Larissa Paes

''eu sou um blefe''

A Padaria Espiritual: Movimento Cultural precursor da Semana de Arte Moderna de 22

A Padaria Espiritual construiu com excelência e originalidade a pulsão necessária para um envolvimento intrínseco com a cultura popular, no sentido de reverenciar e ecoar a própria beleza. Oriunda da longínqua Província do Ceará, em plena movimentação sócio-politica e cultural da passagem do século XIX para o XX (transição da Monarquia para a República).


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O Movimento Artístico - mais comungado com a literatura - fez, em 2012, 120 anos, sendo tema da X Bienal Internacional do Livro do Ceará, em Fortaleza. Bienal responsável, além de uma homenagem, por uma espécie de resgante do movimento, já que, na contemporaneidade, ele está quase abandonado, esquecido. Essa desvalorização da cultura cearense é ressonância da depreciação perpassada por toda a cultura nacional.

Como disse o antropólogo Darcy Ribeiro: ''Precisamos inventar o Brasil que nos queremos''

Afirmação que a Padaria bradou com devoção. O nacionalismo preciso para a sobrevivência dos ataques eurocêntricos, de forma hiperbolizada, teve sua gênese nesse movimento, antecipando em 30 anos o estandarte da Semana de 22. Como a província não era possuidora de uma voz retumbante, a Semana de 22 se tornou o embrião dessa perspectiva.

''Toda a ironia e irreverencia da Padaria se justificavam pela crítica a sociedade burguesa e as instituições que mantinham seu poderio ideológico, uma vez que seus membros eram, em sua maioria, oriundos das camadas média e baixa da população e se mostravam descontentes com a classe burguesa, dentre outras coisas, pelo exacerbado apreço pela cultura europeia.''

O escritor Antônio Sales foi o idealizador e responsável pela construção de uma estrutura para ''legitimar'' o movimento. De todas as agremiações cearenses, com viés literário, a Padaria foi a mais importante. Evocou originalidade e pretensão sociológica, em oposição às outras agremiações. ''Uma sociedade literária, como já se tinham fundadas tantas, com um caráter formal de academia mirim, burguesa e retórica e quase burocrática, era algo para o qual eu sentia uma negação absoluta'', enunciou Antônio Sales.

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O Programa de Instalação (o estatuto), com 48 itens, dissecou as premissas e propostas da Padaria. A dissonância ao imposto, aos padrões vigentes, foi anunciada. O estatuto obteve certa visibilidade quando foi transcrito em um jornal da capital, Rio de Janeiro. Com o Programa, portanto, a composição, a estruturação da Padaria ficou assim:

2) A Padaria Espiritual se comporá de um Padeiro-Mor (presidente), de dois Forneiros (secretários), de um Gaveta (tesoureiro), de um Guarda-livros na acepção intrínseca da palavra (bibliotecário), de um Investigador da Coisas e das Gentes, que se chamará Olho da Província, e demais Amassadores (sócios). Todos os sócios terão a nomeação geral de Padeiros.

E os itens mais significativos, que sintetizaram essa agremiação, foram:

14) É proibido o uso de palavras estranhas à lingua vernácula (...)

Agressão ao uso de ''estrangeirismos'', principalmente da língua francesa, já que era um lastro corruptível. Assim, eles queriam ''abolir'' essa dominação. Vinculando-se ao projeto nacionalista de negação ao pensamento do colonizador. Apesar dos discursos febris, não depreciaram os grandes escritos, como Goethe, mostrando o caráter consciente da agremiação; já que não se apresentou um ''nacionalismo míope'', mas um nacionalismo que potencializasse e valorizasse as referências da terra. Como o que fez a Semana de 22, aglutinando conhecimentos europeus em benefício de uma identidade nacional.

21) Será julgada indigna a publicação de qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à Fauna e à Flora brasileiras (...)

Itens que evidenciaram, de forma mais representativa, o que seria a Semana de 22. Como um prenúncio.

Os membros da Padaria se reuniram na efervescência social de Fortaleza, a Praça do Ferreira (não era nomeada assim, naquela época, o espaço central de Fortaleza; passando por diversos nomes), mais precisamente no restaurante/bar Café Java - ponto de encontro, de modo geral, da boêmia. Esses encontros, sessões, eram chamadas de ''fornadas'', de onde saíram ''promessas literárias - e digo 'promessas' pois, geralmente, nunca se cumpriam o proposto'', expressou o jornalista Raymundo Netto, entusiasta contemporâneo do movimento. A heterogeneidade era marca indelével da Padaria, já que, apesar da maioria dos membros serem escritores, existiram músicos, artistas plásticos... Essa heterogeneidade transcendeu os membros e se proclamou nos textos de prosa e poesia, com estilos Românticos, Realistas (de extrema exaltação à época), Naturalistas, Simbolistas...

cafe java certo.jpg Café Java A expressão definitiva da agremiação foi o jornal O Pão, que jorrou a poesia da cultura popular. Parte essencial para a perpetuação da Padaria. Proclamação de uma irreverência inerente ao seu fundador.

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O movimento foi estratificado em 3 fases, e as oscilações dos artistas nessas fases foram fundamentais para um amadurecimento profícuo e comprometido. Os artistas que se destacaram, sendo os mais significativos, além de Antônio Sales, foram: Jovina Guedes (primeiro ‘’padeiro-mor’’), Henrique Jorge (músico), José Carlos Costa Ribeiro Junior (segundo ‘’padeiro-mor’’) Luis Sá (artista plástico), Rodolfo Teófilo (terceiro ‘’padeiro-mor’’), Adolfo Caminha (teve reconhecimento no Rio de Janeiro, com a publicação do livro ‘’A Normalista’’). Os pseudônimos dos membros – premissa codificada no estatuto – remetiam, por vezes, à origem e História do Ceará. Alguns padeiros se desvincularam da agremiação e fundaram o Centro Literário (muito aquém da inovação da Padaria).

Paralelamente à euforia artística foi concebida a Academia Cearense de Letras (naquela época denominada apenas de Academia Cearense); sendo fundada, dentre outros, por alguns dos 'padeiros', como José Carlos Júnior. E foi a primeira Academia literária do Brasil, pois a Academia Brasileira de Letras (ABL) foi originada três anos depois, em 1897.

A Padaria Espiritual teve o nome emergido de um ''insight'' de Antônio Sales, enquanto degustava um pão. O pão para alimentar o espírito do povo. Ficou quase seis anos na áurea criativa da província, tendo seu fim em 1896.


Larissa Paes

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