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Remember when you were young, you shone like the sun!

Erick Freire

O Amor não despedaça - Precisamos falar sobre Hannah Baker

O que sei é: 13 Reasons Why não foi feito para quem está silenciado. Hannah Baker não dá voz a ninguém. Hannah Baker é ótima para abrir os ouvidos. Não há glamour no final da série. Não há troca de olhares em câmera lenta de jovens apaixonados. Há apenas uma conclusão do Sr. Porter, conselheiro escolar da escola de Hannah: “O amor não salva ninguém”. E é aqui que discordamos, Sr. Porter.


Hannah Baker

Diferente do que canta Ian Curtis no primeiro capítulo de 13 Reasons Why, não, o amor não vai nos despedaçar. Hannah Baker selou seu destino despedaçada, sim. Mas não pelo amor.

Se você não assistiu 13 Reasons Why ainda, aqui vai um alerta de spoilers sobre a série. Vamos juntos descobrir que precisamos falar sobre Hannah Baker, e tem que ser agora!

Bom, primeiramente, gostaria de falar sobre a produção 13 Reasons Why, depois sobre Hannah Baker, duas coisas absolutamente distintas.

Como um típico seriado hype teen, a produção oscila entre o velho conflito adolescente ‘eu contra o mundo’ e o mal do século, ou o mal causado por este século: a depressão.

No primeiro episódio já temos o tom do restante da série. Com enredo a la Malhação, sobre desventuras adolescentes no ensino médio, adolescentes bem sucedidos nos esportes versus os bem sucedidos nos estudos, meninos e meninas que parecem adultos, mas não podem comprar bebida alcóolica sem identidade e com uma trilha sonora hora tirando o fôlego, hora provocando a vontade de apertar o mute da TV, caminhamos rumo a treze episódios que prendem a atenção dos espectadores que, mesmo já sabendo o final da história, continuam assistindo para saber os treze porquês.

Logo de cara, no primeiro episódio, temos dois fatos importantes: Hannah se matou e deixou sete fitas K7 com treze motivos gravados e detalhados por ela, explicando o que a levou a tomar a decisão de tirar a própria vida.

Os filtros da película variam de cores quentes, para as cenas em que Hannah ainda está viva, para cores frias nas cenas pós-morte da jovem, na intenção de dar um ar melancólico, mórbido e saudoso à trama. A produção executiva da série fica por conta da musa teenager, Selena Gomez, que comprou os direitos do livro Thirteen Reasons Why de Jay Asher, contendo a história original.

Se por um lado a produção não poupou ninguém de cenas bizarras de estupros de adolescentes, torturas psicológicas e o próprio suicídio de Hannah, reproduzido de forma visceral em uma sequência com mais de 5 minutos, por outro lado, o roteiro utiliza uma linguagem cool nas narrações da jovem ao contar como teve sua vida arruinada por uma série de acontecimentos sucessivos. Ela conta toda a história em primeira pessoa, ao passo que as fitas deixadas são reproduzidas, sempre em tom de “querido diário”.

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Agora, como essa não é uma crítica de cinema, vamos falar sobre Hannah Baker.

Hannah é uma jovem de 18 anos, muito bonita e inteligente. No ambiente high school americano ela, com sua personalidade, consegue estar inserida nos dois grupos predominantes: o dos atletas/animadoras de torcida e no grupo dos nerds bulinados. Sua família é uma típica família americana com pais bem sucedidos e trabalhadores, que fazem de tudo para manter o padrão de vida da filha única. Possuem o pequeno negócio de uma loja de conveniência e, ao que o roteiro indica, estão sempre ocupados demais com o trabalho e demais situações normais da vida e, negligenciam em certa medida, o relacionamento com Hannah.

A principal característica de Hannah, passada pelo roteiro e pela forma como a história se desenrola, é sem dúvidas, sua avançada capacidade crítica e de autoconhecimento. O que não é nada normal para uma adolescente de 18 anos, cheia de conflitos de identidade e em processo de formação de caráter. Talvez essa utópica e brilhante mente, ajude a contar uma história de forma madura e descontraída, quando realidades como essa muitas vezes lidam com mentes confusas e nada determinadas a se avaliar. Ela consegue facilmente explicar motivações das pessoa com a precisão de um expectador de uma série de TV, como se assistisse a trama de sua própria vida de vários ângulos diferentes.

Hannah tem treze razões para tirar a própria vida e milhares de outras para não o fazer. Por mais que precisasse de apenas uma razão e um segundo preso a ela para fazer o que fez, ela deixa claro durante os treze episódios da série que o processo de tomada de decisão foi degradante e degenerativo. Ela retira do foco sua vida normal e coloca em foco o inferno na qual sua vida se tornou. Seu autoconhecimento não podia superar a barreira imediatista da imaturidade, achando que tudo estava um inferno e permaneceria.

