ao atrapalhar nosso fetiche, Jordan fortalece ainda mais os seus. Acontece que o diretor não deixa de fazer certas escolhas que servem de contraponto irônico àquilo que o protagonista diz e faz. Um dos mais visíveis exemplos disto ocorre no instante quando Jordan vê sua futura esposa, Naomi, pela primeira vez. Sua visão está obstruída pelo ângulo da câmera e por lamparinas que adornam o cenário entre ele e a personagem de Margot Robbie, o que é indício de sua visão deturpada de mundo. Contudo, Scorsese investe em outro plano que nos mostra o objeto de desejo de Jordan de forma clara e correta. São essas correções que nos mantém afastados o tempo inteiro da ideologia propagada pelo anti-herói. Isso é traduzido também pela ampla profundidade de campo das câmeras utilizadas dentro da Stratton Oakmont que, ao abarcar em foco todos os detalhes do espaço, nos mantém ainda mais afastados dele. A cena mais emblemática com relação a este tipo de composição é o plano-sequência que começa com a câmera acompanhando o advogado de Jordan, que caminha ao lado dele com uma rosquinha e um copo de café. A câmera entra na sala de conferência para encontrar novamente o protagonista que explica seu trabalho diretamente à câmera, unicamente para, enfim, caçoar do fato de não estarmos entendendo nada.

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Todavia, a trajetória de Jordan não se reduz apenas ao espectáculo da acumulação e da autoafirmação, mas também incorpora o que Guies Lipovetsky chamou, em “A era do vazio”, de “ultra-simplificação das opções que a abundância torna possíveis”, já que não há limites para as combinações de prazeres possíveis no mundo de Jordan. E a cena em que eles e os companheiros discutem quais são as regras para o lançamento de anões em público deixa de ser hilária para ser assustadora. Jordan quer nos convencer de que pode tudo e, efetivamente, consegue façanhas incríveis como viajar de barco para Mônaco, enfrentar uma tempestade e sobreviver. Além disso, todos os companheiros do herói são enérgicos como ele. Gritam, pulam, dão cambalhotas, não permitindo que em suas relações entre o sentido de medo e fraqueza que aniquila a lógica do consumo. Nessa realidade subvertida, a masturbação pode ser feita em público, sem rodeios. A violência deste tipo de cena enfatiza a forma como o erotismo domina tudo. E combina com a linguagem que abusa dos palavrões, afinal o desregramento e a ruína devem operar em todos os discursos.

Bataille, no seu clássico sobre o erotismo, explica de que forma as narrativas a respeito dos excessos dos reis nos dão acesso ao “homem integral”, pois complementariam a perspectiva que o cidadão comum tem da vida, e sugere que isso tenha se perdido na burguesia atual. A exuberância da vida na realeza poderia inclusive compensar o marasmo da vida comum. O maior responsável no ocidente pela crítica deste estado de coisas é Marquês de Sade. Foi ele quem tornou mais óbvio de que forma o excesso pode erradicar a razão. O francês definiu os rumos nos quais a volúpia zomba do trabalho e, como bem demonstra Bataille, entendeu, principalmente no impactante “120 dias de Sodoma e Gomorra” (cuja adaptação cimetográfica de Pasolini apresenta pontos de contato com o novo filme de Scorsese), que o efeito primordial do excesso é a negação do outro. “O lobo de Wall Street” resgata este sentimento, pois une, na mesma soma de excessos, os comportamentos opostos da excitação sexual e do gasto, em que não se medem os prejuízos em prol do prazer (e o narrador revela em vários momentos as fortunas que gasta com prostitutas) e se dilapida recursos consideráveis com a obsessão pela aquisição de bens. O mundo de Jordan é sádico. A soberania se estabelece pela negação dos direitos do outro e a cena de uma mulher raspando os cabelos por 10 mil dólares resume bem isso.

