Magnólia Barbosa

Professora de Geografia, estudante de Artes Visuais, jogadora de frescobol, cabeleireira, psiquiatra, costureira e blogueira nas horas vagas.

Alexander McQueen: uma mente inquieta, uma moda além das roupas

O estilista britânico Alexander McQueen revolucionou o jeito de fazer moda. Com sua criatividade, aliada à sua habilidade, arquitetou roupas que foram além da utilidade do vestir. Seus desfiles dramáticos e suas peças irreverentes chocaram e encantaram o mundo.


The late, great British fashion designer Alexander McQueen at the finale of his SpringSummer RTW 2006 collection in Paris.jpg O estilista usando uma camiseta com a frase "nós te amamos kate" no fim do desfile da coleção primavera/verão 2006 (photo ap)

A genialidade como é medida? Um QI acima de 140? Uma capacidade de criar algo fora do comum, invulgar, de perceber o que a maioria não percebe? Um gênio nasce gênio ou se torna gênio? Quantos gênios não nos são desconhecidos? Quantos gênios não sabem que o são? Lee Alexander McQueen, de uma família humilde de Londres, quando costurava vestidos para suas irmãs irem à escola, talvez nem imaginasse que um dia receberia o título de gênio da moda. Foi a paixão e a necessidade que o guiaram para sua vocação de estilista-artista. As circunstâncias o empurraram para as passarelas e o fizeram entrar para a história da moda.

Na escola, foi um fracasso, como muitas das mentes mais criativas, tanto que abandonou a sala de aula e começou a trabalhar, aos 16 anos, na famosa rua da alfaiataria de luxo masculina de Londres - a Savile Row (sua escola primária na moda). Foi lá que durante quatro anos desenvolveu sua habilidade no quesito estrutura. Sim, porque suas criações eram, para além de objetos de arte, roupas bem estruturadas. Mas a mente inquieta de McQueen queria mais. Queria ter sua liberdade, sua identidade… Mudou-se para Milão onde trabalhou como assistente de design por um tempo. De volta a Londres, estudou moda na Central Saint Martins e, finalmente, sua genialidade foi reconhecida, logo após sua coleção criada para a conclusão de mestrado em 1994. Esse reconhecimento veio do apoio de sua melhor amiga a partir daí - a icônica Isabella Blow - conhecida pelo estilo excêntrico e por seus chapéus.

article-2398404-1B628459000005DC-852_634x954.jpg McQueen e Isabella (retna pictures)

Isabella chegou à Saint Martins para ver um desfile, mas a sala estava lotada. Sentou-se, então, nas escadas. Ao ver a coleção de McQueen inspirada em Jack, o estripador, apaixonou-se imediatamente pelas roupas e comprou a coleção inteira. Pouco tempo depois, o estilista foi morar com ela. Numa entrevista, Isabella disse que ele era muito engraçado, espirituoso, mas também uma mistura de fragilidade e força. McQueen teve em Isabella mais que uma admiradora e incentivadora do seu trabalho, uma alma gêmea e parte da família. Na mesma entrevista, ela revela coisas sobre o amigo: “nada nele me irrita, a não ser seu ronco”; “ele é sensível e muito na dele”; além de tudo, “ama todos os animais”.

Segundo Isabella, ver McQueen trabalhando era maravilhoso, “concentrado e suando como um porco. Ele via cada corpo como uma silhueta. Seus sonhos se realizaram. Acho que ele será lembrado como Yves Saint Laurent. McQueen mudou a forma como olhamos para as mulheres porque ele puxou para baixo os seus quadris e alterou a forma como andamos. Sua influência é monumental.” A amizade deles era tão forte que McQueen dedicou sua coleção primavera/verão 2008 em memória da amiga, que cometeu suicídio no ano anterior.

Quanto às influências, nem mesmo ele sabia dizer. Suas criações nasciam dos conflitos na sua mente, de sua imaginação, de seu subconsciente. As inspirações vinham de leituras que fazia de si e do mundo. Por isso, seus desfiles chocavam tanto as pessoas. Pela sua criatividade estranha e por sua qualidade artesanal. Muitas não compreendiam, e hoje continuam sem compreender, seu trabalho, sua arte. Mas essa não era sua intenção. McQueen só queria que as pessoas se sentissem mais confiantes com suas roupas. Ele próprio se considerava inseguro na sua vida pessoal. E quem não é?