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Olhando de forma fria, e este é um texto frio, escrito em uma sala fria, digitado em um teclado frio que não dá a mínima para sentimentos, consigo ver claramente, apesar de todas as situações vivenciadas por Hannah, um egoísmo solitário. O egoísmo é um sentimento frio. O egoísmo não sente saudades. O egoísmo não olha pra trás nem pra frente. Foi feito agora, para hoje. Sua vida começou a se tornar um deserto a partir da terra prometida de muitos. O que quero dizer com isso? Hannah saiu de uma situação familiar confortável, com conflitos administráveis, com problemas solucionáveis e caminhou, deixando sua própria vida por treze caminhos diferentes, em direção a um inferno apocalíptico.

Não consigo imaginar o nível de destruição da alma de uma pessoa que decide por tirar a própria vida. Não consigo imaginar que tipo de inferno Hannah estava vivendo. O que posso construir, e aqui digo por experiência própria como alguém que já chegou ao final apocalíptico da tomada de decisão, é uma reação possível aos treze motivos de Hannah para atravessar este inferno, não ilesa, mas viva.

Todas as situações vividas por ela provocam um sentimento de impotência e humilhação. Um sentimento de uso e desuso. Apenas um objeto. Apenas uma pedra no caminho das pessoas. Porém não é o fim. Com apenas 18 anos e no ensino médio, auge da instabilidade emocional, dos conflitos, das buscas, dos turbilhões sentimentais e do mergulho em mil paixões simultâneas, a vida cresce diante dos nossos olhos. Quantos primeiros beijos ainda teremos para dar? Quanta má fama ainda temos para deixar nos lugares que passaremos? Quanto fora-da-lei ainda seremos considerados? Quantas injustiças ainda veremos! As palavras duras que ouvimos, as cenas que os nossos olhos testemunham, os conceitos que a nossa mente não processam são ecoados pelo pior de nós aqui dentro. São ecoados pela nossa própria incapacidade de resolver os problemas. Simplesmente não conseguimos resolver! Hannah Baker não conseguiu.

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Tem algo que me chama bastante atenção na vida/morte da Hannah. Ela cometeu apenas um erro em toda a sua trajetória. Não foi tirar a própria vida. O erro de Hannah Baker foi omissão. Quando o pior do mundo ecoou dentro dela, ela se omitiu. Ela não compartilhou consigo a sua opinião sobre aquele mal. Ela não permitiu que o melhor dela dissesse ao pior dela o que achava sobre aquilo. Ela calou 50% de si logo de cara. Na sequência ela calou 60% de si. Na outra semana ela calou 80% de si. Alguns 12 motivos depois, apenas 10% de si tinha voz. Em uma última tentativa de ouvir algo que a fizesse desistir, Hannah procura o conselheiro de sua escola e percebe que as palavras do conselheiro não encontraram mais nem 1% de Hannah. O que havia era um campo de pólvora e alguém acabara de atirar um coquetel molotov nesse campo.

Não é incomum encontrar vozes silenciadas como a de Hannah Baker por aí. Não incomum encontrar vozes muito altas falando também. O desequilíbrio é o cenário mais comum. Hannah narrou a sua história de forma equilibrada, por mais que ela mesmo tenha se desequilibrado. Ela fez parecer que estava tudo bem, que estava no controle. Sua voz permanece doce até nos momentos que vai xingar alguém. Parecia realmente que estava tudo bem. Pra falar a verdade acho que a depressão causa essa sensação mesmo. Não dá mais aquele frio na barriga de descer uma montanha russa. A queda se torna algo tão comum, que só resta ser doce, como Hannah Baker. Não tem mais gravidade na depressão. É um lugar inerte.

O que sei é: 13 Reasons Why não foi feito para quem está silenciado. Hannah Baker não dá voz a ninguém. Hannah Baker é ótima para abrir os ouvidos. Não há glamour no final da série. Não há troca de olhares em câmera lenta de jovens apaixonados. Há apenas uma conclusão do Sr. Porter, conselheiro escolar da escola de Hannah: “O amor não salva ninguém”. E é aqui que discordamos, Sr. Porter.

Não precisa haver silêncio! Não precisa haver vozes demais. Muito barulho as vezes incomoda a alma. Precisa haver descanso. Precisa haver a segurança de descansar. Precisa haver a segurança de saber que tudo vai ficar bem. E todos estes ‘haveres’ só conseguimos encontrar no Amor. O único que reúne em si: voz, silêncio, segurança e bem-estar.

Hannah Baker, o amor nada omite. Precisamos falar de treze razões para você não ter tirado a própria vida, mas nenhuma delas se compara com a possibilidade do amor.


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