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Isso também é um tema operante em filmes antigos do cineasta, como “Os bons companheiros” e, principalmente, “Cassino”. Neles não é possível encontrar felicidade verdadeira que não seja no gasto inútil. Utilizamos a gratuidade dos nossos gastos para virar o mundo do avesso. É assim que a erotização do mundo torna-se a traição de tudo que é considerado normal. O destino do grande libertino é a anomalia (Jordan é mostrado em sessão sadomasoquista em certo trecho), pois a capacidade de prazer se esgota rapidamente. É necessário encontrar uma droga não mais fabricada. Não basta ter uma Ferrari, mas aquela que já esteja fetichizada pelos meios de comunicação. Ser excêntrico, para personagens como Jordan, não é mais uma opção. A soberania tem como ponto de chegada a libertação do ser de toda e qualquer necessidade. É aí que entra a função do excesso, isto é, manter ativo um ser que já supriu suas carências básicas e suas expectativas essenciais. Dessa forma, assim como não há necessidades, não há medo neste mundo e é aí que fica difícil de identificarmo-nos com Jordan, pois sua ambição o aliena de nossa “miséria”.

Como em Sade, é a consciência do herói que torna tudo mais complexo. A ideia da civilização a respeito da violência estipula que ela deveria ser associada à perda de controle, desregramento. Entretanto, os heróis de Scorsese conseguem digressionar a respeito de sua situação e, no caso de “O lobo de Wall Street” há um discurso indireto consciente até mesmo da câmera que o vê. A violência não escapa, portanto, da consciência, mas, para não deixar as coisas muito simples, dessa vez Scorsese concebe um personagem que vive em estado alterado de consciência e, portanto, encara tudo por intermédio da fruição da própria vida. Já foi dito que Jordan erotiza muitas de suas conquistas. Chega a expor sua mulher ao voyeurismo dos seguranças para escapar de uma discussão (e é necessário notar o detalhe dos brinquedos da filha no chão). Até mesmo Donnie casa com a prima para eliminar a concorrência. Nesse sentido, a digressão e as câmeras lentas incidentais, servem como suspensão do gozo e salientam a ilusão de eterna posse. A viagem de barbitúricos de Donnie, por exemplo, é sabiamente mostrada em slowmotion. Belfort chapado deve entrar em seu carro e isso leva muito mais tempo do que deveria. A imagem é mais forte, pois simboliza a torta caminhada de Jordan na construção do seu império e o surreal esforço que faz em prol de banalidades e da manutenção do prazer.

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Chegamos, portanto, ao ponto inicial deste texto. Bataille mais uma vez pode nos ajudar, já que ele se pergunta, falando de Sade, se ao louvarmos o apologista do crime estamos, por extensão, louvando o próprio crime. Para responder a esta pergunta, devemos pensar em um último aspecto do filme de Martin Scorsese, visto que o diretor, mais uma vez, impede a profanação absoluta do espaço no qual seus personagens transitam. O profano se opõe ao sagrado e a violência em “O lobo de Wall Street” é claramente ritualística. A trajetória de Jordan incorpora muitos aspectos do espaço sagrado, visto que uma das marcas mais importante desta esfera é a inutilidade imediata de seus fenômenos. Além disso, no espaço da empresa são permitidos certos comportamentos humanos inacessíveis ao homem comum e que fogem à sua consciência. O sadismo surge da alegria presente de certa mistificação da existência, conduta própria do discurso religioso (marca também forte no trabalho de Scorsese desde “Mean streets”).

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Sendo assim, a irregularidade moral de Jordan ao ser associada à consciência e ao ser reproduzida de forma ritualística, nos toca, ainda que garantindo que estejamos para sempre alienados de seu mundo. O homem normal entende que ele não tem acesso ao espaço onde os personagens do filme transitam, mas compartilha do distanciamento irônico que a direção, a montagem e o roteiro formulam, o que permite que embarque, se desejar, em uma viagem de autoconhecimento. Sabendo disso, e acertando uma última vez, a cena final de “O lobo de Wall Street” sintetiza toda a obscenidade que a obra abordou. Esta surge representada pelo olhar hipnotizado das pessoas em direção ao personagem de DiCaprio, enquanto ele ensina a vender uma caneta. A disposição das cadeiras se assemelha a de uma sala de cinema. Nós terminamos o filme observando o que o próprio Jordan Belfort viu durante toda a projeção: nós mesmos, espectadores espantados, fascinados, alienados.


Daniel Baz

Aprendeu com o filho do Oswald de Andrade que a poesia é a descoberta das coisas que ainda não vimos. E isso foi bom....
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