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"Welcome back my friends to the show that never ends"

Paola Domingues

"Seja ela, a liberdade, com todas as suas formas descritas, a mais válida talvez seja a música, que ultrapassa o tempo e o espaço, as dimensões e o raciocínio, penetra e expande para onde quer que você decida estar".

Zé, a viola e o Oco

Mais do que a cultura e as produções internacionais, é importante primeiramente valorizar o que temos de genuinamente brasileiro. O artista da viola Zé Helder trabalha neste ponto de forma magnânima. Com composições campeiras em um amontoado de sentimentos e folclore, nasce o segundo projeto do compositor “O oco do bambú”.


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José Helder Machado e Bustamante nasceu no interior de Minas Gerais, em Cachoeira de Minas. Numa entrevista com o artista, ele descreve um pouco de seu trabalho e sua vivência. Relata que o reconhecimento de hoje foi de uma insistente vontade de ser músico. Antes de sua Licenciatura de Música em 2003, já tocava em bailes, casamentos, barzinhos e também em grandes palcos aqui e no exterior. Porém seu desempenho desencadeou-se pela "escola da vida", tocando em diversos lugares, nos mais diferentes eventos, Zé aprendeu muito mais do que manusear um instrumento, mas dar vida às suas composições.

Acredito piamente que esta seja a verdadeira essência de um músico. Fazer com que o instrumento faça parte dele e ele faça parte do instrumento, por sua vez. Zé Helder tem muito disso. Uma pessoa extremamente humilde, engajado em seu trabalho, centrado e sempre muito solicito, o que o define acima de tudo, um bom músico e uma boa pessoa.

A VIOLA

Os projetos desenvolvidos pelo Zé e também demais parceiros, como o Moda de rock e Matuto Moderno provém de uma mesma proposta: o desenvolvimento musical com base na viola caipira. Este ponto foi o que a primeira vista me chamou atenção. Aqueles que como eu, teve sua infância e juventude marcadas pelas tradicionais “modas de viola”, não poderia deixar passar por desapercebido o magnífico e inovador trabalho realizado por estes músicos.

Pra mim, a viola caipira é mágica! Um instrumento que cravou a cultura regional caipira e fruto de tantos clássicos da música brasileira – o que estava ainda faltando era explorar mais este instrumento, coisa que violeiros como Zé e Ricardo Vignini se dedicam religiosamente a fazer –. Zé Helder passou pelo mesmo sentimento em 1999, quando no conservatório em Pouso Alegre encontra no almoxarifado uma violinha abandonada. Desiste do contrabaixo e vende tudo para dedicar-se à viola.

526934_572340892791536_718333361_n.jpg Arquivo pessoal - imagem da gravação com o grupo Matuto Moderno

O OCO

O segundo trabalho solo de Zé Helder, “O Oco do Bambú”, transmite muito mais que essa exploração do instrumento, mas também um resgate vivencial do próprio autor. Isso é perceptível entre suas composições. O descrever de situações e histórias que remetem às lembranças do autor. Um formato que abrange o perfil de nostalgia e saudade encontradas nas músicas de Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Liu e Léo e tantos outros. Zé afirma que o cd não foi um projeto conceitual, que teria uma proposta do inicio ao fim, mas sim, foi se desenvolvendo ao longo das gravações. Existem inserções instrumentais complexas em umas e elaborações simplificadas em outras, e parte deste desenvolvimento deve-se ao músico e amigo Ricardo Vignini que orientou, ajudou, compartilhou do projeto.

modaderock05.jpg Ricardo Vignini e Zé Helder - Moda de Rock

Outro ponto crucial do cd “O oco do bambu” foi a crônica elaborada em volta do personagem folclórico Saci Pererê, onde o músico de certa forma, contesta a supervalorização da cultura exterior a ponto de deixar nossos mitos e nossas crenças em segundo plano. É interessante perceber, que com estas observações, Zé amplia a visão para outros parâmetros além-culturais como a educação em nosso país.

Ao comentar sobre o projeto, me vem curiosidade de entender seu título. Zé explica: “Eu sou muito ligado no pensamento oriental, sou praticante de Yoga, leio sobre taoismo, i-ching, essa coisa toda. Acho que existem coisas extremamente sucintas e verdadeiras nessas leituras, eu que venho de uma formação católica, acho que o nosso céu é de uma burocracia celestial enorme, pra emprestar um pensamento do Rubem Alves. E praticar yoga (no oriente não se filosofa, se pratica) me trouxe uma compreensão muito simples das coisas. Aliás tem uma máxima budista que diz que “o simples é o certo, o certo é simples”. E o bambu é um vegetal que tem várias qualidades taoítas, a flexibilidade, a retidão, e principalmente, o vazio interior. Você só pode tomar água da fonte do conhecimento se levar um copo vazio. Se você não se esvaziar, você não pode se encher novamente. As paredes de uma casa servem pra abrigar o vazio interior que é o que realmente utilizamos. É pra isso que praticamos meditação. Esse meu disco abre com uma faixa chamada Tao, que diz isso de forma sucinta. E se liga com a música Saciá, porque o mesmo Oco do Bambu taoista é onde são gerados os novos sacizinhos que vão sair pelo mundo, segundo o folclore brasileiro. Essa correspondência pra mim soou muito interessante, virou o tema principal do disco, que como eu disse antes, não tem uma unidade, acontecem outros momentos”.

481058_552713988087560_720942077_n.jpg Arquivo pessoal - imagem da gravação do DVD Moda de Rock

Zé comenta, para nossa alegria, que estará com novo lançamento em breve: o “Assopra o Borralho”: “Meu próximo disco solo se chama Assopra o Borralho, comecei a gravar agora. Depois de gravar viola com bateria, guitarra, metais, cordas, me deu vontade de fazer algo mais despojado, gravado sem muita edição e processamento, tudo mais simples. As canções de Assopra o Borralho tem uma instrumentação mais concisa, voltei a usar o contrabaixo acústico, com e sem arco, e chamei alguns convidados. A mais usada dessa vez será uma viola dinâmica feita pelo Luciano Queiroz”.

Tudo que se espera é mais uma maravilhosa produção, com composições marcantes, bem elaboradas e cheias de vida. No site da Uol é possível ouvir as músicas do cd, mas este trabalho realmente vale a pena ter em casa! Acesse o link: http://www.radio.uol.com.br/#/busca/artista/ze helder

Para adquirir os produtos dos violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder, acesse: http://modaderock.com.br


Paola Domingues

"Seja ela, a liberdade, com todas as suas formas descritas, a mais válida talvez seja a música, que ultrapassa o tempo e o espaço, as dimensões e o raciocínio, penetra e expande para onde quer que você decida estar"..
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