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o blogue sobre sexo na Obvious

Leonor de Oliveira

Atualmente indecisa entre a escrita e a sexologia clínica. Psicóloga de profissão, escreve em http://prontoadespir.me/

"Sexus" e suas mulheres bobas

Considerações gerais acerca da relação de Henry Miller com as mulheres e com os outros.


acores-01.png Ilustração de Filipa Pinto

“Sexus” é o primeiro livro da trilogia Sexus, Plexus, Nexus de Henry Miller. Mr. Miller, a personagem central do romance, simultaneamente autobiográfica e ficcionada, pode irritar-nos (talvez por comportar-se como um parasita social psicopatado). A forma como parece dispor dos outros é causadora de uma enorme sensação de estranheza e desconforto – experiências dos sentidos apenas ultrapassadas pelas provocadas pelas personagens femininas, bobas. Ou pelo menos ele assim as representou.

A sua escrita, uma espécie de precursora da geração Beatnik, constrói uma narrativa incerta em que são depositados pensamentos em profusão e de onde brotam personagens às quais perdemos o rasto, por vezes, quase simultaneamente. O próprio Henry é mais descrito do que caracterizado profundamente, como se construísse mais de ações do que de sentimentos. Um estilo literário que dificulta a nossa relação com a personagem.

Paralelamente ao incômodo que nos pode causar o estilo de vida hedonista de Henry cresce a curiosidade acerca da próxima cena de sexo. Felizmente, nesta fase de vida de Henry Miller descrita no “Sexus”, tal nunca se fazia esperar.

O erotismo das cenas sexuais é explícito. As descrições são cruas e absolutamente detalhadas. Miller descreve-se como tendo uma virilidade mitológica e um desejo insaciável, mas mostra-se muito orientado para o prazer feminino. As suas (múltiplas) parceiras estão sempre molhadas e sequiosas pelo seu toque ou língua, prendas que este lhes oferta sem hesitar. Têm sempre orgasmos e anseiam por mais. Henry nunca lhos nega, além de que tudo o que lhes faz espontaneamente é recebido como uma dádiva. As descrições dos órgãos genitais, em qualquer dos estados, são inteiramente realistas, verdadeiras ilustrações. Confira:

“Eu tinha uma ereção tão a sangue frio que estava convencido de que não seria capaz de me vir. Além disso, interessava-me observar a performance como um espetador. Tirava-o quase todo, passava a ponta à roda das pétalas sedosas e molhadas, enfiava-o de novo e deixava-o ficar como uma rolha. Tinha as duas mãos à volta da sua pélvis, a puxá-la e a empurrá-la como me apetecia. «Faz, faz, ou dou em maluca», suplicou. Convenceu-me. Comecei a trabalhar nela como um êmbolo, fora-e-dentro, dentro-e-fora, a todo o comprimento, sem parar, enquanto ela gemia, Oh… Ah, Oh… Ah! E de súbito, zumba! Esguichei como uma baleia.”

Apesar do uso instrumental de todos em seu redor, Henry Miller nunca deixa de lhes ser querido. Até as mulheres com quem se relaciona parecem somente ofender-se por curtos instantes, aceitando-o, por fim. Estas mulheres, que ele vê como bobinhas com a maturidade (e hormonas) de uma adolescente, parecem representar uma fantasia naïf, muito sexual, mas naïf, não obstante. Estas “bobas” são também um mistério na forma como as representa, seres que não compreende realmente e que também o vão usando, como se procurasse demonstrar a crueldade arbitrária do mundo. Uma noção muito Beatnik, de uma filosofia que negava ser preconizador.


Leonor de Oliveira

Atualmente indecisa entre a escrita e a sexologia clínica. Psicóloga de profissão, escreve em http://prontoadespir.me/.
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