Alexander McQueen, Sarabande.jpg Vestido em seda todo coberto por flores naturais. Coleção primavera/verão 2007 Sarabande inspirada no filme Barry Lyndon de Kubrick.

A mistura de cortes clássicos, materiais invulgares, design extravagante, ousadia nas cores, composições surrealistas e carisma faziam parte de suas coleções, cujas referências iam de Darwin à tecnologia, de florais incomuns aos jardins chineses, do cinema às artes visuais. Uma coisa não podemos negar: ele era muito imaginativo e criativo, e seus desfiles não eram maçantes. Depois de McQueen, as passarelas jamais foram as mesmas. Apesar de não gostar de teatro e ter trabalhado como figurinista, os desfiles dele eram muito teatrais, dramáticos, verdadeiros espetáculos cênicos.

Alexander McQueen criou muitas peças icônicas, como as “bumsters”- as controversas calças de cintura baixíssima - e os “sapatos-tatu”, que Lady Gaga usou no vídeo da música Bad Romance. Desde criança, ele sempre parecera uma pessoa controversa e estranha aos olhos dos outros. De fato, o bad boy da moda não foi um estilista para todos. Tanto que seus maiores clientes eram artistas e pessoas excêntricas, como David Bowie, Lady Gaga, Bjork, Keith Flint do Prodigy, entre outros.

Captura de ecrã total 19-01-2015 152634.bmp.jpg Lady Gaga no vídeo da música Bad Romance

Entre 1996 e 2001, sucedendo John Galliano, McQueen esteve à frente da Givenchy, o que de certa forma restringiu sua criatividade. Contudo, durante esse período estão algumas de suas criações mais inspiradoras. Em 1997, numa entrevista à Vogue, disse que sua coleção de abertura para a marca foi um lixo. A parceria com a Givanchy tornou-se insustentável ao ponto do estilista declarar sua insatisfação: “Demita-me! isso é o que eu sempre quis.” Em 2002, a poderosa Casa Gucci comprou 51% da sua empresa com o intuito de elevar a marca ao status de luxo e a fez gerar muito lucro. O negócio com a Gucci deu-lhe a liberdade criativa que ele tanto desejava. “Minha marca é incrivelmente importantate para mim e eu acredito que esta parceria irá revelar um grande sucesso.”

É difícil escolher a melhor coleção, o desfile mais dramático, porque tudo era surpreendente. No fim do desfile primavera/verão de 1999, a modelo Shalom Harlow entrou com um vestido branco e colocou-se no centro da passarela, num círculo de madeira que girava, enquanto robôs com sprays o coloriam diante do público que aplaudia. Nesse mesmo desfile, a para-atleta Aimee Mullins subiu à passarela com próteses esculpidas em madeira que pareciam botas longas. O público e a imprensa nem desconfiaram.

A modelo Shalom Harlow "contracenando" com robôs no fim do desfile da coleção primavera/verão de 1999

Em 2006, após o escândalo de Kate Moss com a cocaína e a consequente rejeição pela indústria da moda, McQueen, provocador e num gesto de apoio à amiga, projetou um holograma tridimensional da modelo dentro de uma pirâmide, em Paris. No fim, entrou com uma camiseta onde estava escrito “Nós te amamos, Kate!”. Foi uma das cenas mais lindas num desfile dele.

Holograma de Kate Moss projetado durante o desfile da coleção outono/inverno em 2006. Surreal!

Alexander McQueen teve uma carreira brilhante, ganhando vários prêmios: quatro vezes o de estilista britânico do ano; em 2002, o CFDA de melhor designer internacional; e foi homenageado pela rainha Elizabeth II por seus serviços para a indústria da moda. Em suas palavras: “Eu não planejei minha vida assim. Quando as pessoas reconhecem e respeitam o que você faz é bom, mas eu não acho que devemos fazer isso pensando em ser famosos. A fama deve ser deixada para as estrelas do cinema. Nós estamos apenas oferecendo um serviço”.

Lee Alexander McQueen morreu aos 40 anos, em 2010. Cometeu suicídio nove dias após a morte de sua mãe, amiga e parceira de trabalho, Joyce.


Magnólia Barbosa

Professora de Geografia, estudante de Artes Visuais, jogadora de frescobol, cabeleireira, psiquiatra, costureira e blogueira nas horas vagas. .
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