Larissa Paes

''eu sou um blefe''

Michael Haneke e sua professora de piano

Com articulação impetuosa, o filme ''A professora de piano'' causa atração e repulsão. É uma obra sinuosa, pois perpassa a seara da sexualidade, e, de certa maneira, perigosa, já que é provocativo se desvincular das amarras da moralidade acerca de qualquer aspecto da sexualidade.


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Não é fácil digerir um filme que se finca na perversão sexual, mas não significa que seja um filme indigesto, de forma alguma. A obra do cineasta austríaco (baseada no livro de Elfriede Jelinek) é um percurso permeado de inquietações, de incômodos, pois conceber a humanidade em fendas ‘obscuras’ suscita estranheza e, consequentemente, certa rejeição, para alguns. Mas a construção feita por Haneke é um tanto solene, no sentido da não exposição bruta, visceral, que contribui para um determinado entrelaçamento com o espectador, pois, apesar de algumas repulsões inerentes ao contexto da perversão, a beleza incutida nos silêncios e na música sutil colabora para o adentrar na vereda instigante de uma mulher de uns 40 anos que é professora de piano no Conservatório de Viena, especialista em Schubert e forjada em transgressões.

A professora de piano Erika é interpretada pela atriz francesa Isabelle Huppert, numa avassaladora atuação. Huppert expressa cada inexpressão da personagem. O silêncio no forte rosto de Huppert é a sublimação do asco que Erika sente pelas pessoas (e por ela mesma), Por essa interpretação, ganha por Melhor Atriz no Festival de Cannes.

haneke.jpg Haneke e Huppert

O filme, com sua vagarosidade pretensiosa, representa, partindo de uma analogia com a música erudita (constante no filme), o segundo movimento de uma composição clássica (geralmente, uma composição apresenta 4 movimentos), pois este movimento, o andante, apresenta ritmo lento e denso, como num samba-canção.

O máximo de prazer que o corpo pode proporcionar é gerado pela dor. Erika incorpora, de certa forma, tal enunciado, com intervenção aleatória e impactante. Mas a personagem expõe mais o lado sádico que a vertente dele, ou seja, o masoquismo. Erika eclode de forma vigorosa o sadismo ao se envolver com um aluno, ou na satisfação ao depreciar o talento dos seus alunos, não admitindo o emergir de um promissor músico.

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Ser voyeur é a mais comum parafilia. E o filme arquiteta o voyeurismo de Erika fascinantemente. Há imersões altivas e que desvelam a dimensão de seus hábitos. Erika e sua aparência pudica agridem mais com seus hábitos do que uma pessoa que transmita mais 'abertamente' essa face. A agressão, nesses moldes, está no sentido do impacto visual feita de maneira penetrante.

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Alguém de uns 40 anos e com atitudes desmoralizantes morar com a mãe é intrigante, especialmente se essa mulher compartilha da mesma cama. Configura-se, assim, uma relação perturbadora, uma ‘’fusão’’ perigosa, que culmina num princípio de incesto, já que, apesar das brigas e de ser vista ainda como criança pela mãe, apresenta-se um amor que Erika só consegue entrelaçar com a mãe, de forma ‘distorcida’.

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Apesar disso, não há tempo para o amor, ou algo que se assemelhe a esse sentimento, Não há um vinculo afetivo, quer dizer, não há um desejo para esse tipo de vinculo, em relação à situação de Erika com o aluno Walter (Benoît Magime). Quando há a fissura involuntária, indesejável, desagradável para aquela perversão, vê-se que se configura o ápice de uma desestabilidade.

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Erika só se satisfaz sendo imperativa. Seu gozo é prioridade, não deixando o outro sobressair, ou mesmo se igualar.

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A normalidade acerca da sexualidade gera discussões, por vezes, pertinentes. A subjetividade é ofusca pelos dispositivos de saber-poder, enunciada por Foucault, ou seja, a sexualidade é permeada por discursos articulados para adestrar o sexo. Como diz Foucault, no seu livro História da Sexualidade I: A vontade de saber: ‘’anexou-se a irregularidade sexual à doença mental; da infância à velhice foi definida uma norma do desenvolvimento sexual e cuidadosamente caracterizando todos os desvios possíveis; organizaram-se controles pedagógicos e tratamentos médicos; em torno das mínimas fantasias, os moralistas, e também e sobretudo, os médicos trouxeram à baila todo o vocabulário enfático de abominação’’. A codificação estratégica da sexualidade é essencial para a gestão dos corpos, pelo biopoder.

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A professora de piano (La pianiste) é uma obra poética, abordando a sexualidade com sensibilidade. E desdobrando-se em infinitas leituras, já que a arte se constitui a partir do olhar variante do espectador. A arte adquire sentido na experiência.


Larissa Paes

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